Arquivo mensal: Junho 2009

Tele:Funken – A Collection of Ice Cream Vans Vol. 2 (conj.)

21.04.2000
Destruição, Gelados e Diversão
Funkstörung
Appetite for Destruction (8/10)
Studio !K7, distri. MVM
Solvent
Solvently one Listens (7/10)
Suction, distri. Matéria Prima

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LINK (Flying Saucer Attack / Tele:funken “Distant Station” [1996])

Tele:Funken
A Collection of Ice Cream Vans Vol. 2 (8/10)
Domino, distri. Ananana
Tone Rec
Demo Pack Démoli (8/10)
Quatermass, distri. Ananana
Sexo, violência, confusão e disciplina, a electrónica agita-se num paroxismo sanguinolento na música dos Funkstörung, uma dupla constituída por Michael Fakesh e Chris de Luca. Funk industrial, consistente, num conglomerado que em “Try dried frogs” e “A8 KM 34” arrasa por completo a arquitectura hip hop e em “Sounds like a breakrecord” e “Grammy winers” (ambos com a participação de Triple H) assume um lado activista através de um rap e scratch demolidores. Lembramo-nos de Mark Stewart e da sua “máfia”. “Think”, “1/10” (swing de metal percussivo) e “Red shirt, white shoes” (música industrial em levitação, coisa rara) contam com as vocalizações aéreas de Greenwood e Carin sobre massas incandescentes. “A bottle, a box and a mic” larga a mesma energia dos Einstürzende Neubauten combinados com os Public Enemy num “drum ‘n’ bass” pegajoso e residual que se cola à pele, antes de os 16 minutos finais de “Mind the gap” abrirem uma cratera de poeira radioactiva em suspensão no trip hop dos Portishead. Uma torneira de escape para tanta tensão.
O som dos Tele:Funken é mais analítico, proporcionando outro tipo de estímulos. Electrónica swingante na linha dos Shabotinski, FX Randomiz, Isan e Holosud que do krautrock extraiu a filosofia e do uso lúdico das novas tecnologias fez uma síntese para usar no imenso parque de diversões em que se transformou a música electrónica neste final de milénio. “Theme from Tele:Funken” abre em carrossel num convite a Gary Numan para se divertir com as suas “replicas” numa montanha-russa.
Os Solvent é que não escondem o seu fervor pelo passado, citando como influências os Human League, Depeche Mode, Soft cell, Fad Gadget, Yazoo e os Skinny Puppy, além de Lowfish e Aphex Twin. Pop electrónica, polida e ritmada, para fazer dançar robôs. Arrumar, depois de gasta, ao lado dos Mikron 64 e Nova Huta.
Em fase de reconhecimento nos meios da electrónica europeia, os radicais franceses Tone Rec, surgem pela primeira vez menos radicais, num álbum de remisturas, metade a cargo deles próprios, metade assinada por Fennesz, pelos primos Dat Politics e pelos To Rococo Rot. Da operação saíram experiências mais dançáveis do que o habitual no mundo angular dos Tone Rec, mais anarquizantes no caso de Fennesz, dos Dat Politics e nuns surpreendentemente virulentos To Rococo Rot do que na própria banda francesa que em “Trend” rubrica a faixa mais irresistível de toda a sua carreira – uma coisa viciante e oleada, alimentada a mel e gasolina, que é uma resposta absolutamente imparável à “auto-estrada” aberta pelos Kraftwerk. E quem quiser brincar ao giroflé e ao mesmo tempo dançar tecno à maneira dos Tone Rec só tem que ouvir “Giroflex”, saltar como um doido e ser conduzido em seguida ao manicómio.

Rodrigo Leão no seio de “Alma Mater”

