Arquivo mensal: Abril 2009

Jah Wobble & The Invaders Of The Heart – Full Moon Over The Shopping Mall

17.09.1999
Jah Wobble & The Invaders Of The Heart
Full Moon Over The Shopping Mall (7)
30 Hertz, distri. Megamúsica

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LINK (Becoming More Like God (Secret Knowledge To Hell And Back Mix))

Longa, e por vezes penosa, tem sido a Estrada percorrida por Jah Wobble desde “Rising Above Bedlam”, álbum que deu a conhecer pela primeira vez os Invaders of the heart, banda pioneira da grande seca em que se viria a tornar o etno-tecno, até ao actual “Full Moon Over the Shopping Mall”. Através de sucessivas depurações que levaram o antigo baixista dos PIL às margens da música clássica (“Requiem”), ao ambientalismo (“Spinner”, com Brian Eno) e a registos étnicos mais ou menos conspurcados (The Five-Tongued Dragon”, com o harpista chinês Zi Lan Liao), Jah Wobble foi largando o lastro dos seus graves demasiado afirmativos até alcançar um ponto de equilíbrio que, pressente-se, poderá quebrar-se a qualquer momento.
É uma síntese delicada, esta, conseguida à custa da conjugação dos esforços de um sitarista indiano (Baluji Shrivastar), um soprador de palhetas duplas de tendência céltica (Jean-Pierre Rasle, ex-Cock & Bull), um flautista (Clive Bell) e o baterista dos Can (Jaki Liebezeit). Abandonando a quadratura habitual, a investida rítmica dos Invaders dilui-se aqui num paisagismo exótico aparentemente próximo da estação de Jon Hassell em “City: Works of Fiction”, mas imbuído de uma dose reforçada de estranheza. Com cada instrumento, da gaita-de-foles à sitar e ao “Rauschpfeife” medieval, a funcionar fora de contexto, ganhando assim um novo alento. É um novo território, de danças para a mente, que se abre a Jah Wobble, que terá encontrado, por fim, o seu lugar de eleição.

El Hombre Trajeado – Skipafone

18.02.2000
El Hombre Trajeado – Skipafone (6/10)
Guided Missile, distri. A Orelha de Van Gogh

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LINK

Referenciados pela distribuidora como aparentados aos Slint, Tortoise, Ganger, Appliance, Mogwai, Ui, him e Godspeed You black Emperor, os El Hombre Trajeado, oriundos de Glasgow, são bastante mais modestos do que a citação a todos estes nomes pode fazer supor. A música que praticam é inconfundivelmente pós-rock, o que, no estado actual do movimento, constitui já motivo de alguma apreensão. Nota-se, pela exploração exaustiva dos fraseados de bateria – ora “free”, ora militaristas e krautrock – e da guitarra, semiamplificada e vagamente frouxa, de acordo com um dos mandamentos do pós-rock enunciado não se sabe bem por quem… Mas estes escoceses – que já gravaram um single a meias com os Mogwai, participaram em três sesões para John Pell e fizeram as primeiras partes de concertos dos Sebadoh e Nick Cak Cave – defendem-se bem. Sem descurarem as obrigatórias alusões aos progenitores, dos mais velhos, como os Can, aos mais novos, como os Tortoise na fase da adolescência, o grupo consegue valorizar, por detrás da vitrina de lugares-comuns do pós-rock, pormenores reveladores de bom gosto e de alguma originalidade, seja nas vocalizações, por vezes de um tropicalismo suave, como nos Sea and the Cake ou nos… Can (em “Logo”), seja na disseminação de apontamentos de glockenspiel, slide guitar, melódica, electrónica discreta e até de uma campainha de porta. Tudo somado, “Skipafone” não ofende, mas também se dilui no esquecimento mal acaba o último tema, “Sleep Deep” – um bom conselho para depois da audição.

Nick Drake – Five Leaves Left (self conj.)

