Arquivo mensal: Abril 2009

Maria João e Mário Laginha – Chorinho Feliz

05.05.2000
A Menina e o Piano no Brasil
Maria João e Mário Laginha
Chorinho Feliz (8/10)
Verve, distri. Universal

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Obra encomendada pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, “Chorinho Feliz” assinala de forma condigna e inspirada as comemorações dos Descobrimentos portugueses, principalmente do Brasil, embora Maria João e Mário Laginha já o tenham descoberto há bastante tempo, inclusive no seu anterior e magnífico álbum intitulado “lobos, Raposas e Coiotes”, com versões adaptadas à sensibilidade própria da dupla de “Beatriz” e “Asa Branca”.
“Chorinho Feliz” vai, como é óbvio, mais fundo e mais longe na “descoberta” da música brasileira, chamando referências e cores que puxam ao samba, ao forro e, em geral, à selva de ritmos, à fauna e à flora musicais da segunda pátria portuguesa.
O começo não promete, mas a viagem rapidamente endireita. É que o registo de menininha africana com que Maria João parte para a aventura, em “O chão da terra”, já soa por demais conhecido, correndo o risco de se vulgarizar. Felizmente Gilberto Gil corre em auxílio da cantora e o tema compõe-se, alinhado ao lado das amazonices de Gismonti. Mário Laginha entra em acção, em força, melhor, em subtileza, no tema seguinte, “Sete facadas”, num solo/diálogo estimulante com o contrabaixo de Nico Assumpção. Terreno livre, como o de Hermeto Pascoal, papa da liberdade criativa da música do Brasil. Muito brasileira, Maria João “tremoliza” em “Em tão pouco tempo escureceu tanto”, momento de interioridade logo quebrado em “Flor” (belo título!9 pelas percussões de Armando Marçal e Helge A. Norbakken. Excelente de “feeling” e balanço o diálogo vocal de Maria João e do brasileiro Lenine. Em !A lua partida ao meio”, Maria João desce em surdina e acena à criança Benjamim, acolitada pelo violão de Toninho Horta e o acordeão de Toninho Ferragutti. Jazzy de corpo inteiro em “Um choro feliz”, livre no que mais gosta de fazer, Maria João voa em “scat” e alta altitude. Mário Laginha segue-a de perto. Toninho Horta brinca. Felizes todos, como não podia aqui deixar de ser. “A menina e o piano” é escuro e claro. Marimbas e Amazónia. Animais e plantas. Sem piano nenhum. Belo tema, de água e cristal. Acaba no mar das Caraíbas ao som de “steel drums”. “Um amor” mostra, uma vez mais, como funcionam bem juntas as vozes de Maria João e Gilberto Gil. “Forró da Rosinha” é para se dançar, mas a “Água cinzenta” que escorre a seguir é conversa a dois entre João e Laginha. São um em dois e dois em um. Portugal assoma por fim através das Adufeiras de Monsanto em “O recado delas”, Laginha deixa-se hipnotizar pela batida. Tudo tinha que terminar, claro, com um samba. Sobre as percussões da bateria funk, desfila-se em festa. Maria João Brasil ri. Para Mário não será cómodo transportar o piano pela avenida, mas também ele pula. “Sorria, sorria / Sorria meu senhor/ Português gosta de samba/ E de sambar com o seu amor.” Um álbum feliz.

Roxy Music – Manifesto (conj.)

12.05.2000
Reedições
Um Outro Tempo, Um Outro Lugar
Roxy Music
Manifesto (7/10)
Flesh + Blood (7/10)
Avalon (6/10)
Bryan Ferry
These Foolish Things (8/10)
Another Time, Another Place (8/10)
Let’s Stick Togheter (7/10)
The Bride Stripped Bare (7/10)
Virgin, distri. EMI-VC

