Arquivo mensal: Junho 2009

Julie Driscoll & Brian Auger – Open (conj.)

21.11.2000
Jazz
Música Dura Da Máquina Mole
Do jazz os Soft Machine retêm mais os nervos e as ramificações cerebrais do que o coração. No final dos anos 60, ainda com os lunáticos Daevid Allen e Kevin Ayers, semearam o jardim de Canterbury, com um delicioso álbum de estreia “The Soft Machine”. Mas com a saída destes dois, o primeiro para formar os Gong, o segundo para se dedicar a apanhar sol, beber champagne e compor obras-primas de Pop-Valium como “Joy of a Toy” e “Shooting at the Moon”, Mike Ratledge, o teclista intelectual, Hugh Hopper, o baixista experimentalista e Robert Wyatt, o baterista que gostava de cantar, tomaram conta da “máquina mole” (“la machine molle”, como lhes chamavam em França, onde o grupo gozou sempre de uma enorme popularidade trocadilho fonético que Wyatt aproveitaria para dar nome a uma das suas bandas, os Matching Mole…).
A pop desapareceu para dar lugar a um híbrido de jazz-rock difícil de tragar para muitos mas indubitavelmente criativo e na origem de uma nova corrente que não parou de conquistar novos discípulos ao longo das décadas seguintes, dos parentes próximos Nucleus aos Isotope, passando pelos italianos Dedalus e os alemães Brainstorm. Depois de um álbum de transição, “Volume Two”, os Soft Machine entraram nos anos 70, com um álbum marcante dessa década, o duplo “Third”, cuja intricada rede feita de um jazz complexo e cerebral era cortada apenas por Wyatt numa estranha e longa canção de pop psicadélico intitulada “The moon in June”.
Mas a vertente matemática venceria nos seguintes e herméticos “Fourth” e “5”, obras instrumentais densas onde o swing é uma miragem e os executantes se comprazem em sobrepor compassos impossíveis. “Six” e “Seven”, agora reeditados sem qualquer mais valia em relação às edições anteriores, introduziram mudanças significativas na sonoridade dos Soft Machine. “Six”, outro duplo-álbum (na edição original em vinilo, de 1973) é composto por um disco ao vivo e outro de estúdio. Não se notam grandes diferenças. O jazz, ou o que lhe quiserem chamar, da “máquina mole” tornara-se minimalista, com as deambulações do saxofone e o oboé de Elton Dean e o fraseado cerrado e saturado de “fuzz” do órgão electrónico de Mike Ratledge (cujo estilo continua inimitável) empenhados em traçar equações de extrema rigidez sobre gotas de piano eléctrico e drones psicóticas. Karl Jenkins que viera dos Nucleus para se tornar aos poucos no líder incontestado dos Softs, empurrando cada vez mais Ratledge para um lugar secundário, até ao definitivo afastamento em “Softs”, dirigia ao piano eléctrico o futuro próximo da banda, “Seven”, também de 1973, é o derradeiro álbum em que Ratledge faz valer a sua originalidade, acrescentando ao som dos Soft Machine a novidade de solos de sintetizador (Alan Gowen, dos Gilgamesh, seria, neste aspecto, o seu principal discípulo) numa música geométrica e minimalista que já não era jazz, nem pop, mas um universo próprio definido pelas idossincrasias individuais de cada executante. A música electro-acústica, sequências de falso ambientalismo, solos de percussão pelo exímio John Marshall, divagações modais do soprador Jenkins corporizam em “Seven” um objecto único na discografia dos Soft Machine, indiscutivelmente uma das bandas mais originais e “difíceis” da década de 70. (Columbia, distri. Sony Música, 7/10 e 8/10).

