Arquivo mensal: Março 2010

Steve Fisk – Desfeita Ao Drum ‘N’ Bass

11.05.2001
Steve Fisk
Desfeita Ao Drum ‘N’ Bass

Quantos níveis existem de desfazer? Exactamente novecentos e noventa e nove para Steve Fisk. Colagens e delírios tão estranhos como a criatura informe a descansar sobre um crânio como o da capa de 999 Levels of Undo. Um pontapé no rabo do drum ‘n’ bass.

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Steve Fisk ´um génio do sampling que nos anos 80 gravou o mítico “448 Deathless Days”, do qual o novo álbum, “999 levels of undo”, é digno sucessor. Colaborador assíduo dos Negativland, assinou pelo meio colaborações na produção com os Nirvana, Soundgarden e Screaming Trees, ao mesmo tempo que devolveu ao som de Seattle a inovação perdida, com os Pigeonhead.
A sua música alia uma utilização do sampler – enquanto armazenador de memórias perdidas da música negra dos anos 70 e 80 – a concepções rítmicas que tanto devem à colagem contestatária dos Negativland como ao impulso cardíaco do drum ‘n’ bass, que Fisk obriga a escorregar para fora das pistas de dança. Para este veterano que coloriu com as travessuras do experimentalismo a estafada cena das bandas grunge de Seattle e conserva o gosto pelos velhos sintetizadores analógicos dos anos 70, a electrónica é um carro de combate e uma tenda de circo. Ou uma orquestra de acontecimentos em que as surpresas se sucedem ao ritmo de uma imaginação sem limites. “Desfazendo” o novelo dos estilos e o conforto da rotina, Steve Fisk fez um dos discos mais estimulantes do ano.

FM – O novo álbum, como o anterior “448 Deathless Days”, ostenta uma sonoridade que tanto parece ser criada a partir de máquinas analógicas, como logo a seguir toma formas inteiramente digitais…
STEVE FISK – Comecei a interessar-me pela electrónica aos 15 anos e um ano depois comprei o meu primeiro sintetizador, um A.R.P. Odyssey, hoje uma peça de museu. Se soava bem na altura, continua a soar bem agora. As pessoas redescobriram o prazer de ouvir estes aparelhos, como o mellotron, que também continuo a usar e que adorava ouvir nos anos 70, pelos King Crimson. O computador uso-o para fazer os ‘edits’, todos os sons que gravo são passados através dele. Sem ele, as colagens que faço nos meus discos soariam todas baralhadas. Já utilizava um em “448 Deathless Days”, de 1987, embora a maior parte de colagem desse álbum fosse manual.

FM – Esse estilo de colagens faz lembrar nalguns casos os Negativland, com quem de resto já colaborou, em “Escape From Noise”.

STEVE FISK – Gosto bastante dos Negativland, com quem trabalhei nesse álbum mas não só. Costumamos trocar samples por correio e temos uma quantidade de material que fizemos juntos, registado em cassete e pronto a ser editado, incluindo uma canção que soa vagamente a “White Rabbit”, dos Jefferson Airplane (risos). Estão sempre a pedir-me para lhes mandar sons que tenho gravados em casa. E faço parte de uma banda de improvisação, com Mark Hosler, um dos músicos do grupo.

FM – Qual a importância desempenhada pela música negra de dança num trabalho de composição que cita e desfaz, com toda a desfaçatez, as malhas do drum ‘n’ bass?

STEVE FISK – Sempre apreciei artistas como Prince, Stevie Wonder, Sly & The Family Stone, Parliament, Funkadelic, as bandas de Minneapolis. Embora eu procure o mesmo tipo de organicidade, a minha música está longe de ser dirigida para as pistas de dança, como faz DJ Shadow, por exemplo, que também admiro particularmente. E verdade que, até certo ponto, acabei em ‘999 Levels of Undo’ por ir parar ao drum ‘n’ bass, mas não foi uma atitude voluntária. Procuro evitar ao máximo ouvir as correntes musicais em voga, não se dê o caso de inconscientemente apanhar alguma ideia ou “Groove” alheio…

FM – Em termos de sampling, “999 Levels of Undo” é um álbum tão revolucionário como “Supermodified” de Amon Tobin. Conhece esse disco?

STEVE FISK – Esse é um grande elogio, comparar-me, em importância, ao Amon Tobin. É um músico fantástico. Ouvi-o recentemente num spot publicitário televisivo de uma marca de automóveis…

FM – É possível estabelecer comparações entre os seus discos a solo e o trabalho que desenvolveu entre um e outro, com Shawn Smith, nos Pigeonhed?

