Arquivo mensal: Abril 2009

Ryuichi Sakamoto – Love Is The Devil

19.02.1999
Ryuichi Sakamoto
Love Is The Devil (7)
Asphodel, distri. EMI-VC

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“Love is the Devil” é um filme de John Maybury (colaborador de Derek Jarman em filmes como “Jubilee” e “The Last of England”) sobre a vida do pintor inglês Francis Bacon, realizado no ano passado e ainda não estreado em Portugal. Ryuichi Sakamoto compôs a banda sonora deste filma que retrata a agitação da “swinging London” dos anos 60 e onde se juntam o erotismo, a poesia e a decadência. Ao contrário de alguma produção recente do músico japonês, mais voltada para o “mainstream”, este seu novo trabalho reflecte a sua faceta mais esotérica e impresssionista, numa sucessão de quadros gelados exclusivamente pintados com electrónica e ocasionais traços de piano sepulcral. A julgar pelos títulos das faixas, a vida do pintor ter-se-à desenrolado num círculo restrito de lugares: o museu, a casa de banho, o atelier e a cama. Provavelmente na casa de banho de um museu ou na cama do atelier. Por isso mesmo, a música é fechada, escura, evoluindo numa sucessão de curtos “sketches” com um ambiente de claustrofobia e erotismo doentio, no qual se poderá detectar a sintomatologia terminal da música do autor (w a ctor) da banda sonora de “Mery Christmas Mr. Lawrence”. São quartos vazios onde apenas se escutam ecos e rflexos distorcidos do mundo exterior, pulsações de carne fria, emoções e movimentos despojados de ternura, nada mais senão um esteticismo sem esperança, variante “soft” dos Coil, aos quais Sakamoto confere a acutilância de um bisturi. Terá sido esta atmosfera sufocante (mas nunca saturada) o motivo que levou à edição de “Love is the Devil” na Asphodel, uma editora vocacionada para o “illbient”. Depois de os Roxy Music terem dito que o amor é uma droga, o final do século pretende que o amor seja o demónio. Tempos de inversão…

Gille Lettman – Gilles Zeitschiff (conj.)

12.02.1999
Krautrock
Gille Lettmann, Sand, Cluster, Roedelius
Viagens Da Rapariga Das Estrelas Pelo Cosmos

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Rolf Ulrich-Kaiser, patrão da editora Ohr, como Julian Cope diz no seu livro “Krautrocksampler”, “tinha uma visão”: a criação, na sua editora, de uma música absolutamente fora deste mundo, a própria essência da “kosmische music”. Entre os vários projectos que organizou com este fim, todos derivados de desvairadas sessões de estúdio alimentadas a ácido, contam-se a fase inicial dos Ash Ra Tempel, “Tarot”, do cigano pintor e místico Walter Wegmüller, “Lord Krishna Von Goloka”, do poeta suiço Sergius Golowin e o naipe de discos dos Cosmic Jokers, montados pelo próprio Kaiser a partir da colagem de excertos das ditas sessões de estúdio, com participações da nata dos auto-designados “cosmic courriers”. Gille Lettmann era a mulher de Rolf-Ulrich Kaiser e musa inspiradora de todo o movimento. “Gilles Zeitschiff”, de 1974, assinado com o seu nome, reúne um punhado de alucinações sónicas recortadas de sessões de estúdio dos “cosmic courriers”, posteriormente manipuladas por Kaiser e realizadas pelos “suspeitos” do costume: Manuel Göttsching e Hartmut Enke (dois Ash Ra Tempel), Klaus Schulze, Jurgen Dollase e Harald Grosskopf (ambos dos Wallenstein) e Walter Westrupp, além de Wegmüller, Golowin e Timothy Leary, o papa do LSD (que a “troupe” cósmica encontrou na Suiça, quando o professor andava fugido da polícia). Leary que funcionou como motor de arranque de vários produtos dos “cosmic courriers”, entre os quais este “Gilles Zeitschiff”, um manifesto psicadélico sobre a percepção do tempo sob o efeito das drogas psicotrópicas. “O Tempo é a nova dimensão que alimenta a música cósmica. O Tempo contém três grandes experiências que nos fazem voar em direcção à rainha do sol. O amor está no Tempo. Voem com alegria”, exclama Gilles no cume do seu transe. Sobre um fundo de “acid jams” cósmicas, a “sternenmadchen”, a “rapariga das estrelas”, como era conhecida, faz flutuar a sua voz de virgem-bruxa (antecipando um papel semelhante assumido por Gilly Smyth nos Gong) em declamações espaciais e comentários sobre os seus amigos cósmicos (incluindo a apologia de Leary), retalhados por efeitos de estúdio, que apenas fazem sentido no contexto do ácido. É um dos melhores exemplos do espírito então reinante no seio da comunidade cósmica, dominado pelos sintetizadores de Klaus Schulze, superior em estranheza e em poder de síntese da simbiose ácido-música, a qualquer dos álbuns dos Cosmic Jokers. Depois, é deveras interessante verificar como soa um “blues” executado em plena “trip”, como em “Downtown”, na linha dos “blues” cósmicos dos Ash Ra Tempel. (Spalax, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8).