13.10.2000
Rodrigo Leão no seio de “Alma Mater”
“O piano dá mais luz às músicas”

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Rodrigo Leão está de volta abraçado à “alma mãe”. Fechadas as portas do “Theatrum”, o antigo teclista dos Madredeus regressa com “Alma Mater”, música luminosa num álbum recheado de surpresas, com participações vocais de Adriana Calcanhotto e Lula Pena.
Foi há dois anos que Rodrigo Leão começou a preparar “Alma Mater”. Pelo meio meteram-se os Sétima Legião e “Sexto Sentido” – “um trabalho que me tirou para aí uns seis meses, demorou mais tempo a fazer que o “Theatrum” – e trabalho de estúdio, “muito acústico”, e de casa, “uma fase mais electrónica”. “Alma Mater” apresenta duas facetas musicais distintas que, no entanto, se entrecruzam como se fossem a única maneira de fazerem sentido. Uma mais “leve” e “new age”, pintalgada pelos toques pianísticos da escola impressionista francesa, à chuva, com Erik Satie, outra mais densa e “de câmara”, na sequência da anterior obra de Rodrigo Leão.
“Theatrum” encerrava um capítulo iniciado com ‘Ave Mundi Luminare’, com o ‘Mysterium’ pelo meio. Senti logo nas primeiras composições deste novo trabalho uma necessidade inconsciente de sair daquela densidade toda, de uma coisa muito mais maquinal”, explica Rodrigo Leão, destacando neste seu novo disco o seu carácter “melódico” e a sua “simplicidade”.
Na época em que gravou “Theatrum”, Rodrigo atravessava uma fase negra da sua vida. “Alma Mater” corresponderia então a um período solar? “A minha vida tem muito a ver com a música que faço”, anui. “Senti necessidade de me afastar do ‘Theatrum’.” Um afastamento do teatro que implica deitar fora as máscaras. “Alma Mater” é um álbum transparente.
Mais do que nos anteriores álbuns, o piano faz-se ouvir com a transparência do cristal. “Nos outros álbuns havia muitas coisas em piano que eu depois achava que eram de mais e acabava por mudar, enquanto neste acabaram por ficar. O piano dá mais luz às músicas.” Embora, neste caso, não se trate de um piano de cauda mas de um registo simulado no sintetizador. E há um sample de uma voz africana, em “Orionte”.
“New age”. Um terreno redutor. Rodrigo Leão não se sente incomodado. “Em Espanha, os meus trabalhos anteriores foram catalogados de ‘new age’, nos outros países foi arrumado na música clássica. Não me preocupo muito com isso, arrumarem a música que faço nalguma corrente.”
Uma dessas correntes é o tango. Dois temas de “Alma Mater” chamam a música do país de Gardel. Um deles, “Pasión”, vocalizado pela cantora convidada, Lula Pena. “Sou um admirador da obra de Piazolla”. “’Pasión’ já tinha uns cinco anos, era um instrumental, um tema alegre que contrastava com a melancolia dos outros todos. Foi já muito mais tarde que pensámos em pôr uma voz. A Lula Pena gostou do tema…”
Adriana Calcanhotto canta em “A Casa”, com poema de Ana Carolina, actual companheira do músico. Já tinha sido cantado em português, Rodrigo Leão não gostou. “Fazia lembrar um bocadinho Madredeus.” Mas como “faz lembrar, também um bocadinho, bossa nova”, Rodrigo Leão lembrou-se de alguém brasileiro para cantar. “Primeiro pensei no Caetano Veloso mas este ano fiquei a conhecer melhor a obra da Adriana, praticamente todos os discos dela, estabeleci o contacto e fui a correr até ao Rio de Janeiro…” O terceiro convidado especial de “Alma Mater” é o guitarrista português Pedro Jóia, especialista em flamenco. Em “Sossego” poderá avaliar-se em pormenor o seu estilo na guitarra clássica num tema pautado por uma melancolia e cadência muito satieanas.
“Dragão” está a um pequeno passo de poder ser dançado. “É um bocadinho Sétima, depois de ter sido uma música mais a ver com os Joy Division. Tinha só tambores mas depois, na mistura, não funcionou. Acabámos por optar por uma coisa mais simples.”
De “Theatrum” para “Alma Mater” ficou, pelo menos, o título em latim. “Este é metade português, metade latim, mas é um título que, por si só, já tem luz, tem muitos ares. É a mãe criadora, o sítio onde os antigos aprendiam a sabedoria. Para mim, simbolicamente, uma fonte de inspiração.”
Quem quiser partilhar com Rodrigo Leão e os Vox Ensemble esta sabedoria poderá fazê-lo já esta noite na festa de entrega dos Prémios Blitz.

The Move – Message From The Country (conj.)

17.03.2000
Reedições
Visões de Mescalina
Bernard Parmegiani é um dos mais importantes compositores de música electro-acústica franceses, da geração de nomes que se acolheu sob a égide do GRM (Groupe de Receherches Musicales) criado em 1958 por Pierre Schaeffer, como François Bayle, Michel Chion e Michel Redolfi. “Pop’Eclectic” é uma colagem de gravações de linguagens musicais díspares, como a pop, o jazz ou a ópera, integradas por Parmegiani em vinhetas de largo espectro sonoro e ideológico, aumentadas e alteradas através de processamentos electrónicos. Dois destes quatro temas, gravados entre 1966 e 1973, contam com a participação de Michel Portal e Bernard Vitet, um dos actuais elementos dos Un Drame Musical Instantané. Anos antes dos Residents, em “The Third Reich ‘n’ Roll”, e dos Nurse With Wound, em “The Sylvie and Babs High-Tigh Companion”, criarem os seus próprios Frankensteins, Bernard Parmegianni fazia esta declaração definitiva sobre a música enquanto fenómeno de autofagia, alterando e devorando contextos para, a partir de órgãos soltos, criar novos organismos autónomos. “Pop’Eclectic” é uma destas criaturas, que, passados 30 anos, mantém intactas todas as suas funções. Depois das recuperações recentes de Oskar Sala, Tom Recchion e Arne Nordheim, a presente reedição vem uma vez mais alertar para a importância e o pioneirismo de compositores como Bernard Parmegiani em correntes estéticas como o krautrock, o pós-rock ou a electrónica francesa dos anos 70. (Plate Lunch, distri. Matéria Prima, 9/10)