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Os melómanos / consumidores mais compulsivos não têm mãos a medir, diante da oferta que se lhes depara, apresentando as gravações mais perfeitas ou as capas mais fiéis aos originais, dos discos reeditados dos seus ídolos. Arrumados os vinis na estante, chegou a vez de também os CD rapidamente ganharem poeira, em remasterizações que competem entre si no recorde de bits. Mas com os Roxy Music, à semelhança de outros casos, vale mesmo a pena possuir o “objecto perfeito”. Completa uma primeira fase de remasterizações dos primeiros cinco álbuns do grupo, compreendida entre “Roxy Music”, de 1972, e “Siren”, de 1975, seguiram-se os três álbuns respeitantes à última fase, “Manifesto”, de 1979, de “Flesh + Blood”, de 1980, e “Avalon”, de 1982. Pouco tempo depois chegavam aos escaparates nacionais as remasterizações, embaladas em capas melhoradas, dos cinco primeiros álbuns a solo de Bryan Ferry.
Dos três últimos Roxy Music, “Manifesto” é o trabalho que menos desmerece dos anteriores trabalhos de estúdio do grupo. O cabaré retrofuturista já fechara as portas e o glam fora definitivamente apagado dos rostos dos músicos, mas a festa não tinha ainda terminado. Continuava no casino e nos passos de uma dance music de manequins cortada ainda por alguma decadência, mas com os seus principais intervenientes, a começar por Ferry, a mostrarem-se incapazes de separar a pose da ironia. Dividido entre um “east side” e um “west side”, o som americano impunha-se através de uma soul elegante (Luther Vandross participa nos apoios vocais) que ofuscava a sofisticação e os maneirismos geniais dos cinco primeiros álbuns. “Angel eyes”, “Ain’t that so” e “Dance away” foram passados na rádio até à exaustão.
O álbum seguinte, “Flesh + Blood”, recupera as imagens das amazonas, mas perde na comparação com o seu antecessor. A energia está mais dispersa, a tensão de opostos que sempre servira de carburante para a criatividade do grupo dera lugar a uma máquina bem oleada. Mas, se “Same old scene” ou “My only love” são canções feitas para ficar no ouvido, é difícil resistir ao apelo nocturno de “In the midnight hour” e, sobretudo, à versão estratosférica de “Eight miles high”, dos Byrds.
Previsivelmente, o último capítulo da saga, “Avalon”, capitaliza em exclusivo no enfeite e no luxo dos arranjos e da produção. Álbum limpo, suave ao ouvido como cetim, o seu brilho é o de um pechisbeque bem confeccionado que procura arrancar em força com mais um “hit”, “more than this”, mas rapidamente se esgota em instrumentais de um hedonismo onde a pele dera lugar a uma película de plástico. Ah, é verdade, já circulam por aí as versões cartonadas destes três álbuns…
Bastante mais interessante acabou por ser o percurso a solo de Ferry, também neste caso, com os cinco primeiros álbuns a mostrarem-se os mais pujantes. “These foolish things”, de 1973, confirmava a faceta de “crooner” do cantor, ao mesmo tempo que o impunha como um “gourmet” apto a degustar tanto os “standards” de décadas mais recuadas (de forma infinitamente mais conseguida, diga-se de passagem, do que no recente “As time goes by”), como clássicos pop de Dylan ou dos Rolling Stones. A afectação e o exagero resultavam bem melhor do que a imagem cansada e “snob” que viria a seguir.
“Another Time, Another Place”, editado no ano seguinte, continua a mesma estratégia de versões nas quais se torna difícil distinguir a desmontagem sarcástica e a homenagem devota. Fosse como fosse, ganham colorido e um delicioso desequilíbrio canções como “Help me make it through the night” e a irresistivelmente apaixonada “Smoke gets in your eyes”, dignas de partilharem as imagens de Ingrid Bergman e Humphrey Bogart.
Em “let’s Stick Togheter”, Bryan Ferry insistiu nas versões, mas desta feita de temas dos Roxy Music, como “Casanova”, “Sea Breezes”, “2HB”, “Chance Meeting” ou “Re-make / Re-model”, as quais, se não fazem esquecer o vigor e a faceta desestabilizadora veiculada pela banda, ganham porém no modo como o cantor extrai delas um licor amargo que, infelizmente, muito em breve iria perder todo o sabor.
Em 1977 o punk era rei e senhor e em “In Your Mind” Ferry não de furta a uma aproximação mais visceral ao rock. Foi o primeiro dos seus álbuns a ter honras de edição portuguesa. Em vez de um cenário de Hollywood e de idílios etílicos à beira de piscinas de champanhe, Ferry compunha agora as suas próprias canções, escudando-se por detrás de uns óculos escuros e transferindo as suas obsessões, em “All night operator”, para uma conversa telefónica – “All night operator, dial me a better line (…) Can’t you hear me talkin’ to you? Do telephones make you cry?” – com chamada a pagar no destino, por um eco de amargura.
Recebido na época como um álbum “surrealista”, “The Bride Stripped Bare” (o título é, aliás, o de uma pintura de Marcel Duchamp), de 1978, é um álbum atravessado por pulsões contraditórias (que era o que distinguia os Roxy Music da primeira fase de todos os outros grupos dos anos 70), onde o gospel, a soul, o sentimento de culpa, a passagem do tempo, a desilusão e – sempre – uma inultrapassável elegância correm por lamentos como “Take me to the river” ou pelo tradicional irlandês “Carrickfergus” antes de desaguarem – “so near, yet so far” -, uma vez mais, na solidão.

