Arquivo mensal: Junho 2009

Isabel Silvestre – Eu

05.05.2000
Isabel Silvestre
Eu (7/10)
Ed. e distri. EMI-VC

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LINK (A Portuguesa)

Não há nada a fazer, Isabel Silvestre possui uma daquelas vozes, misto de força, inocência e fragilidade, às quais é difícil resistir. Ouvi-a pela primeira vez no Grupo de Cantares de Manhouce, no clássico “Cantares da Beira”. O seu nome tornar-se-ia mediático através da participação num álbum dos GNT, “Rock in Rio Douro”, onde interpreta um tema que ficou no ouvido de todos, “Pronúncia do Norte”, gravando, depois disso, o seu primeiro álbum a solo, “A Portuguesa”, no qual dá a voz a originais de autores nacionais como José Afonso, José Mário Branco, António Variações e Rui Veloso. Neste seu novo trabalho a solo – produzido por João Gil e Mário Delgado e com as participações de Mário Delgado, João Nuno Represas e Rão Kyao -, a cantora de Manhouce interpreta apenas temas populares portugueses. Um passo lógico, atendendo a todo o percurso e antecedentes da cantora, mas que não deixa de suscitar algumas interrogações. Não pela voz mas pelo modo como o reportório escolhido parece por vezes não se enquadrar com o tratamento “modernizador” que os produtores lhe quiseram conferir, como acontece em “Ora mexe na casaca, mexe”, onde o eco final colado à voz não acrescenta grande coisa ao tema, ou em “Senhora da Saúde”, com a flauta muito R. Carlos Nakai de Rão Kyao e a voz subjugados pelos excessos de reverberação. Funcionam melhor a simplicidade dos arranjos de “São Gonçalo de Amarante”, “carinhosa”, “esta noite fui ó Fontelo”, “Ó povo deste lugar”, der sabor mais popular. Sabendo-se que Isabel Silvestre e os músicos que a “acompanharam” em estúdio gravaram em momentos diferentes, é impossível deixar de pensar no artificialismo de algumas destas ligações (o que faria Holger Czukay com esta voz?…) entre uma voz do povo e os operadores de maquilhagem.

Bert Jansch – Crimson Moon (conj.)

06.10.2000
Folk

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LINK (L.A. Turnaround – 2009)

Bert Jansch, ex-Pentangle e figura importante da folk inglesa (Jimmy Page e Neil Young reconhecem a sua influência), regressa, cinco anos depois do magnífico “When the Circus Comes to Town” com “Crimson Moon”. Canções que passam pelo ponto em que os blues e a folk inglesa rural se tocam, dentro de um espírito mais baladeiro e “sixties” do que o álbum anterior. A voz também já conheceu melhores dias, mas o estilo e a classe na guitarra estão intactos neste simpático caderno para o qual foram convidados Bernard Butler, dos Suede, e Johnny Marr, ex-Smiths. E em “Downunder” quase só falta a voz de Jacqui McShee para se ouvir os Pentangle, enquanto “October Song” evoca os mesmos acordes medievais de outro dos seus antigos companheiros no grupo, John Renbourn (castle Music, distri. Som Livre, 6/10).

Carlos Nunez também está de volta. A superestrela da gaita-de-foles passou a assinar grande parte dos temas e o resultado é desastroso. Em “Mayo Longo” o popular tornou-se popularucho. Depois de Dulce Pontes, a cantora portuguesa escolhida foi desta feita Anabela. O galego gostou tanto dela que a convidou para cantar nos seus concertos em regime permanente. Sharon Shannon, Liam O’Flynn, Donál Lunny, o coitado do Ronnie Drew (dos Dubliners) que já não tem idade para estes disparates, e Dan Ar Braz (acompanhado pela sua “entourage” L’Heritage dês Celtes no tema final) são os nomes folk convidados mais sonates. Participam ainda Liam O’Maonlai, dos Hothouse Flowers, Hector Zazou e outro português, Guilherme Inês, que faz companhia, no piano, a Anabela, no título tema. Capaxz do “melhor”, aqui apenas com nota “suficiente”, nos registos mais tradicionais, e do pior, no escabroso “the moon says hello”, vocalizado por Roger Hodgson, ex-Supertramp, ou nuns “Astros, fuentes y flores”, capazes delevarem Anabela de novo à Eurovisão, Carlos Nunez está a merecer levar um correctivo. Um disco para esquecer (Ed. e distri., BMG, 3/10).