Os Procol Harum tiveram no final dos anos 60 o seu momento de glória, inundando os tops britânicos com o romantismo protogótico de “A whiter shade of pale” e “A Salty Dog”, repetindo o êxito, em larga escala, na década seguinte, com o álbum “Grand Hotel”. “Shine on Brightly” (na foto) e “A Salty Dog” respectivamente segundo e terceiro álbum da sua discografia, ambos lançados em 1968 e agora reeditados em luxuosos digipaks, são representativos da melhor fase do grupo, numa época em que a combinação entre a música de Gary Brooker (o organista que parecia tocar como se estivesse numa missa…) e os textos de Keith Reid deu origem a grandes canções. “Shine on Brightly” é o álbum mais experimental e progressivo dos Procol Harum. As canções espalham-se em várias direcções e, em comparação com o álbum de estreia, “Procol Harum”, tiram maior partido das possibilidades oferecidas pelo estúdio, mantendo-se o dramatismo das vocalizações e o ecletismo. O estilo clássico aflora em “Rambling on” e “Magdalene (my regal zanophone)”, uma das canções mais belas e tristes de “Shine on Brightly”. Mas é o longo tema (mais de 17 minutos) “In held twas in I” que volta o velho mundo dos Procol Harum de pernas para o ar. Um tema progressivo/psicadélico (o verde da capa poderia ser a cor das alucinações de mescalina…) que junta declamações ao estilo dos Moody Blues, ambientes clássicos tocados numa veia soturna, partes instrumentais incongruentes, divagações religiosas, libações de cabaré, sons de trovoada, sinos e sirenes (muitos anos antes de os Pink Floyd fazerem descer helicópteros nos discos…), e bocados de canções que escorriam do cavalo que Lucy cavalgava no céu com diamantes.
“A Salty Dog” impõe o estilo classizante de tons sombrios que caracterizaria daí para a frente a música do grupo. Além do já citado título-tema (que chegou a servir de matéria para uma tese de doutoramento que nele encontra 17 significados diferentes…) encontram-se neste álbum um punhado de excelentes canções, como “The milk of human kindness” (a fazer lembrar os Gracious, aliás como algumas sequências de “In held twas in I”), “Too much between us”, “The devil come from Kansas” e “All this and more”, num álbum onde os blues ainda estavam presentes mas em que o grupo usava pela primeira vez uma orquestra, opção que viria a ser explorada a fundo no álbum ao vivo de 1973, “Live in Edmonton”. (Repertoire, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8/10 e 7/10).

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Os The Move foram uma notável e, por vezes, bizarra banda pop dos anos 60, criadores de clássicos como “Flowers in the rain”, “Blackberry way” e “Brontossaurus”. Roy Wood era o seu hirsuto mentor, a ele se devendo a incorporação de instrumentos como o clarinete, o oboé e o fagote no meio de uma inofensiva canção pop. Quando os Move evoluíram para os Electric Light Orchestra (ELO) e, a seguir, formou os Wizzard, já Roy Wood arrastava atrás de si uma quantidade inacreditável de outros instrumentos. “Message from the Country” foi gravod em 1072, por imposição da editora, numa altura em que já todos pensavam nos ELO. Apesar de não ter a frescura dos dois primeiros álbuns, “The Move” e “Shazam”, “Message from the Country” contém alguns momentos especiais como “No Time” (ao nível e na mesma linha da pop insinuante dos The Kinks), “It wasn’t my idea to dance” (neste caso as semelhanças são com os Sparks), “The Minister” (com um solo de oboé arabizante) e “The words of Aaron” (o tema mais próximo dos clássicos “Flowers in the rain” e “Blackberry way”), acentuando-se a faceta camaleónica do grupo em paródias aos estilos vocais de Elvis presley (“Don’t mess me up”) e Johnny Cash (“Bem crawley steel company”). Para os ELO, estava reservado o caminho dos milhões. (BGO, distri. Megamúsica, 7/10).

Michael McGear não era nenhum camaleão nem um imitador, mas simplesmente o irmão mais novo de Paul McCartney. Fez parte de duas bandas para levar a brincar, os Scaffold (de “Lily the pink”, um “hit” absurdo de 1969) e os Grimms, e gravou a solo dois álbuns, “Woman” (1972) e “mcGear” (1974). Há quem diga que não ficava atrás do irmão em matéria de talento. “Woman” dá razão aos que pensam assim. McGear aliava ao talento de melodista do irmão o gosto pela excentricidade, o que, em “Woman”, resulta num leque de canções que seria de toda a justiça retirar do anonimato. Onze canções que são outras tantas pérolas de delicadeza, humor e sensibilidade, numa espécie de apêndice do “álbum branco” dos Beatles que também pode ser definido como um parente rock de outro ilustre McCartniano, Gerry Rafferty. Entre os músicos participantes em “Woman”, encontram-se Zoot Money, Gerry Conway (Fairport Convention, Fotheringay) e Brian Auger. (Edsel, import. Virgin, 7/10).