Moondog – H’art Songs (self-conj.)

09.06.2000
Reedições
O Tambor Da Lua
Moondog
In Europe (9/10)
H’art Songs (9/10)
A New Sound Of An Old Instrument (7/10)
Elpmas (8/10)
Sax Pax For A Sax (8/10)
Kopf, distri. Ananana

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O que terá levado músicos como Peter Hammill, Andrew Dvis (dos Stackridge, pop progressivo dos anos 70) e Andi Thomas, dos Mouse on Mars, a colaborarem com este venerável ancião cego de longas barbas brancas e ar de profeta cuja música permaneceu, ao longo das últimas cinco décadas, apenas do conhecimento de um número restrito de admiradores, como Lamonte Young, Philip Glass, Steve Reich, Terry Riley, Frank Zappa e William Burroughs?
O ancião morreu no ano passado, aos 83 anos. Chamava-se Louis Thomas Hardin, mas ficou conhecido pelo nome artístico de Moondog, em honra de um cão que não parava de uivar à Lua.
Moondog nasceu no Wyoming em 1916 e ficou cego aos 16 anos, vítima de uma explosão de uma barra de dinamite mesmo em frente aos olhos. A infância, passou-a em Forte Bridger, onde o seu pai mantinha uma loja de trocas comerciais com os índios Arapaho. Foram estes que lhe ensinaram a tocar o mesmo tambor em pele de bisonte que os chefes índios usavam nos seus cerimoniais. Quando chegou a Nova Iorque, nos anos 40, passou a ser visto a tocar percussões em frente aos clubes da Rua 52. Lenny Bruce e Charlie Parker repararam nele, bem como Charlie Mingus, Benny Goodman e Miles Davis. Gravou os seus primeiros álbuns nos anos 50, para a editora Prestige e arranjou uma série de canções para Julie Andrews.
Nos anos 60 já a sua figura excêntrica (costumava envergar um capacete viking) impressionara o imaginário da comunidade “hippie” e de figuras como Tiny Tim e Janis Joplin, que cantaria mesmo um dos seus madrigais. Os minimalistas adoptaram-no como guru, mas a sua música, agora gravada para a Columbia, continuava sem conseguir furar a barreira do anonimato.
Chegado aos anos 70, um convite para tocar na Alemanha alteraria a direcção da sua carreira e da sua obra. A aceitação que a sua música levou-o a declarar que se sentia um “europeu de todo o seu coração”. E é neste ponto que a história das prsentes reedições tem início.
Os três primeiros álbuns agora reeditados pela Kopf, “In Europe”, “H’art Songs” e “New Sounds of na Old Instrument”, foram gravados na Alemanha respectivamente em 1978, 1979 e 1980. Álbuns marcados por um estilo pessoalíssimo de composição (alguns especialistas costumavam dizer, em tom de brincadeira, que a música de Moondog era o elo de ligação entre Bach e o século XX…), cada um ilustra uma pequena faceta do seu autor.
Em “In Europe”, alinham-se peças para quarteto de cordas, celesta, órgão de igreja e trompa. A música é minimalista e misteriosa e através dela Moondog exterioriza a sua obsessão pelos vikings, sobretudo numa série de variações executadas em órgão de igreja, por Fritz Storfinger, do tema “Lögründr”. Síntese inclassificável de popular, música minimal repetitiva, citações étnicas, um certo sabor aos musicais da Broadway, música de câmara e música barroca, “In Europe” inclui uma valsa de realejo, caixas de música e marchas de soldadinhos de chumbo, chamamentos longínquos para a guerra e liturgias de órgão que criam um clima de irrealidade sem limites.
