Arquivo mensal: Setembro 2009

Paul Simon – Songs From “The Capeman”

14.11.1997
Sob A Capa Do Vampiro
Paul Simon
Songs From “The Capeman” (8)
Warner Bros. distri. Warner Music

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Há cerca de seis anos que Paul Simon não entrava num estúdio para gravar novas canções. O que ninguém sabia é que, precisamente desde essa altura, ou seja, desde o princípio desta década, o antigo companheiro de Art Garfunkel tem passado o tempo a compor para uma obra de dimensões ambiciosas. O resultado final de todo este labor, é nada mais nada menos, um “music-hall” intitulado “The Capeman”, a estrear em Nova Iorque a 8 de Janeiro do próximo ano. As letras de “The Capeman”, da autoria de Derek Walcott, prémio Nobel da Literatura em 1992, e com raízes caraibenhas, narram a história verídica de Slavador Agron, um jovem porto-riquenho membro de um “gang2 do Upper West Side de Nova Iorque, que foi condenado à morte aos 16 anos, em 1959, acusado de ter esfaqueado dois adolescentes pertencentes a um “gang” rival, os “The Norsemen”, sendo a pena comutada alguns anos mais tarde. Salvador era conhecido por “The Capeman” devido a envergar uma capa negra, símbolo do “gang” a que pertencia, “The Vampires” (“Os Vampiros”). A versão de “The Capeman” destinada aos palcos inclui um total de 30 canções e a participação de uma companhia de 40 cantores e dançarinos.
O presente lançamento faz uma selecção de 13 dessas canções, incluindo colaborações com os convidados Ruben Blades, Marc Anthony e Ednita Nazario, três nomes famosos de cena musical latino americana com presença habitual nos ecrãs televisivos, no canal HTV.
A esta quantidade de meios e de ambição corresponde um dos mais sólidos trabalhos musicais de toda a carreira de Paul Simon, com base nas culturas e na música do chamado “Terceiro Mundo”, dando deste modo sequência a uma tendência que se tem vindo a acentuar em álbuns como “Graceland”, com ênfase na música do “soweto” da África do Sul, e no mais recente “Rhythm of the Saints”, em torno da música tradicional brasileira. Em “The Capeman”, cada canção foi escrita especificamente para uma personagem, sobressaindo progressivamente o carácter da personagem principal, que acabou por morrer aos 43 anos, pouco depois de ter saído da prisão.
“The Capeman” é um álbum de muitas e diversificadas cores, com uma linguagem por vezes crua, confirmando que a “loucura” de Paul Simon está longe de se poder considerar extinta. Centrada num conceito, a música diverge por uma pluralidade de facetas que permitem pôr em evidência a experiência acumulada pelo autor ao longo das últimas quatro décadas, concretizada num som que, matizado por múltiplas notas étnicas, não é world music, mas o testemunho de um compositor-intérprete criador de uma linguagem amadurecida que tanto afirma o enraizamento na tradição clássica dos grandes autores norte-americanos como se mantém atenta Às contribuições provenientes das culturas “marginais” que a sustentam de fora para dentro. “Se o som da música está certo”, diz o compositor, “então percebe-se a história”.
No início, predomina a religiosidade e um sentido de unidade, em temas como “adios hermanos”, “Born in Puerto Rico” e “Satin summer nights”, a primeira numa polifonia evocativa dos Ladysmith Black Mambazo, a terceira inspirada directamente no “gospel”. “The Vampires”, um dos momentos altos do disco, é um “mambo” com a força dos cubanos Sierra Maestro, num quadro de latinidade equivalente ao que David Byrne traçou no seu “Rei Momo”. As vocalizações “doo-wop” surgem em “Quality”, a anteceder o tom confessional de “Can I Forgive Him” e a arrebatada interpretação da convidada Ednita Nazario, em “Sunday afternoon”. Toda a parte final é mais “americana”, sugerindo a aglutinação de culturas, presente numa “cowboy song”, “Killer wants to go to college”, e na recupareção da “country”, segundo a linhagem de Johnny Cash, em “Virgil2, ficando aberto o caminho para duas baladas plenas daquela claridade que, álbum após álbum, Paul Simon vem sujeitando a um trabalho de metódica depuração, “Time is an ocean” e “Trailway bus”.
Ao contrário de outros “songwriters” norte-americanos de nomeada, como Neil Young, a quem a pasagem do tempo vai deixando cicatrizes e empurrando para a fúria ou para o desencanto, Paul Simon evolui no sentido inverso, com uma pureza quase infantil, aproximando-se do estado de graça. “Still Crazy after All These Years”? Obviamente que sim, ao “ritmo dos santos”, a partir de agora em exibição num cinema perto de si, antes de explodir no espectáculo da Broadway no princípio do próximo ano.

