Arquivo mensal: Abril 2009

Arovane – Atol Scrap

07.07.2000
Arovane
Atol Scrap (7/10)
Din, distri. Symbiose

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LINK (parte 1)
LINK (parte 2)

Apontados com toda a justiça como os precursores de quase tudo o que nas décadas de 80 e 90 se desenvolveu à sombra do conceito “música electrónica”, das várias modalidades de dance music de cariz tecno anunciadas em “Trans Europe Express” ao industrialismo protagonizado na sua faceta mais experimentalista nos seminais “Kraftwerk” e “Kraftwerk 2”, os Kraftwerk fazem sentir agora, de igual modo e com renovada intensidade, a sua influência também na electrónica mais ambiental, sobretudo nas novas correntes “electro” com sede na Alemanha. E, se Brian Eno surge como o inventor do ambientalismo na sua forma mais extática e funcional, foram, contudo, Ralf Hutter e Florian Schneider que lhe aparafusaram o swing, em temas como o cristalino “Ananas symphonie”, do álbum “Ralf & Florian”, e o cósmico “Kometenmelodie 2”, de “Autobahn”. É sobretudo este balanço subtil que os Arovane, mais uma banda-de-um-só-músico, neste caso Uwe Zahn, descansam, num álbum que também não anda longe dos glaciares siderais dos Biosphere, nem das computações impressionistas do menos conhecido François Éli Roulin, músico francês autor de “Disque Rouge”. Mas é sobretudo na escola do norueguês Erik Wollo, de “Traces”, “Images of Light” e “Solstice”, que “Atol Scrap” se encaixa com maior naturalidade. As texturas de vidro e cristal e as programações de ambient tecno abrem compartimentos acústicos bem arejados postos a vibrar por um “Groove” que nas suas progressões mais hipnóticas (“Thaem nue”, “Norvum”, “Revart amx”) o prefiguram ainda como irmão introvertido dos Rechenzentrum.

Bobby Conn – Rise Up!

19.02.1999
O Anticristo Ataca
Bobby Conn
Rise Up! (8)
Truckstop, distri. MVM

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De vez em quando, aterra no aeroporto da pop gente estranha. Bobby Conn é o passageiro mais recente de uma comitiva de que fazem parte Kevin Ayers, Daevid Allen, Captain Beefheart, Kim Fowley, Brian Wilson, R. stevie Moore ou David Thomas, entre muitos outros. A “Roar Magazine” chama a este espécime bizarro “a brilliant demented genius”. Quanto a Conn, as suas pretensões vão no sentido de se assumir como um anticristo (entre outras coisas, afirma que Jesus está de volta, com uma pedrada de “crack”) que irá converter a América e o mundo ao poder da besta. As “Nações Unidas sob o poder de Satã” são sistematicamente anunciadas em registo de “surf music”, profetizando que o “armagedão”, o dia do juízo final, está próximo.
Além deste pequeno pormenor que poderá levar o planeta à ruína, Conn também fez a auto-amputação de um dedo, pretende que os seus discos sejam editados numa tal editora Cascablanca e afirma ser um cristão-novo, um orador, um guru e um chulo. Talvez por isso, o artista precipita no seu mundo delirante um dilúvio de referências que – se levarmos em conta uma lista lançada por alguma crítica norte-americana – integram Jon Spencer, Screamin’ Jay Hawkins, Captain Beefheart, Jackson Five, James Brown, Big Black, Schoenberg, Marilyn Manson, David Bowie, Frank Zappa, T. Rex, Mott the Hoople e os Beatles.
“Rise Up!” é um daqueles discos que resumem, de facto, uma quantidade de páginas da pop compreendidas entre os anos 60 e os 90. Um humor corrosivo e, por vezes, desconcertante, juntamente com o penteado em estilo cogumelo e uma facilidade enorme de percorrer, de canção para canção, estilos completamente contraditórios aproximam Conn de um farrista como Kim Fowley. A voz do cantor tanto soa a uma clonagem de David Bowie, de “Hunky Dory” e “Ziggy Stardust” (em “Rise Up” e “United Nations”) como se esganiça numa patetice tétrica dos Residents (“California”), ou estremece no falsete de Marc Bolan (“White Bread”).
Conn é o profeta da desgraça, numa paisagem apocalíptica de um desenho animado dos Jetson, flirtando com o jazz, a electrónica, o “disco-sound”, a country, o reggae, a bossa-nova, o funk e o rock ‘n’ roll, mas sempre num esquema de excentricidade que faz de “Rise Up” um manancial de surpresas e de reencontros na esquina errada da memória. Todo o universo visual e sonoro de Bobby Conn está desfasado, minado por uma esquizofrenia latente cujos sintomas são mais claros numa faixa como “A Conversation”, uma gravação de chamadas telefónicas captadas em directo, também neste caso convocando processos semelhantes aos usados por Kim Fowley na sua fase criativa de maior desiquilíbrio mental, em “Good Clea Fun” e “Outrageous”.
Ouve-se “Rise Up!” de ponta a ponta e não se percebe muito bem onde é que Conn pretende chegar, embora seja evidente a sua capacidade de nos surpreender a cada momento. Imaginemos, por exemplo, o que poderia ter acontecido – podemos imaginar tudo ao escutar este álbum!… – se Bowie tivesse levado o gravador, nos anos 70, para dentro de um armário, como fez R. Stevie Moore, esse glorioso maluco a quem o mundo um dia há-de fazer justiça. Apenas um palhaço que decidiu apresentar o seu conceito muito pessoal de “pós-rock”? Ou será que Conn é, afinal, um extraterrestre (mas daqueles excessivamente artificiais e coloridos, de “Marte Ataca”) disfarçado de rocker que escolheu mal a cabeleira?
Seja qual for a resposta, que nunca chegará, o melhor mesmo é voltar ao princípio e sorrir outra vez, porque nada parece estar no sítio onde parecia estar na audição anterior. A participação e produção de Jim O’Rourke ajuda a compreender muita coisa, mas não explica nada.

