Arquivo mensal: Abril 2009

Max Tundra – Some Best Friend You Turned Out To Be

23.06.2000
Max Tundra
Some Best Friend You Turned Out To Be 88/10)
Domino, distri. Ananana

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LINK – Parallax Error Beheads

Max Tundra, aliás, Bem Jacobs, é tido como um louco. Conotado na fase inicial da sua carreira com Goldie e Aphex Twin, Jacobs editou um primeiro single intitulado “Children at Play” que foi recusado pela generalidade das editoras com a acusação: “too many ideas!” O disco acabou por sair em 1998 na Warp e, na altura, o DJ Mixmaster Morris declarou a apropósito: “A minha primeira reacção ao ouvir o single foi: ‘Internem-me este doido!’.” O “diodo” ainda fez uma remistura para os Mogwai antes de se lançar neste seu primeiro álbum a solo. “Some best friend you turned out to be” é um disco de colagens electrónicas onde as ideias e os sons se atropelam, com arquitectura fundada nas possibilidades do sampler e resultados formais que se aproxima de algumas direcções apadrinhadas por Squarepusher ou por Amon Tobin no seu novo “Supermodified”. Pianojazz, sintetizadores em fúria ou aprisionados num “powerbook” e constantes atropelos à lógica situam esta música no que poderemos classificar como “electrónica progressiva”, tantas são as mudanças e sobreposições de registo. Antecedentes também se encontram. David Vorhaus e a sua “loucura analógica” em “White Noise 2 – Concerto for Synthesizer” em “Ah, there’s deek now – let’s ask him”, Roger Miller e o seu “maximum piano”, Frank Zappa dos maneirismos no synclavier de “Jazz from hell” e, sobretudo, na globalidade desta estética multifacetada, Fred Frith, de “Gravity”, “Speechless” e “The Technology of Tears”. Houve quem simplificasse e lhe chamasse: “the-most-fucked-up-background-music-of-the-year”.

Chouteira – Folla De Lata (conj.)

26.05.2000
Folk
O Círculo das “Meigas”
Desde há alguns anos na vanguarda do movimento de renovação da música tradicional da Bretanha, os Skolvan assinaram em “Swing & Tears” um dos melhores álbuns folk do ano de 1994. Regressam com “Chenchet’n na Amzer” (“Os Tempos Mudam”) e, de facto, algo mudou na música do grupo. Uma mudança que terá a ver com as profundas alterações que entretanto se processaram no seio da banda, com as saídas de Fanch Landreau e Yann-Fanch Perroches, respectivamente, no violino e no acordeão diatónico, e as entradas de três novos elementos, Dominique Molard (percussão), Loig Troel (acordeão) e Bernard Le Dréau (saxofone e clarinete), mantendo-se Gilles le Bigot (guitarra) e Youen le Bihan (bombarda e “piston”). De banda que revolucionou o folk bretão, sem desvirtuar as suas origens, os Skolvan cederam desta vez terreno ao compromisso, resvalando nalguns temas para a feira popular e para um tom rockeiro que contraria e contradiz toda a evolução do passado. Ao lado de um irresostível “na dro” pop em quatro andamentos como “Arc’hwezh nevez”, a inclusão do “standard” “My Favourite Things” (de Roger & Hammerstein, cantado na banda sonora de “Música no Coração” põe Julie Andrews), um dos temas preferidos de John Coltrane, confirma a importância do novo soprador na música do grupo e, ao mesmo tempo, o desvio que poderá, ou não, conduzir os Skolvan ao caminho da fama. (Keltia, distri. Megamúsica, 7/10).

Se os Skolvan deram um passo à retaguarda, Patrick Molard (ex-Gwerz, especialista de vários tipos de gaita-de-foles, das “uillean pipes” irlandesas à “biniou” bretã, passando pelas “highland” e “small pipes” escocesas) avança em “Deliou” ao encontro do futuro com os pés e a alma bem assentes na rocha, nos bosques e no mar da Bretanha. Rodeado de dois dos expoentes da música tradicional do seu país, o seu irmão e antigo companheiro nos Gwerz, Jacky Molard (violino, bandolim, guitarras, baixo e direcção artística) e Jacques Pellen (guitarras), mas também de outro seu irmão, Dominique Molard (percussões) e Yves Berthou (bombarda), o gaiteiro bretão contou ainda com a colaboração de um dos “virtuosos” das “uillean pipes” da nova geração, o irlandês Mick O’Brien (de quem se recomenda a audição de “May Morning Dew”). Mas é outro dos convidados, a cantora búlgara Kalinka Vulcheva (da Rádio de Sófia e da formação Le Mystère dês Voix Bulgares) que contribui para um dos momentos mais exaltantes de “Deliou”, no tema que lhe é dedicado, “Kalinka”, encontro tocante dos Balcãs com a Bretanha, mas também no tradicional da Bulgária que dá o título ao álbum, diálogo sagrado da voz com as “uillean pipes”. É, de resto, a Bretanha na sua vocação mais universalista (como acontecia com o Alan Stivell nos primórdios) que reencontramos ao longo deste álbum, seja na renovação e devoção às suas origens mais puras, seja no cruzamento coma Bulgária, ou com outros territórios centrados na espiritualidade céltica, como a Galiza, que Patrick Molard homenageia em “Ton Budino”, marcah processional aprendida com o jovem gaiteiro Xosé Manuel Budino e de “Ricardo Portela”, citação a um dos esteios da “gaita galega”, aqui na miscigenação de uma muineira com um “jig” irlandês. “Deliou” é, além do mais, um magnífico exemplo da música mais bela e profunda que pode sair do fole de uma gaita-de-foles. (Naive, distri. Megamúsica, 8/10).

