Arquivo mensal: Abril 2009

Irmin Schmidt – Gormenghast

03.03.2000
Irmin Schmidt
Gormenghast (6/10)
Spoon, distri. Zona Música

irminschmidt_gormenghast

LINK (Irmin Schmidt And Kumo – Axolotl Eyes)

Para os amantes de música pesada, no sentido de pomposidade e excesso de gorduras, “Gormenghsat” e “The Insider” poderão constituir um menu apelativo. O primeiro é uma ópera composta pelo antigo teclista dos Can, Irmin Schmidt, sobre uma novel a de “ghotic fantasy” de Mervin Peake, onde se conta a ascensão e queda de um inteligente e pérfido ajudante de cozinha que chegara a senhor de um castelo, não sem que antes vá assassinando quem se lhe atravessa no caminho, incluindo o antigo senhor, viciado em ópio. Algo como o cruzamento de um conto de Edgar Allan Poe com um filme de Peter Greenway que Schmidt recheia com creme de electrónica chique, sequências pseudovanguardistas, do estilo Einsturzende Neubauten com patrocínio da Culturgest, o “soufflé” minimalista que Philip Glass confecciona para as suas 12 óperas anuais, canto lírico repleto de “transgressões” (gritos, onomatopeias) e até, para nos lembrar que fez parte dos Can, um groovezinho de reggae. Só que “Gormenghast” está nos antípodas dos Can. Se neste grupo as máximas a seguir eram a redução ao essencial, a improvisação e a comunicação quase telepáticas, e a predominância da sugestão sobre o espalhafato, aqui é o exibicionismo de meios e a grandiloquência a substituir a espontaneidade. Irmin já fez muito melhor, quer nos Can, onde desempenhava um papel fundamental, quer a solo, em alguns dos fabulosos achados incluídos na sua trilogia de “Film Musik”.

Donna Regina – A Quiet Week in the House

07.07.2000
Donna Regina
A Quiet Week in the House (7/10)
Karaoke Walk, import. Lojas Valentim de Carvalho

donnaregina_aquiet

LINK (More – 2007)

Os termos “música de sofá” e “papel de parede” aplicam-se com inteira propriedade à música dos Donna Regina, um colectivo de músicos alemães cheios de talento e de jeito para a decoração. Mas, como em tudo, também nos sectores do mobiliário e da decoração, há bons e maus profissionais, o bom e o mau gosto. No caso desta banda com nome de chocolate não existem motivos para duvidar nem do seu profissionalismo nem do seu bom gosto. “A Quiet Week in the House” é um album de canções pop ambientais e sintéticas de uma elegância extrema que se vão colando à pele como uma camada de cera. Electrónica, “design”, um Groove pleno de leveza e de erotismo., “A Quiet Week in the House” insinua-se com a beleza das coisas frívolas sem as quais podemos passar. Como um capricho. No centro da sala movimenta-se a voz etérea de Flora Jörgens, tão “sexy” e infantil como a de Jane Birkin, tão pura e volátil como a de Virginia Astley. Em redor, num círculo de plástico, circulam rumores de bossa-nova, vibrafones exóticos, flores “easy listening” e programações líquidas que permitem pensar nos Thievery Corporation, tudo cheio de estilo e disposto com arte em jarras do mais aperfeiçoado fabrico em forma de “canções”. Quando os Tarwater andam ainda a tentar desesperadamente chegar a esta depuração entre o zen e a frivolidade, os Donna Regina entretêm-se já a mudar a mobília da casa, a fazer desenhos de estrelas para cobrir as paredes sem tecto e a ensaiar novos ambientes domésticos onde os sentidos se possam embriagar.

Moondog – A New Sound Of An Old Instrument

09.06.2000
Reedições
O Tambor Da Lua
Moondog
In Europe (9/10)
H’art Songs (9/10)
A New Sound Of An Old Instrument (7/10)
Elpmas (8/10)
Sax Pax For A Sax (8/10)
Kopf, distri. Ananana