STEVE FISK – Há características comuns entre ‘448 Dethless Days’ e ‘999 Levels of Undo’, apresentando ambos uma quantidade de ‘drumbeats’ em cascata, falsos começos… Mas a música que componho a solo é muito diferente da que faço com os Pigeonhed que é bastante mais acelerada, estilo 130 batidas por minuto… Sozinho componho coisas menos frenéticas, num registo quase orquestral, na medida em que crio sequências de acontecimentos e efeitos especiais ligados entre si. Mas houve alturas em que cheguei a sentir-me embaraçado, por pensar que as pessoas pudessem associar os sons a um certo jazz-rock errático, quando o humor é afinal parte integrante da minha música. Gostaria que as pessoas se rissem ao ouvir certos temas…
FM – Rir, quando se confrontam logo à partida com uma imagem tão perturbante como a da capa?

STEVE FISK – A escultura original, da autoria de Katherine Wolf, é um bocado mórbida. Pedi a um amigo meu para fazer uma pintura de um crânio a partir dela e foi daí que resultaram todas as gravuras que aparecem na capa. A ideia é mostrar dois pólos opostos e indissociáveis, a vida e a morte. Creio que as imagens reflectem as minhas próprias formas e processos musicais.

FM – E o título, que à semelhança do disco anterior, recorre a um número, qual foi a ideia?

STEVE FISK – Partiu de uma piada em torno de um procedimento habitual em estúdio através do qual é sempre possível desfazer o último ‘take’ de uma gravação e voltar ao precedente… Wendy Carlos, por exemplo, criou no seu computador um sistema que permite bloquear esse processo, não suportava a simples possibilidade de que fosse apagada música que já estivesse feita, de alterar qualquer decisão sua na escolha das versões definitivas. Claro que também me passou pela cabeça que 999 é 666 invertido…

FM – Para terminar, uma lista dos seus discos favoritos…

STEVE FISK – “Computer World”, dos Kraftwerk; o primeiro volume de “Woodstock”, que me mostrou como soam as pessoas reais, num contexto real, em contraste com a forma como soam em estúdio. O som é péssimo e algumas das perfomances são de fugir, mas aprendi imenso com ele… O álbum ao vivo de Todd Rundgren com os Utopia – que, provavelmente, foi responsável por me ter posto a cabeça a funcionar de mil e uma maneiras “horríveis” – e o primeiro volume de uma colectânea de música electrónica da Columbia.

Jorge Palma – Jorge Palma

02.07.2001
Jorge Palma
Jorge Palma
Ed. E distri. EMI-VC
9/10
O Rugido Do Leão, O Choro Do Palhaço

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Vamos lá agarrar nele e pô-lo de pé. Não, não o sexo, mas Jorge Palma. Compostura é o que se exige ao cidadão… Ao músico, a esse, louvemos-lhe os excessos e entreguemos-lhe a palma, quando os resultados têm a magnificência deste “Jorge Palma”, que põe fim a um longo período de abstinência discográfica, interrompida esporadicamente por aparições ao vivo nas quais o peso da boémia tanto podia descambar no descalabro como fazer brotar a luz mais viva de uma alma que arde no fogo do álcool, do céu e do inferno. Ao “slogan” “É proibido fumar” impresso em letras gordas na capa responde o músico com o desprezo de quem acende mais um cigarro e decide os caminhos da sua vida.
São 12 canções. Algumas delas no limiar da perfeição. Depois da abertura, com “Dormia tão sossegada”, feito a pensar nas rádios, Z. Z. Top À portuguesa, sem barba, “Tempo dos assassinos” corta a direito e fundo como uma faca. Os “blues”, o sangue, o grito, a alucinação de lucidez. “Vivemos no tempo dos assassinos/ Tempo de todos os hinos/ Ouvimos dobrar os sinos/ Quem mais jura é quem mais mente/ Vou arquitectar destinos/ sou praticamente demente”. Segue-se uma de social, “Sete (está-se tudo a passar)”. Abrasileirado na forma. Dorido por dentro. A partir de aqui “Jorge Palma” mergulha no oceano da noite, no lirismo mais pungente, nas melodias e emoções de um mundo interior sem fronteiras, terno e selvagem. “Quem és tu de novo?” é um clássico, o piano desolado, a vocalização à deriva no destino de um tempo que passa e não volta, canção de amor, enfim, entram num registo equivalente a “Over”, de Peter Hammill. Existe, aliás, um paralelismo notável entre Jorge Palma e este músico inglês, fundador dos Van Der Graaf Generator, que vem de longe. Como se ambos seguissem caminho idêntico, em direcção a um desconhecido comum. “Olhos de Catarina”, outra canção notável, acentua a semelhança. Nos arranjos de piano, nas deambulações da voz, na própria temática e arrumação poética e na construção das melodias. Perturbante. Uma das sequências de “Duas Amigas” praticamente decalca Hammill e o final de violinos (pelos Corvos) toca de perto “The Quiet Zone/The Pleasure Dome”, dos VDGG. E, no entanto, estas como todas as outras canções de “Jorge Palma”, são pertença exclusiva do seu autor. Se o termo “irmão espiritual” faz algum sentido então este aplica-se melhor do que a ninguém a Jorge Palma e a Peter Hammill. “Espécie de Vampiro” é outro dos picos de “Jorge Palma”. “Eu sou muito mais que velho/E intimido qualquer espelho/Sou o amigo mais funesto da poesia”. Fritz Lang, no gume da faca que de novo se afia. E guitarras eléctricas incandescentes (de Flak e Zé Pedro) que aos poucos se diluem numa poça de sangue. Esta sequência de quatro temas bastaria para justificar o regresso de Palma aos estúdios.
Os Beatles, de “Norwegian wood” a “”Mother nature’s son”, vivem obliquamente em “Beijos e papas de leite”, veia pop que em “Disse fêmea” – com texto de Arnold Wesker, traduzido por Maria Velho da Costa – é ferida pelos relâmpagos do saxofone “free” de Paulo Curado, em mais uma balada palmahammilliana. “Sonhadores inaptos” cria o ambiente de cabaré, prolongado no autobiográfico “Do pobre b.b.”, de Bertolt Brecht que, quase sem nos darmos conta, se conclui no em “Trapézio”, no horizonte errante de um circo, “entre o rugir de um leão e o choro de um palhaço”. O rugido e o choro. O leão e o palhaço. Jorge Palma viaja entre ambos e é nesta dialéctica entre nobreza e ridículo que a sua personalidade musical se estrutura. Como um sempre-em-pá.