Outro objecto valiosos do psicadelismo germânico, também de 1974, chega ao compacto por uma via algo bizarra: “Golem”, disco único dos Sand, um trio originário de Bodenwerder, na Saxónia, liderado por Johannes Vester, reeditado por Steve Stapleton, mago dos Nurse With Wound e admirador de longa data do “krautrock” em geral e dos Sand em particular. Reintitulado “Ultrasonic Seraphim”, o disco aparece aumentado para CD duplo, incluindo quatro baladas psicadélicas de um disco a solo de Vester, “Born at Dawn”, e um segundo disco composto por uma releitura da música dos Sand pelos Nurse With Wound. Influenciados pelos Pink Floyd mais planantes, os Sand criaram em “Golem” mantras de sintetizadores animados por pulsações animalescas numa espécie de variante cósmica de “Ummagumma”. Faixas como “Helicopter” (longa e assustadora alucinação electrónico-psicadélica), as personificações, por Johannes Vester, de Syd Barrett, em “Old loggerhead” e “On the corner” (não estaria descabida em “The Piper At Gates Of Dawn”), a balada semi-acústica “My Rain” (entre os Faust e os Eagles…) ou a viagem cavernosa pelos meandros da psique de uma tal “Sarah”, em dois movimentos que vão dos sepulcros estelares de “Atem”, dos Tangerine Dream aos Cluster industriais de “Cluster II”, constituem uma das experiências mais marginais de todo o “krautrock”. (United Durtro, distri. Symbiose, 8)

Finalmente, os Cluster regressam com uma nova reedição na Sky, desta feita “Curiosum”, de 1981, um dos discos da obra da dupla Moebius-Roedelius, posteriores a “Sowiesoso”, preferidos por Julian Cope. Abstracto, maquinal e minimalista, por vezes próxima de “Ralf & Florian”, dos Kraftwerk (“Tristan in der bar”), a “Curiosum2 faltará apenas o humor e o tom de realejo da obra-prima “Zuckerzeit”, numa música cuja arquitectura concilia o sentimento e a matemática. Indispensável para os incondicionais do grupo, “Curiosum” prenuncia ainda trabalhos mais recentes como “Apropos Cluster” ou a sessão do super-grupo Space Explosion. (Sky, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8).

Elemento romântico dos Cluster, Hans-Joachim Roedelius gravou “Jardin Au Fou” em 1978, um dos seus melhores e mais diversificados trabalhos dos anos 70. Aqui, a vertente clássica e pianística (presente em temas como “Toujours” ou “Balsam”) característica de grande parte da sua discografia a solo, escapa por completo ao teor “new age” que enferma álbuns como “Momenti Felicci”, num saudável convívio com o experimentalismo electrónico e um lado concretista que o músico apenas viria a retomar nos recentes (e magníficos), “Sinfonia Contempora No.1” e “La Nordica”. “Cafe Central” apresenta a sonoridade e uma construção melódica típica de Michael Rother, “Le Jardin” é uma aguarela matutina de sol e chilrear de pássaros com a mesma serenidade zen dos Popol Vuh, enquanto a valsa de marionetas “Rue Fortune” constitui um delicioso exemplo da arte de Roedelius, no difícil equilíbrio entre o sério e o pueril. (Captain Trip, import. FNAC, 8).

Pere Ubu – Song of the Bailing Man (conj.)

