Arquivo mensal: Setembro 2009

Jean-Luc Ponty – King Kong

09.02.2001
Jean-Luc Ponty
King Kong
Liberty, import. Lojas Valentim de Carvalho
7/10

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“Virtuose” do violino electrificado, o francês Jean-Luc Ponty mais do que compositor de excepção, notabilizou-se como notável executante na área do jazz de fusão. “King Kong”, de 1970, é uma das suas obras menos conhecidas, preenchida por versões de temas de Frank Zappa, produtor do álbum e com quem já tinha tocado, na obra-prima “Hot Rats”. Ponty faria mesmo parte da formação oficial dos Mothers of Invention, para a gravação de “Overnite Sensation” (1973), voltando ainda para colaborar em “Sleep Dirt” (1979). Faixas como “Idiot Bastard Son”, “Twenty Small Cigars”, “How Would You Like To Have a Head Like That” e “America drinks and go home”, se perdem na transposição a carga de sarcasmo dos originais, ganham em contrapartida uma dimensão virtuosística e um jogo de arquitectura instrumental que põe em relevo todas as nuances do trabalho de composição de Zappa. Aspecto que na longa suite “Music for electric violin nad low budget orchestra” atinge os domínios da mais pura abstracção.

GHYMES – Rege

09.02.2001
GHYMES
Rege
Fono, distri. Megamúsica
8/10

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A juntar a outras bandas folk húngaras como os Muzsikas, Kolinda, Vasmalom, Vizönto, Sebö Ensemble, Vujicsics, Mákvirág ou Zsaratnók, os Ghyme surgem, julgamos que pela primeira vez no mercado português, com “rege”. Com toda a justiça e o entusiasmo que nos provocou a audição, literalmente a abrir, do título-tema, irresistível celebração de canto e música cuja extroversão dionisíaca revela o carácter ritual inerente a todas as danças tradicionais, enquanto “Bazsarózsa” faz lembrar, estranhamente, a Brigada Victor Jara, nos seus momentos de recolhimento. Com mais ou menos cedências aos cânones (a electrónica é usada de forma espantosa em “Csönd”), desprendem-se da música dos Ghymes a essência e o mistério balcânicos, com efeitos avassaladores nessa outra bebedeira de barbárie emocional que é “33”, ou balsâmicos, em baladas de toada medieval – quem se lembra dos Amazing Blondel? – como “Azért ne bãnködjál” e “Eskü”, em delicados recortes de cimbalon, flauta, harpa e gaita-de-foles. Música com sabor a gelado de lua.

Moebius & Plank – Rastakraut Pasta / Material

18.07.1997
Moebius & Plank
Rastakraut Pasta / Material (8)
Sky, import. Torpedo

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LINK (Parte 1)
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Dieter Moebius, metade dos míticos Cluster (com Roedelius) e Conny Plank, engenheiro de som da editora Brain, mais tarde Sky, cuja importância é inolvidável no desenvolvimento mais electrónico do “krautrock”, criaram, respectivamente em 1980 e 1981 estes dois álbuns, aqui acoplados na íntegra, nos quais se retomava o romantismo das máquinas, como fora enunciado e praticado pelos Cluster, desde “Zuckerzeit”, e os “Kraftwerk”, até “Autobahn”. “Rastakraut Pasta”, como o próprio nome indica, retoma em bases fabris e analíticos compassos que se poderão, virtualmente, associar ao “reggae”, como fizeram os Can, em “Flow Motion” (registe-se que Holger Czukay participa aqui em dois temas). Música sem princípio nem fim, retrato da monotonia e de uma tendência estética global de fuga ligados à sociedade germânica do pós-guerra, “Rastakraut Pasta” ilude quem pretender ver nestes sons electronicamente preguiçosos, marcas redundantes de um psicadelismo tardio. Era antes uma aproximação racional à irracionalidade da música étnica, segundo uma atitude que desembocaria no “tecno tribal” de “Zero Set”, juntamente com o baterista dos Guru Guru, Mani Neumeier e uma cantora africana. “Material”, num contraste quase violento, retoma o andamento de motor dos Harmonia e dos Neu!, como viria a ser accionado pelos Stereolab e, mais tarde, pela multidão de discípulos do pós-rock. Minimalista, sem ser redutora, fria, sem gelar nem a inteligência nem a emoção, a música de “Material” prefigura a versão mais suave do “super-homem”, na sua sucessão de temas vazios mas possuídos por uma desmesurada vontade de poder.