Vários – Clicks & Cuts 2 (conj.)

22.06.2001
Um Corte No Titanic
Vários
Clicks & Cuts 2
3xCD Mille-Plateaux, distri. Ananana

LINK (Clicks & Cuts)

6/10
Plaid
Double Figure
Warp, distri. Zona Música
7/10
Autechre
Confield
Warp, distri. Zona Música
6/10
Crepitações, síncopes, interferências, avarias digitais. Clicks & cuts. Ao peso é mais barato. A corrente estética que os Pole inauguraram, quando foram remexer nos caixotes de lixo de Silicon Valley, e a editora alemã Mille-Plateaux abraçou de imediato, tem neste seu segundo volume da antologia, um catálogo geral, com apresentação minimalista e a conveniente teorização que é todo um programa de intenções. No geral, “Clicks & Cuts 2” fica-se por aqui. À quantidade (36 temas, por outros tantos autores) apenas correspondeu em percentagem mínima a qualidade. O primeiro volume prima pela monotonia, podendo os 12 temas ter sido elaborados por um só artista, tal a semelhança dos timbres e o desenvolvimento das programações click house. Há que dar uma varridela ao software. Ao fim de poucos minutos faz click, de facto, e cut. É o interesse a desligar.
No segundo CD, os powerbooks tentam sair da letargia, mas o raio de sol aceso de início por Vladislav Delay cedo se esgota em mais uma sequência de beats electrónicos cuja uniformidade chega a irritar. Mesmo Thomas Brinkmann e Kid606 se perdem entre tanto cinzentismo. A terminar, o terceiro CD foca o lado mais minimalista do minimalismo, roçando o silêncio e as frequências subliminares, nos Cyclo e nos Pan Sonic (aqui na sua versão clínica) para finalmente, e seguindo uma estratégia eficaz, “Clicks & Cuts 2” fechar com novo golpe de génio dos franceses DAT Politics, que em “Hardwai” fundem num único organismo o humor, o radicalismo, o prazer e a tortura.
Na Warp os pólos assumem cargas eléctricas opostas. Os Plaid insinuam-se. Os Autechre propõem o tudo ou nada, o amor ou o ódio. “Double Figure” é electrónica para vestir como uma máscara de carnaval veneziano, uma música tão elegante como burlesca que flui entre a “ambient”, o breakbeat , a tecno minimal e desmaios de jazz. No seu melhor balouça e acende luzinhas como um brinquedo electrónico de B. Fleishmann e respira com a mesma clareza e o mesmo aproveitamento do espaço dos Isan. Têm, além disso, o sentido da melodia e da magia. No seu pior, é longo em demasia. A meio as ideias esgotam-se, a magia esvai-se, as sensações petrificam. Mas enquanto dura, e dura o suficiente, como o coelho das pilhas Duracell, gira-se nesta música como num carrocel.
A imagem do carrocel também se aplica a “Confield”, mas neste caso para simbolizar a vertigem, a tontura e o movimento circular. Há quem encontre neste trabalho dos “Autechere” a glória electrónica do ano. “Confield” é um esquema algébrico, a música mais fria e sem alma que nos foi dada a ouvir nos últimos tempos. Com um gume aguçado apontado ao jazz digital, mas onde a gula do “Groove” descamba numa orgia de breakbeats, numa espécie de histeria cibernética. Entre o ambientalismo de alumínio de “Vi Scose poise” e a epilepsia breakbeatica de “Lentic catachresis”, “Confield” esgota-se na suas premissas. É um álbum orgulhoso, uma fortaleza apta a navegar nos mares gelados da tecnologia, mas o perigo espreita no horizonte. Aconteceu o mesmo ao Titanic.