Os escoceses Ceolbeg, pelo contrário, estão cada vez melhores (pelo menos em disco, já que ao vivo as suas actuações deixam algo a desejar…). O lado rockeiro dos primeiros álbuns praticamente desapareceu e os desempenhos no novo “Cairn Water”, nos dois extremos da paleta rítmica, de Gary West, na gaita-de-foles, e Wendy Stewart, na harpa céltica, são um deleite. Até mesmo a versão de “To each and everyone of you”, de Gerry Rafferty, que no Intercéltico do Porto deste ano soou desconchavado e fora de contexto, surge aqui como a pequena jóia da folk contemporânea que na realidade é. A continuarem assim, os Ceolbeg arriscam-se a entrar para o clube selecto dos clássicos (Greentrax, distri. MC-Mundo da Canção, 8/10).

Pela primeira vez disponível em CD, além de mais em edição remasterizada, está “Tender Hooks” (1978) de Gay and Terry Woods, um exemplar representativo da fase tardia do folk rock inglês dos anos 70. Terry Woods fez parte dos Sweeney’s Men (aos quais também pertencia Andy Irvine, que se notabilizaria nos Planxty) antes de integrar a primeira formação dos Steeleye Span, grupo com o qual ele e Gay Woods gravaram o álbum de estreia “Hark! The Village Wait”. Gay regressaria aos Steeleye Span quase 30 anos depois, formando com Maddy Prior a dupla de vozes femininas do grupo. Antes deste “Tender Hooks”, Terry e Gay já tinham assinado o clássico do folk rock “The Woods Band”, do colectivo com o mesmo nome. “Tender Hooks” conta com a colaboração de Kate McGarrigle e Pat Donaldson (ex-Fotheringay, de Sandy Denny) e poderá ser um “must” para os apreciadores de baladas com um leve sabor americanizado. Era uma época difícil para a folk inglesa e “Tender Hokks” reflecte a hesitação quanto ao caminho a seguir. Em “I won’t belive it” o saxofone soa aos Roxy Music… (Cooking Vinyl, distri. Megamúsica, 6/10).

Ajoelhem aos pés dos Oskorri, no trono da música tradicional do País Basco há mais de meio século. “Ura”, o méis recente capítulo de uma discografia extensa e quase sempre brilhante, é um daqueles trabalhos imbuídos e uma dignidade inquestionável e a continuação sustentada de toda uma obra com alicerces sólidos. Uma entre várias etapas fundamentais de um percurso que não admite quebras nem desfalecimentos, mas que a cada novo avanço parece descobrir novas delicadezas e uma ternura impossíveis de descrever. Quem já conhece a música tradicional desta região, através de anteriores trabalhos dos Oskorri ou da descoberta recente dos Hiru Truku, saberá reconhecer os tesouros contidos em “Ura”. E, como acontece com as instituições, os Oskorri atraem gente ilustre. Aqui os convidados de alto gabarito dão pelos nomes de Glen Velez, Ivo Pasov (o clarinetista búlgaro mais rápido que a própria sombra) e Kepa Junkera (o acordeonista basco com dez dedos em cada mão) (Elkaranean, distri. Farol, 8/10).

Soul Center – Soul Center

18.02.2000
Soul Center – Soul Center (6/10)
W.v.B. Enterprises, distri. Ananana

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LINK

Uma das perguntas que ao longo dos últimos anos fiz a mim próprio foi: “Para que serve a música de dança?”. Sem que me desse conta, fez-se luz e a resposta brotou, luminosa, no meu cérebro: “Para dançar”. Armado com esta descoberta encarei de frente a tarefa de escrever sobre este álbum sobre o qual a informação é nula, exceptuando o facto de me terem dito que o mentor dos Soul Center é o alemão Thomas Brinkmann, o mesmo que no ano passado, no concerto de encerramento do Festival Reset!, me fez corar de vergonha, pondo-me a dançar ritmos tecno, ali em frente de toda a gente! O tema de abertura de “Soul Center” prolonga aquilo que se ouviu nessa ocasião: música electrónica primária mas extremamente eficaz. As coisas mudam de figura no tema seguinte, com um swing construído a partir de samples vocais que lembra “Idioglossia”, um excelente e ignorado álbum de Chris Burke. A batida tecno-tribal regressa no tema nº 3, o que me obrigou a saltar mais uma vez do computador para o meio da sala, possuído pelo furor da dança. “Funky Man!”, gritei de entusiasmo, os olhos injectados de sangue, as pernas fora de controle. Mais “funk” e vozes sampladas na faixa 4. Começo a ficar preocupado. Estou a gostar. Vejo ao longe James Brown acenar com os braços. Uma coberta de sintetizador de cetim analógico aumenta ainda mais a sedução. Thomas Brinkmann é um pragmático, tudo na sua música converge para a sagrada função de fazer dançar, custe o que custar, de forma por vezes linear mas sempre sob o comando, mais do que da inteligência, dos estímulos disparados pelos sentidos. Sem ser inovador, soando mesmo a anacronismo, “Soul Center” toca, afinal, nesse tal centro da alma – lugar onde convergem e de onde partem todas as danças.