Em “H’art Songs” o registo muda para a canção. Moondog canta aqui pela primeira e única vez na sua carreira. O resultado é um cruzamento bizarro de cabaret de Kurt Weill com a música de variedades do princípio do século, o cutelo de John Cale e o “nonsense” alucinatório de Robert Wyatt, com cuja voz as inflexões de Moondog coincidem em mais do que uma ocasião. Estas canções falam de um mundo pessoal e intransmissível e é preciso ouvi-las várias vezes se se quiser conhecer em plenitude o que se oculta sob o manto, aparentemente diáfano, dos seus segredos.
“A New Sound of na Old Instrument” altera de novo as coordenadas. Desta feita o órgão de igreja ocupa a totalidade do palco sonoro, estando a sua execução a cargo de novo de Fritz Storfinger e, nas peças em dueto, de Wolfgang Schwering. Impressões da juventude, a arquitectura fantasmagórica o gelo sobre uma flor da Antárctida, miragens do deserto, a reprodução do galope de um cavalo e, uma vez mais, a liturgia em duas novas versões de “Lögründr” demonstram o talento do seu autor na arte do contraponto, mas pecam, paradoxalmente, pela omnipresença dos tambores, cuja marcação rítmica cerrada acaba por se tornar redundante. Porém, a atmosfera de religiosidade e a originalidade da composição marcam pontos e fazem de “A New Sound of Na Old Instrument” a variante humanista de um álbum como “Four Organs / Phase Patterns” de Steve Reich.
Após este álbum, a carreira discográfica de Moondog sofreu um interregno de 11 anos e o artista apenas voltaria a gravar em 1991, o álbum “Elpmas”. Moondog socorre-se do sampler com parcimónia para simular o som de marimbas, coloridas por sons da natureza, numa série de peças dedicadas à defesa das culturas dos aborígenes australianos, dos povos da Amazónia e dos índios Arapaho e Sioux. Álbum de conotações étnicas, imbuído do espírito da new age (não falta um tema dedicado às baleias – interrompido por interlúdios clássicos de câmara ou por uma melodia de inacreditável pureza como a de “Fujiyama 2” -, termina com uma longa peça ambiental de quase meia hora destinada a meditação: uma sucessão de vagas harmónicas nevoentas que se vão sobrepondo infinitamente, algures entre a “Discreet Music” de Brian Eno, a banda sonora do naufrágio de “Titanic” segundo Gavin Bryars e a música meditacional de Laraaji. O álbum teve a participação, como produtor e guitarrista, de Andi Toma, dos Mouse on Mars.
Se dúvidas ainda existissem quanto à versatilidade de Moondog, “Sax Pax for a Sax”, de 1994, dissipa-as por completo. De todos os álbuns do compositor este será aquele que melhor integra a componente religiosa e celebratória da sua música. Escrita com o objectivo de retirar ao saxofone o estatuto de “instrumento militar”, “Sax Pax for a Sax” insere-se numa série de composições designadas por Moondog como “Zajaz” (“jazz em duas direcções…”), estando a execução a cargo do grupo de saxofones The London Saxophonic. Admirável junção do espírito gospel, do “vaudeville” (como no fantástico hino à alegria de viver que é “Paris”) e do jazz. Um jazz com passagem por Nova Orleães, pelo swing e – no tema “Bird’s Lament”, dedicado a Charlie Parker, pelo be-bop, que chega a tomar a forma das massas totalitárias dos Urban Sax. Colaboram neste álbum onde o tambor de Moondog se fez ouvir por uma das últimas vezes, o seu velho amigo Danny Thompson e, no papel quase anónimo de simples figurantes, nos apoios corais, Peter Hammill e Andrew Davis, “perdidos” nas vocalizações colectivas e de admiração pelo mestre.