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Outro grande teclista da cena inglesa dos anos 60 e 70 foi Brian Auger – Herbie Hancock considerava-o o melhor executante de órgão Hammond B-3 que alguma vez ouvira – autor de uma extensa e praticamente desconhecida discografia (para cima de duas dezenas de álbuns), agora reeditada na totalidade em versões remasterizadas e em formato digipak pela Disconforme. Antes de percorrer toda a década de 70 com os Oblivion Express, Brian fundou na década anterior os Trinity que cedo convocou para as suas fileiras uma voz feminina que se viria a tornar um dos ícones do flower power revolucionário: Julie Driscoll. Em “Open”, de 1968, com produção de Giorgio Gomelsky, o funk e o jazz rock proto-progressivo do organista introduz, na segunda metade do disco, a voz forte de Driscoll, como as de outras cantoras dessa época, como Grace Slick ou Janis Joplin as quais, num mundo dominado pelos homens, necessitava, de se impor pelo grito e pela agressividade. “Streetnoise”, do ano seguinte, daria mais espaço de manobra a esta vocalista tornada célebre com o single “This wheel’s on fire” (Disconforme, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10).
A emancipação definitiva ocorre nesse mesmo ano com o primeiro álbum a solo, “1969”, entrada decisiva nos domínios do jazz, onde Julie Driscoll se fazia acompanhar por luminárias como Chris Spedding, Keith Tippett (o pianista com quem viria a casar, passando a chamar-se Julie Tippetts), Elton Dean (então saxofonista dos Soft machine), nick Evans, Brian Godding, jeff Clynne, Trevor Tomkins (um dos parceiros do derradeiro álbum gravado com o malogrado Alan Gowen, “Before a Word os Said”), marc Charig, Karl Jenkins e Bob Downes, entre outros. Metamorfose que se completaria no belíssimo “Sunset Glow”, já com o apelido Tippetts, um álbum apaixonado pelas cristalizações e pelos gemidos de alma de Robert Wyatt. (One Way, import. FNAC, 7/10)

George Duke, outro pianista famoso do jazz rock, produziu e arranjou em 1970, para a MPS, “Here and Now”, do grupo vocal feminino The Third Wave, cinco irmãs adolescentes de ascendência japonesa, de voz cristalina e empenhadas em açucarar canções que vão de “Eleanor Rigby”, dos Beatles, a “Maiden Voyage”, de Herbie Hancock a “standards” como “Chloe” e “Stormy”. Jazz de Verão com sabor a bossa-nova. (Crippled Dick Hot Wax, distri. Symbiose, 6/10).

Nos anos 60 a chamada “free music” explodiu nas Ilhas Britânicas. Formações como os Trio (de John Surman, Stu Martin e Barre Philips), Spontaneous Music Ensemble, AMM ou Ovary Lodge (com Keith e Julie Tippets) abriram o “free jazz” a um tipo de improvisação mais conceptual e formalista que integrava elementos da música contemporânea, electrónica e elementos extraídos do rock. “A Genuine Tongue Funeral” de Gary Burton com Carla bley e “Escalator over the hill”, de Carla Bley tipificam exemplarmente formas mais organizadas dessa liberade redescoberta fora dos parâmetros definidos pelo “free” negro. A par destas formações em constante mutação surgiram várias big bands como Chris McGregor’s Brotherhood of Breath, os Centiped e as agora reeditadas e remasterizadas orquestras dos pianistas Mike Westbrook e Mike Gibbs. “Mike Westbrook’s Metropolis”, de 1971, com Kenny Wheeler, Harold Beckett, Henry Lowther, Alan Skidmore, John Taylor, Gary Boyle, John Marshall, Malcolm Griffiths, Paul Rutherford e Norma Winstone, entre outros, centra algumas das coordenadas da “free music”, firme em bases rítmicas (de Miles a Mingus, passando pelo funk e pelo rock) e referências alicerçadas no passado (como na belíssima “Part IV”, com voos do trompete de Lowther e do trombone de Griffiths sobre um horizonte Ellingtoniano) mas que não hesita em lançar-se num espaço sem margens como acontece sempre que a voz de Norma Winstone se lança sem rede no que de mais “free” o canto e pode permitir, em jorro de onomatopeias e altercações emocionais. Abrasiva, a oitava parte, com a orquestra a arder em múltiplas improvisações colectivas antes do piano do líder apagar as labaredas. (BGO, distri. Megamúsica, 8/10)

Na formação e Mike Gibbs, em “The Only Chrome-Waterfall Orchestra”, de 1975, pontificam como solistas Charlie Mariano, Philipe Catherine e Steve Swallow, a par de acompanhantes de luxo como Stan Sulzmann, outra vez Kenny Wheeler e Henry Lowther, Chris Pyne, Ray Warleigh, Alan Skidmore e Tony Coe. Evitando os paroxismos da “Metropolis” de Westbrook, Mike Gibbs desenha neste álbum uma espécie de alter-ego musculado do melodicismo da escola de Canterbury, na linha de “Kaleidoscope of Rainbows”, de Neil Ardley, com base em fraseados lineares e num romantismo e numa excentricidade tipicamente britânicos, nos antípodas da grande música negra. Jazz Rock, elegante como só os ingleses o conseguem ser. Extraordinário o tema “Blackgang”, a fazer lembrar o inclassificável ”Fictious Sports” organizados por Carla Bley com a conivência de Nick Mason, baterista dos Pink Floyd. “Unfinished Sympathy” é tipicamente Mahavishnu Orchestra (de “Birds of Fire” com o guitarrista Philip Catherine entregue a uma mais do que razoável personificação de John McLaughlin” (BGO, distri. Megamúsica, 8/10).