23.06.2000
Reedições
Lua Ectoplásmica
Nick Drake
Five Leaves Left (9/10)
Bryter Layter (9/10)
Pink Moon (8/10)
Island, distri. Universal

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LINK

Nick Drake circulou pelos anos 70 como uma borboleta entre os peso-pesados do rock progressivo. Enquanto foi vivo, a sua voz frágil, as suas canções hesitantes, a sua guitarra companheira das horas de angústia e a sua solidão criativa perderam-se no meio do burburinho. Deixou-se aprisionar por fim no seu casulo de sonhos e decidiu partir. Nascia assim uma lenda.
O que ficou de Nick Drake foi uma história triste e a música, registada em três álbuns de originais, “Five Leaves Left”, de 1969, “Bryter Layter”, de 1970, e “Pink Moon”, de 1972, editados na altura com o selo Island. As presentes reedições recuperam o selo primitivo, passando a Island a deter de novo todos os direitos de autor, substituindo deste modo as anteriores publicadas pela Rykodisc. Nenhum dos novos CD apresenta qualquer tema ou informação adicional, sendo a única diferença a capa interior de “Bryter Layter”, à qual foi restituída a cor original.
Ashley Hutchings, dos Fairport Convention, deu a conhecer Nick Drake ao produtor da Island, Joe Boyd, que lhe ofereceu um contrato de gravação. Em “Five Leaves Left”, as relações desta música com a folk inglesa (Richard Thompson, dos Fairports, e Danny Thompson, dos Pentangle, são dois dos participantes no disco) estão bem patentes em temas como “Time has told me”, “River man” – redentemente recriado pela diva da música tradicional inglesa, Norma Waterson – “Day is done” e “Cello song”, nos quais é detectável a influência de nomes como Bert Jansch ou John Renbourn, outros dois Pentangle. “The thoughts of Mary Jane” evidencia as extraordinárias semelhanças vocais de Drake com o seu amigo John Martyn, numa canção com paralelismos evidentes com a música que este fazia nessa época com a sua mulher Beverley Martyn, no álbum “Stormbringer”. “Way to blue”, com um arranjo orquestral, “Fruit tree” e o jazzy “Saturday Sun”, suspenso pelo vibrafone de Tristan Fry (semelhanças, ainda aqui com a obra-prima de John Martyn, “Solid Air”) são outros tantos momentos de uma música polvilhada de estrelas sempre na iminência de, com um sopro, se apagarem.
“Bryter Later” mostra uma música de arranjos e produção mais sofisticados, ainda que as canções tivessem sido, quase todas, compostas por Drake no seu quarto de dormir em Hampstead. A presença da orquestra (os metais em “Hazey Jane II” fazem lembrar “Seasons”, dos Magna Carta) intensifica-se, enquanto o contingente de músicos recrutados dos Fairport Convention aumentava, incluindo agora, além de Thompson, também Dave Pegg e Dave Mattacks. John Cale toca violeta e cravo em “Fly”, num álbum que não ficou imune aos ventos do progressivo, como prova a complexidade estrutural dos arranjos de “At the chime of a city clock”. “Hazey Jane I” equipara-se uma vez mais, na vocalização, a John Martyn. “Bryter Later”, apesar de colorido por sons de todas as cores, não esconde a tristeza que tem cravada no coração. A crítica adorou o álbum, o público passou-lhe ao lado, Nick Drake escondeu-se um pouco mais no fundo.
Lua nova.. O ocaso chegava como um fim natural. “Pink Moon”, derradeiro testemunho de uma sensibilidade nocturna com tendência para o absoluto isolacionismo (aqui deposto em estranhos reflexos similares a Tim Buckley), esvai-se nas sombras de uma guitarra acústica e de uma voz abraçadas numa filigrana de ectoplasma, que dizem ser o fluido de que são feitas as almas. Quando banhadas pelos “blues”. Gravadas em duas únicas sessões, as canções são mais confessionais do que nunca. E Nick Drake confessou a sua desistência. Uma dose excessiva de Tryptizol garantiu-lhe por fim nunca mais acordar para uma realidade, demasiado opaca, que colidiu sempre com a transparência dos seus sonhos.