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Os digníssimos Chouteira, da Galiza, perderam definitivamente um parafuso (devolvido, aliás, no interior da caixa…). Depois de “Ghuaue!”, a atenção voltou-se para a música do Norte de Portugal, nomeadamente para o Minho, ali mesmo ao lado. E se o álbum tem por título “Folla de Lata” não é caso para se dizer que foi preciso tê-la, para abrir com a nossa bem conhecida “Ai, ai, ai a minha machadinha”… A lata tem sobretudo a ver com a utilização exaustiva de instrumentos de metal, nomeadamente uma tuba que, mais do que remeter para as experiências pioneiras de grupos como os Home Service e Brass Monkey, mostra que os Chouteira perderam algum tempo a ouvir os Gaiteiros de Lisboa, também eles adeptos da tradição colorida por sopros de metal. Se dúvidas ainda houvesse quanto a isto, elas desaparecem quando se verifica que o grupo português toca num dos temas de “Folla de Lata”, “O Arvoredo”. Como os Gaiteiros, os Chouteira aprenderam a brincar com sons estranhos (“As sete mulheres do Minho”), ainda que a estrela da companhia seja ainda, e até ver, a voz da cantora Uxia Pedreira. (Do Fol, distri. Farol Música, 8/10).

Outra Uxia, bem mais conhecida dos portugueses, fez parte durante muitos anos dos Na Lua. Depois foram cada um para seu lado mas a separação fez bem aos dois lados. Primeiro à cantora, que se emancipou. O grupo demorou mais tempo a adaptar-se à situação mas se o álbum anterior, “Os tempos son chegados”, já indicava uma total reavaliação de processos, o novo “Feitizo” coloca definitivamente o nome dos Na Lua na fila da frente dos grupos galegos mais importantes da actualidade. Com uma embalagem de luxo, “Feitizo” debruça-se sobre as histórias e lendas das “meigas” (feiticeiras) e outras mafarricas que povoam o imaginário da cultura galega tradicional. Curiosamente, também neste caso o processo de renovação passou por uma consulta ao folclore português, com três viras repescados do “Cancioneiro Minhoto2 de Gonçalo Sampaio, além de uma versão da “Ronda dos Mafarricos” de José Afonso (de “Cantigas do Maio”). “As meigas chegan” e a música dos Na Lua só tem a ganhar com a chegada das feiticeiras, das fadas e do mistério. “Estas san cousas de encantamento, ir pólo Aire, vir pólo vento”, cantam em “Fum pólo vento”, antes da ronda das gaitas varrer a terra da lua com um furacaõ de alegria, em “Meigallo” e a voz da convidada Aloia Martinez, também ela com uma transparência de uma fada, pousar “Para fazer un feitizo”. Que fez com que este álbum seja o melhor de sempre dos Na Lua. (Do Fol, distri. Farol Música, 8/10).

The Blue Whale – The Wind Runs Through It

23.06.2000
The Blue Whale
The Wind Runs Through It (6/10)
Shimmy Disc, distri. Megamúsica

bluewhale

Pop electrónica psicadélica. O que é que quer dizer isto? Que, mal se põe a tocar temas como “The Wind Runs Through” ou “Love Birds”, julgamos descobrir um par de canções inéditas dos Pink Floyd, da época de Atom Heart Mother”. Ouvem-se passarinhos, a voz pertence a Roger Waters, as guitarras vagueiam entre o espaço e um bosque da Inglaterra rural. Mars é o pseudónimo do líder de The Blue Whale, colectivo de músicos ingleses (?) e japoneses. Um crítico da revista “Soda”, algo atarantado disse que isto “Seria como os Beatles soariam, se tivessem deixado Yoko Ono entrar para o grupo”. Está certo que estamos perante um “pastiche” da música do início dos anos 70, plastificado e convenientemente colado a uma visão contemporânea, mas nem Mars é John Lennon, nem The Blue Whale parecem ser capazes de fazer algo parecido com um “álbum branco”. Também vozes se levantaram clamando por semelhanças com Morricone e com os Air, até com Donovan (o que já faz algum sentido…), mas ouvindo um tema como “Slowly” é o fantasma dos Floyd que volta a fazer “buuuuu” – só que com um sorriso amarelo no rosto e uns olhos rasgados… Curioso paradoxo: um dos temas mais interessantes do álbum é o exercício de jazz e música de dança “Go Slow”, que, com toda a certeza, é uma versão de uma canção de The Gift… Mais previsível e acabando por se tornar aborrecido é o longo tema que fecha “The Wind Runs Through It”, “Morning Came”, psicadelismo, “chamber pop”, tecno ambiental e “trip hop” enfiados num saco e metidos no congelador.