Barry Black – Tragic Animal Stories

24.10.1997
Barry Black
Tragic Animal Stories (7)
Alias, distri. MVM

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“A Horrível verdade sobre o plâncton” é o título do primeiro tema desta colecção de histórias tristes sobre os animais nossos amigos. Barry Black, aliás Eric Bachmann, vocalista e guitarrista, nas horas vagas, dos ruidosos Archers of Loaf, muniu-se de iscos, armadilhas e de uma razoável dose de humor negro, para aprisionar neste seu estranho painel de “freaks” musicais alguns bicharocos em graus vários de angústia existencial. Tubarões farejadores de sangue, elefantes duelistas, abutres, cães, chimpanzés, caracóis e até uma aranha a afogar-se formam um bestiário conceptual que Bachmann aproveitou para dar livre curso a tendências musicais muito pouco ortodoxas. Sem filiação estilística visível, “Tragic Animal Stories” evoluiu intuitivamente, por vezes de forma “naif”, por instrumentais que oscilam entre os “filmes negros” de Barry Adamson, a leitura de pautas por uns Penguin Cafe pouco dotados, o “nonsense” melódico dos Residents, um gosto por brincadeiras infantis nas guitarras à maneira de Snakefinger e uma marcha de John Philip Sousa. Vibrafones e marimbas, potes de água, banjo, trombones e trompetes desorientados, um piano adormecido, percussões simplórias e intromissões sonoras várias tomaram a pastilha antes de fazer esta banda-sonora zoológica, entre a defesa neurótica dos direitos dos animais atingidos pelo infortúnio e a anedota do papagaio.

DK3 – Neutrons

24.10.1997
DK3
Neutrons (7)
Quarterstick, distri. MVM

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Alinhados entre o pós-rock dos Ganger e a facção mais sopradora da Recommended (Zero Pop, Orthotonics, Semantics, No Safety), os DK3 são um trio liderado por Duane Denison, guitarrista dos Jesus Lizard nos últimos oito anos. James Kimball, baterista e executante de “aquaharpa” (não se chega a perceber bem o som…) tocou antes nos Laughing Hyenas e fez sessões com o terrorista Jim Foetus. O terceiro elemento é Ken Vandermark, que também faz parte dos NRG Ensemble, o saxofonista poderoso que eleva “Neutrons” à categoria das “novas músicas” e ao convívio com o “jazz” mais desalinhado. É a ele que pertencem os momentos de maior vigor do álbum, em investidas saxofonísticas que recuperam o lado nevrótico dos Lounge Lizards e a vertente poética dos Jazz Passengers, em temas como “Landshark pt.2”, “Monte´s Casino” e “The Travelling Salesman”. “Downriver” e “Neutrons” remetem-se à batida marcial do pós-rock “mainstream” (vejam lá como todos os movimentos, por mais inovadores que pretendam ser, acabam por deixar de fora a cauda do conformismo…), enquanto “Heavy Water” e “Issa” procuram os caminhos da experimentação, leia-se ruído executado com máximo rigor e concentração, do tipo guitarras eléctricas tocadas com arco e uma flauta de bisel que soa a esferovite no vidro. Para terminar, um curioso exercício de guitarra acústica minimalista, “Lullaby”, prelúdio de uma canção inexistente. “Neutrons” é uma explosão de energia hesitante entre libertar-se pelo “jazz” e acomodar-se à rítmica do (pós) rock.