À semelhança de inúmeras bandas de rock progressivo (os King Crimson de “Lizard”, Egg, Bem, Running Man, etc.) os The Greatest Show on Earth enriqueceram a sua música com apontamentos de jazz. Nos dois únicos álbuns que gravaram para a Harvest, “Horizons” e “The Going’s Easy”, ambos de 1970, canções pop psicadélicas, resquícios de rhythm ‘n’ blues, colagens progressivas e melodias esquizóides tropeçam em solos de sax, palacetes barrocos de cravo e bebedeiras de órgão electrónico. Não é jazz, nem de perto nem de longe, mas pode bem ser divertido entrar neste museu de figuras de cera. (Repertoire, distri. Megamúsica, 7/10 e 6/10).

Eduardo Paniagua – Cantigas de Castilla-La Mancha

06.10.2000
Folk
Trovas Antigas
Eduardo Paniagua
“Cantigas de Castilla-La Mancha” (8/10)
Pneuma, distri. MC-Mundo da Canção

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Em “Cantigas de Castilla-La Mancha”, canções de Afonso X, o Sábio (1221-1284), a folk mergulha na música antiga pela mão de Eduardo Paniagua, antigo elemento de uma das mais importantes formações europeias deste “género” musical, os Atrium Musicae, de Madrid, ao lado do seu irmão Luis Paniagua, integrando posteriormente os também importantes Calamus. Nestas “Cantigas de Castilla-La Mancha”, com edição no seu próprio selo Pneuma e na sequência de anteriores obras, uma dedicada às “Cantigas de Santa Maria”, do mesmo Afonso X, “Curative Remedies” e “Cantigas de Castilla y Léon”, encontramos Eduardo Paniagua à frente dos Mísoca Antigua na continuação de uma obra inteiramente dedicada à música medieval espanhola. Recorrendo a um instrumentário antigo composto por alaúdes, gaita-de-foles, sanfona, saltério, organeto, cítola, etc., os Música Antigua fazem-nos recuar a um tempo mítico que, apelidado de “idade das trevas”, deixou-se como poucos atravessar pela luz. Há uma corda em nós que vibra na frequência da eternidade. Experimentem sintonizar na frequência deste álbum para ver o que acontece.

Bryan Ferry – These Foolish Things (conj.)

12.05.2000
Reedições
Um Outro Tempo, Um Outro Lugar
Roxy Music
Manifesto (7/10)
Flesh + Blood (7/10)
Avalon (6/10)
Bryan Ferry
These Foolish Things (8/10)
Another Time, Another Place (8/10)
Let’s Stick Togheter (7/10)
The Bride Stripped Bare (7/10)
Virgin, distri. EMI-VC