25.02.2000
Reedições
A Arte de Caminhar N…

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Com “The Art of Walking” de 1980, e “Song of the Bailing man”, de 1982, fica completa a série de reedições de toda a fase inicial dos Pere Ubu, iniciada com “The Modern Dance” (1978), “Dub Housing” (1978) e “New Picnic Time” (1979). Os Pere Ubu foram provavelmente o grupo mais importante de uma geração onde também pontificaram os Devo e os Talking Heads. Na região metalúrgica de Cleveland, o niilismo punk, ao contrário do que, na mesma época, acontecia com os grupos ingleses, a raiva muniu-se de tecnologia electrónica e do conceito de “mutação”, fruto de um ambiente marcado pela infecção e pela toxicidade industrial. Mas os Pere Ubu, além de revoltados, eram intelectuais para quem gritar não chegava. Era preciso juntar-lhes uma carga de absurdo e de onirismo que eram uma outra forma de dar nome e exorcizar o pesadelo. “The Art of Walking” é uma ginástica de sobrevivência, feita de gestos de marioneta e de canções aparafusadas directamente nos nervos, onde David Thomas dá livre curso à sua loucura de criança magoada a quem arrancaram uma infância feliz. Nos Pere Ubu, a electrónica, aliada ao rock e à esquizofrenia iluminada, fere e faz sangrar. “The Art of Walking”, avançando aos tombos e às cavalitas da histeria do seu vocalista, é a arte de aproveitar e sobreviver a essa dor.
Menos convulsivo mas mais variado do que o seu antecessor, “The Song of the Bailing Man” arrancou as correias que prendiam o grupo na câmara das torturas, aliviando o sofrimento ora num swing jazzístico de sopros e vibrafone, ora em incursões nevróticas por um parque de diversões onde o algodão não é doce e há uma banda de metais com marcianos a tocar. David Thomas diverte-se a inventar vozes ridículas e a cuspir setas kitsch envenenado, mimando as canções românticas da América dos filmes para logo a seguir rachar a cabeça ao casal, “marido que chega a casa e beija a sua housewife loura de avental”. Apesar do tom mais “arty” e de uma descontracção impossível de discernir nos álbuns anteriores, são canções. E divertidas, se também nós aceitarmos ser um pouco “anormais”… (Cooking Vinyl, distri. Megamúsica 9/10 e 9/10)
Dignos de figurar no grupo dos clássicos da pop dos anos 60 é “Odessey and Oracle” dos Zombies, ombro a ombro com “Sgt. Pepper’s” dos Beatles, “Pet Sounds” dos Beach Boys e “Something Else” (e, já agora, com o brilhante e desconhecido “Grass and Wild Strawberries” dos australianos The Collectors). Lançado em 1968, foi posteriormente reeditado, em versão remasterizada, pela Rhino, tendo a presente reedição (de 1998, comemorativa dos 30 anos da edição original) a particularidade de apresentar duas versões completas do álbum, em mono e estéreo, além de três temas extra. Com base nos talentos do organista Rod Argent e das vocalizações de Colin Blunstone, os Zombies assinaram aqui a sua obra-prima em 12 temas de pop imaculadamente composta, arranjada e executada. Orquestrações de luxo, melodias e harmonias de uma doçura feita de sonhos, um piano tocado pelo homem-da-lua, guitarras à descoberta de si próprias, criam um universo de canções-arco-íris como a trip completa de “Changes”, o épico recheado de efeitos e mudanças de registo vocal, um pouco à maneira de uns Incredible String Band espaciais, “Butcher’s tale (western front 1914)” ou, a fechar, “Time of the Season”, um dos “hits” do grupo. Um caleidoscópio em constante mutação, símbolo de toda uma época. (Big Beat, import. Lojas Valentim de Carvalho, 10/10).

Mergulhados em LSD estavam os norte-americanos Pearls Before Swine, ao ponto de o seu vocalista, Tom Rapp, dar ideia de ter abusado nas doses e ter perdido todos os seus dentes, a julgar pela forma como canta na canção que abre “One Nation Underground” (1967), “Another Time”, um hino psicadélico com uma melodia viciante, apesar da tal vocalização do tipo “velho yankee desdentado” e de uma letra a perguntar “Did you follow the crystal swan? Did you see yourself deep inside the velvet pond? O have you come by again to die again? Try again another time”. A abarrotar de sons “pedrados” atirados para a mesa de mistura de maneira aparentemente aleatória e de melodias no limite da desbunda, “One Nation Underground” consegue, apesar de tudo, soar menos desconjuntado, atrevendo-se mesmo a fazer alguma crítica social, do que o álbum seguinte, “Balaklava”, gravado para a mesma editora “freak ESP”. A capa é uma miniatura em cartão fiel ao original, com a figura de “O Jardim das Delícias”, do pintor holandês do Renascimento, Hyeronimus Bosch. (Get Back, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10)

Das fábricas da Alemanha, chega “Produkt de Deutsch Amerikanische Freundschaft”, ou seja, o álbum de estreia dos D.A.F., de 1979, ainda sem o vocalista-gigolo espanhol Gabi Delgado e com Kurt Dahlke, também conhecido por Pyrolator e, mais tarde, elemento dos Der Plan. É uma correria de trmas com a duração média de um minuto de punk-metal electrónco. Urgente, compulsiva e ruidosa, versão mais rock e espontânea dos Einsturzende Neubauten da qual viria a nascer, nos álbuns seguintes, a batida erótico-militarista que viria a tornar-se imagem de marca do grupo. (Mute, distri. Zona música, 7/10).

Ainda da Alemanha louve-se a primeira reedição em compacto de “Rot”, “Vermelho” (1973), segundo álbum de Conrad Schnitzler, o baterista no álbum de estreia dos Tangerine Dream, “Electronic Meditation” (free-rock distante da música cósmica que evoluiu de “Alpha Centauri” até se cristalizar em “Rubycon”9 que, ao longo das décadas seguintes, se revelaria como um dos expoentes da electrónica mais sombria e experimentalista. “Rot” é, juntamente com os primeiros discos dos Cluster (Kluster incluídos) e dos franceses Heldon, um dos trabalhos precursores da música industrial e o primeiro a apresentar uma faixa com o nome “Krautrock” (a segunda aparece no quarto álbum dos Faust), 20 minutos de borbulhar analógico, guitarras – mais do que eléctricas, que dão choque – e, em geral, um fascínio exacerbado pelos sintetizadores analógicos encarados como geradores de automatismos onde são dependuradas vísceras e cartilagens electrónicas. O outro tema, “Meditation”, é uma longa sequência electrónica fabril, pondo a funcionar uma gigantesca linha de montagem de engrenagens, roldanas, metal fundido e maquinismos ameaçadores. (Plate Lunch, distri. Matéria Prima, 8/10)