Amancio Prada, a Propósito da Edição de “De Mar E Terra”

07.07.2000
Amancio Prada, a Propósito da Edição de “De Mar E Terra”
“Cantar É Uma Forma de Oferecer A Alma”

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LINK (Canciones de Amor y Celda)

Amancio Prada, trovador do milénio, voz mítica do canto na Galiza. “Canto os poemas que dizem o que eu sinto e o que penso”. O novo álbum, “De Mar e Terra” é a continuação, 23 anos depois, do imortal “Caravel de Caraveles”, um dos emblemas da alma galega.

“Uma noite no moinho, uma noite não é nada. Uma semana inteira, isso sim é moinhada.” O verso, aqui traduzido para português, do tema “Una noite no muino”, de “Caravel de Caraveles”, perdura na memória dos que verdadeiramente amam a música tradicional da Galiza. Fala de um tempo e de costumes antigos. Da tradição oral com a qual Amancio Prada nunca perdeu inteiramente o contacto, apesar da sua discografia posterior o confirmar como um compositor-intérprete para quem, acima de tudo, importa a foça e a beleza da palavra poética. “O meu trabalho consiste essencialmente em compor música sobre as palavras, não só de poetas galegos como castelhanos”, declarou o músico ao PÚBLICO por ocasião da sua última apresentação em Portugal, há pouco mais de uma semana, no castelo de S. Jorge, num espectáculo intitulado segundo um poema do trovador galaico-português João Zorro, “Em Lisboa sobre o Mar”, comparando o seu estatuto ao de outros cantores espanhóis como Paco Ibanez e Joaquín Diaz. Trovador, sim, mas “afastado das gelosias e dos castelos antigos”.
“Canto os poemas que dizem o que eu sinto, o que eu penso, e que não saiba como dizer”, explica, apontando um processo de “apropriação”, este cantor e compositor para quem “cantar é uma forma de oferecer a alma”. “No fundo, a poesia não é dos poetas, os poetas são instrumentos da poesia, como a voz ou uma guitarra são instrumentos da música”, diz Amancio Prada, ao mesmo tempo que confessa a sua admiração pelos poetas portugueses Antero de Quental e, sobretudo, Florbela Espanca, que o cantor ouviu pela primeira vez recitada por Eunice Munoz.
“De Mar e Terra” recupera de novo as “coplas de tradicíon oral”, desta feita recriadas e adaptadas por Amancio Prada na companhia de Luis Delgado. O álbum é dedicado a Teófilo Caamano, “viajero errante y perpetuo, gallego hasta la médula, marinero, idealista, rojo, rebelde y noble”. Um álbum belo e comovente, em que a voz e a sanfona (cuja técnica lhe foi ensinada por Alejandro Massó, um dos músicos presentes em “Caravel de Caraveles”) de novo se casam com as profundezas, a luz e a simplicidade da poesia popular.
A mesma poesia popular que Amancio Prada encontra em Rosalia de Castro: “Ela escrevia com base em versos tradicionais de cantares populares, uma poesia escrita num galego muito simples e sensível, coloquial, nada rebuscado, uma poesia impregnada da paisagem, também, de certa forma, mística, panteísta.”
Amancio Prada encontra em si próprio essa mesma faceta mística, embora a par de uma costela “picaresca”, como confessa com um sorriso, e de ter o “coração na esquerda”. “A ideologia é apenas um entre vários aspectos que abordo de forma não obsessiva, talvez o meu disco mais politizado seja o primeiro, ‘Vida e Morte’ (1974), que, inclusive, tinha uma canção que foi censurada em Espanha.
Faz suas as palavras de António Machado: “A pátria é a terra que se pisa, a terra que se trabalha.” E “cantar numa determinada língua”, diz, “pode ser mais patriótico do que muitas declarações de princípio e, com certeza, muito mais do que a força das pistolas.”
Rosalia de Castro, poetisa nacional da Galiza, que Amancio Prada cantou em “Rosas a Rosalia” (1998, com participações vocais de Maria Del Mar Bonnet e da portuguesa Amélia Muge), o autor medieval São João da Cruz (em “Cântico Espiritual”, “o mais formoso poema, sobre o amor divino ou humano, que se escreveu em espanhol”, nas palavras do cantor), Alvaro Cunqueiro (em “A Dama e o Cabaleiro”, de 1987), Augustin García Calvo (em “Canciones y Soliloquios”, 1982) e Manuel Vicent (em “Navegando la Noche”, 1988) são alguns dos poetas presentes na obra gravada deste cantor natural de Leão que a Galiza adoptou como seu filho.
E Antonio Machado, por quem Amancio Prada nutre especial admiração, apesar de ter cantado apenas dois poemas da sua autoria, um incluído em “Canciones de Amor y Celda” e “Sonei que tu me levavas”. “É como Fernando Pessoa, a sua poesia está impregnada de pensamento.”
“Canta-se aquilo que se perde, escreveu Antonio Machado. Amancio Prada cita-a a propósito da sua relação com a música tradicional. “Tanto ‘Caravel de Caraveles’ como ‘De Mar e Terra’ não são fruto de uma investigação, mas retratos da minha vida, da minha lama. Hoje em dia, canta-se cada vez menos, apear de estarmos rodeados de música por todos os lados. Para mim, o importante é o espaço, a luz e o silêncio, três coisas cada vez mais difíceis de encontrar, sobretudo o silêncio”.