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Os melómanos / consumidores mais compulsivos não têm mãos a medir, diante da oferta que se lhes depara, apresentando as gravações mais perfeitas ou as capas mais fiéis aos originais, dos discos reeditados dos seus ídolos. Arrumados os vinis na estante, chegou a vez de também os CD rapidamente ganharem poeira, em remasterizações que competem entre si no recorde de bits. Mas com os Roxy Music, à semelhança de outros casos, vale mesmo a pena possuir o “objecto perfeito”. Completa uma primeira fase de remasterizações dos primeiros cinco álbuns do grupo, compreendida entre “Roxy Music”, de 1972, e “Siren”, de 1975, seguiram-se os três álbuns respeitantes à última fase, “Manifesto”, de 1979, de “Flesh + Blood”, de 1980, e “Avalon”, de 1982. Pouco tempo depois chegavam aos escaparates nacionais as remasterizações, embaladas em capas melhoradas, dos cinco primeiros álbuns a solo de Bryan Ferry.
Dos três últimos Roxy Music, “Manifesto” é o trabalho que menos desmerece dos anteriores trabalhos de estúdio do grupo. O cabaré retrofuturista já fechara as portas e o glam fora definitivamente apagado dos rostos dos músicos, mas a festa não tinha ainda terminado. Continuava no casino e nos passos de uma dance music de manequins cortada ainda por alguma decadência, mas com os seus principais intervenientes, a começar por Ferry, a mostrarem-se incapazes de separar a pose da ironia. Dividido entre um “east side” e um “west side”, o som americano impunha-se através de uma soul elegante (Luther Vandross participa nos apoios vocais) que ofuscava a sofisticação e os maneirismos geniais dos cinco primeiros álbuns. “Angel eyes”, “Ain’t that so” e “Dance away” foram passados na rádio até à exaustão.
O álbum seguinte, “Flesh + Blood”, recupera as imagens das amazonas, mas perde na comparação com o seu antecessor. A energia está mais dispersa, a tensão de opostos que sempre servira de carburante para a criatividade do grupo dera lugar a uma máquina bem oleada. Mas, se “Same old scene” ou “My only love” são canções feitas para ficar no ouvido, é difícil resistir ao apelo nocturno de “In the midnight hour” e, sobretudo, à versão estratosférica de “Eight miles high”, dos Byrds.
Previsivelmente, o último capítulo da saga, “Avalon”, capitaliza em exclusivo no enfeite e no luxo dos arranjos e da produção. Álbum limpo, suave ao ouvido como cetim, o seu brilho é o de um pechisbeque bem confeccionado que procura arrancar em força com mais um “hit”, “more than this”, mas rapidamente se esgota em instrumentais de um hedonismo onde a pele dera lugar a uma película de plástico. Ah, é verdade, já circulam por aí as versões cartonadas destes três álbuns…
Bastante mais interessante acabou por ser o percurso a solo de Ferry, também neste caso, com os cinco primeiros álbuns a mostrarem-se os mais pujantes. “These foolish things”, de 1973, confirmava a faceta de “crooner” do cantor, ao mesmo tempo que o impunha como um “gourmet” apto a degustar tanto os “standards” de décadas mais recuadas (de forma infinitamente mais conseguida, diga-se de passagem, do que no recente “As time goes by”), como clássicos pop de Dylan ou dos Rolling Stones. A afectação e o exagero resultavam bem melhor do que a imagem cansada e “snob” que viria a seguir.
“Another Time, Another Place”, editado no ano seguinte, continua a mesma estratégia de versões nas quais se torna difícil distinguir a desmontagem sarcástica e a homenagem devota. Fosse como fosse, ganham colorido e um delicioso desequilíbrio canções como “Help me make it through the night” e a irresistivelmente apaixonada “Smoke gets in your eyes”, dignas de partilharem as imagens de Ingrid Bergman e Humphrey Bogart.
Em “let’s Stick Togheter”, Bryan Ferry insistiu nas versões, mas desta feita de temas dos Roxy Music, como “Casanova”, “Sea Breezes”, “2HB”, “Chance Meeting” ou “Re-make / Re-model”, as quais, se não fazem esquecer o vigor e a faceta desestabilizadora veiculada pela banda, ganham porém no modo como o cantor extrai delas um licor amargo que, infelizmente, muito em breve iria perder todo o sabor.
Em 1977 o punk era rei e senhor e em “In Your Mind” Ferry não de furta a uma aproximação mais visceral ao rock. Foi o primeiro dos seus álbuns a ter honras de edição portuguesa. Em vez de um cenário de Hollywood e de idílios etílicos à beira de piscinas de champanhe, Ferry compunha agora as suas próprias canções, escudando-se por detrás de uns óculos escuros e transferindo as suas obsessões, em “All night operator”, para uma conversa telefónica – “All night operator, dial me a better line (…) Can’t you hear me talkin’ to you? Do telephones make you cry?” – com chamada a pagar no destino, por um eco de amargura.
Recebido na época como um álbum “surrealista”, “The Bride Stripped Bare” (o título é, aliás, o de uma pintura de Marcel Duchamp), de 1978, é um álbum atravessado por pulsões contraditórias (que era o que distinguia os Roxy Music da primeira fase de todos os outros grupos dos anos 70), onde o gospel, a soul, o sentimento de culpa, a passagem do tempo, a desilusão e – sempre – uma inultrapassável elegância correm por lamentos como “Take me to the river” ou pelo tradicional irlandês “Carrickfergus” antes de desaguarem – “so near, yet so far” -, uma vez mais, na solidão.