moondog_newsound

LINK

O que terá levado músicos como Peter Hammill, Andrew Dvis (dos Stackridge, pop progressivo dos anos 70) e Andi Thomas, dos Mouse on Mars, a colaborarem com este venerável ancião cego de longas barbas brancas e ar de profeta cuja música permaneceu, ao longo das últimas cinco décadas, apenas do conhecimento de um número restrito de admiradores, como Lamonte Young, Philip Glass, Steve Reich, Terry Riley, Frank Zappa e William Burroughs?
O ancião morreu no ano passado, aos 83 anos. Chamava-se Louis Thomas Hardin, mas ficou conhecido pelo nome artístico de Moondog, em honra de um cão que não parava de uivar à Lua.
Moondog nasceu no Wyoming em 1916 e ficou cego aos 16 anos, vítima de uma explosão de uma barra de dinamite mesmo em frente aos olhos. A infância, passou-a em Forte Bridger, onde o seu pai mantinha uma loja de trocas comerciais com os índios Arapaho. Foram estes que lhe ensinaram a tocar o mesmo tambor em pele de bisonte que os chefes índios usavam nos seus cerimoniais. Quando chegou a Nova Iorque, nos anos 40, passou a ser visto a tocar percussões em frente aos clubes da Rua 52. Lenny Bruce e Charlie Parker repararam nele, bem como Charlie Mingus, Benny Goodman e Miles Davis. Gravou os seus primeiros álbuns nos anos 50, para a editora Prestige e arranjou uma série de canções para Julie Andrews.
Nos anos 60 já a sua figura excêntrica (costumava envergar um capacete viking) impressionara o imaginário da comunidade “hippie” e de figuras como Tiny Tim e Janis Joplin, que cantaria mesmo um dos seus madrigais. Os minimalistas adoptaram-no como guru, mas a sua música, agora gravada para a Columbia, continuava sem conseguir furar a barreira do anonimato.
Chegado aos anos 70, um convite para tocar na Alemanha alteraria a direcção da sua carreira e da sua obra. A aceitação que a sua música levou-o a declarar que se sentia um “europeu de todo o seu coração”. E é neste ponto que a história das prsentes reedições tem início.
Os três primeiros álbuns agora reeditados pela Kopf, “In Europe”, “H’art Songs” e “New Sounds of na Old Instrument”, foram gravados na Alemanha respectivamente em 1978, 1979 e 1980. Álbuns marcados por um estilo pessoalíssimo de composição (alguns especialistas costumavam dizer, em tom de brincadeira, que a música de Moondog era o elo de ligação entre Bach e o século XX…), cada um ilustra uma pequena faceta do seu autor.
Em “In Europe”, alinham-se peças para quarteto de cordas, celesta, órgão de igreja e trompa. A música é minimalista e misteriosa e através dela Moondog exterioriza a sua obsessão pelos vikings, sobretudo numa série de variações executadas em órgão de igreja, por Fritz Storfinger, do tema “Lögründr”. Síntese inclassificável de popular, música minimal repetitiva, citações étnicas, um certo sabor aos musicais da Broadway, música de câmara e música barroca, “In Europe” inclui uma valsa de realejo, caixas de música e marchas de soldadinhos de chumbo, chamamentos longínquos para a guerra e liturgias de órgão que criam um clima de irrealidade sem limites.
Em “H’art Songs” o registo muda para a canção. Moondog canta aqui pela primeira e única vez na sua carreira. O resultado é um cruzamento bizarro de cabaret de Kurt Weill com a música de variedades do princípio do século, o cutelo de John Cale e o “nonsense” alucinatório de Robert Wyatt, com cuja voz as inflexões de Moondog coincidem em mais do que uma ocasião. Estas canções falam de um mundo pessoal e intransmissível e é preciso ouvi-las várias vezes se se quiser conhecer em plenitude o que se oculta sob o manto, aparentemente diáfano, dos seus segredos.
“A New Sound of na Old Instrument” altera de novo as coordenadas. Desta feita o órgão de igreja ocupa a totalidade do palco sonoro, estando a sua execução a cargo de novo de Fritz Storfinger e, nas peças em dueto, de Wolfgang Schwering. Impressões da juventude, a arquitectura fantasmagórica o gelo sobre uma flor da Antárctida, miragens do deserto, a reprodução do galope de um cavalo e, uma vez mais, a liturgia em duas novas versões de “Lögründr” demonstram o talento do seu autor na arte do contraponto, mas pecam, paradoxalmente, pela omnipresença dos tambores, cuja marcação rítmica cerrada acaba por se tornar redundante. Porém, a atmosfera de religiosidade e a originalidade da composição marcam pontos e fazem de “A New Sound of Na Old Instrument” a variante humanista de um álbum como “Four Organs / Phase Patterns” de Steve Reich.
Após este álbum, a carreira discográfica de Moondog sofreu um interregno de 11 anos e o artista apenas voltaria a gravar em 1991, o álbum “Elpmas”. Moondog socorre-se do sampler com parcimónia para simular o som de marimbas, coloridas por sons da natureza, numa série de peças dedicadas à defesa das culturas dos aborígenes australianos, dos povos da Amazónia e dos índios Arapaho e Sioux. Álbum de conotações étnicas, imbuído do espírito da new age (não falta um tema dedicado às baleias – interrompido por interlúdios clássicos de câmara ou por uma melodia de inacreditável pureza como a de “Fujiyama 2” -, termina com uma longa peça ambiental de quase meia hora destinada a meditação: uma sucessão de vagas harmónicas nevoentas que se vão sobrepondo infinitamente, algures entre a “Discreet Music” de Brian Eno, a banda sonora do naufrágio de “Titanic” segundo Gavin Bryars e a música meditacional de Laraaji. O álbum teve a participação, como produtor e guitarrista, de Andi Toma, dos Mouse on Mars.
Se dúvidas ainda existissem quanto à versatilidade de Moondog, “Sax Pax for a Sax”, de 1994, dissipa-as por completo. De todos os álbuns do compositor este será aquele que melhor integra a componente religiosa e celebratória da sua música. Escrita com o objectivo de retirar ao saxofone o estatuto de “instrumento militar”, “Sax Pax for a Sax” insere-se numa série de composições designadas por Moondog como “Zajaz” (“jazz em duas direcções…”), estando a execução a cargo do grupo de saxofones The London Saxophonic. Admirável junção do espírito gospel, do “vaudeville” (como no fantástico hino à alegria de viver que é “Paris”) e do jazz. Um jazz com passagem por Nova Orleães, pelo swing e – no tema “Bird’s Lament”, dedicado a Charlie Parker, pelo be-bop, que chega a tomar a forma das massas totalitárias dos Urban Sax. Colaboram neste álbum onde o tambor de Moondog se fez ouvir por uma das últimas vezes, o seu velho amigo Danny Thompson e, no papel quase anónimo de simples figurantes, nos apoios corais, Peter Hammill e Andrew Davis, “perdidos” nas vocalizações colectivas e de admiração pelo mestre.