Arquivo mensal: Março 2009

Cristina Branco Constrói Carreira No Estrangeiro

28.01.2000
Cristina Branco Constrói Carreira No Estrangeiro
Murmúrios Que Não Chegam Cá


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Santos da casa não fazem milagres. Em França, Cristina Branco, um dos novos valores do fado, recebeu no ano passado o prémio Choc pelo melhor CD de música tradicional. O álbum chama-se “Murmúrios” e não tem distribuição em Portugal. Em Fevereiro sai um novo, “Postscriptum”, na editora francesa Harmonia Mundo. A cantora encolhe os ombros, resignada: “Acontece assim com toda a gente…”

“Murmúrios” é o segundo álbum de Cristina Branco, uma jovem fadista, ou melhor, uma nova “cantora de fado”, como ela prefere ser chamada, de 27 anos de idade, que se vem juntar a Mafalda Arnauth e Sofia Varela na lista das nova vozes femininas capazes de garantirem um futuro radioso para o fado. Aquém e além fronteiras. No caso de Cristina Branco, por enquanto só “além”. “Murmúrios” foi editado no selo holandês Music & Words, chegando a Portugal unicamente através de importações esporádicas de lojas como a Fnac, a Virgin e a Valentim de Carvalho. Sem qualquer tipo de promoção, o disco já vendeu, mesmo assim, cerca de 500 exemplares.
Para Cristina Branco tudo começou há quatro anos e meio, “por brincadeira”, num jantar de amigos. Foi aí que cantou o fado pela primeira vez, o “Ai Mouraria”, dos poucos que conhecia bem. Antes, havia a música que era tocada em casa pelos pais, de José Afonso e Sérgio Godinho, “música de intervenção”. E Amália, por quem Cristina nutre profunda admiração – “era quase uma impressão digita” -, desde o momento em que o seu avô lhe ofereceu um disco da diva, “Rara e Inédita”. Devorava tudo dela, mas com esse disco descobri-lhe uma outra face, um fado mais contemporâneo, mais musical, com um tipo de interpretação das palavras muito mais forte do que a dos fados tradicionais.” Cristina comprou praticamente toda a discografia de Amália, aprendendo ao mesmo tempo a maneira de utilizar uma série de poetas de quem gostava e que, antes, “não sabia se podiam ser cantados”.
“Murmúrios” revela a voz única desta cantora autodidacta, marcada por uma sofisticação que por vezes faz lembrar Teresa Salgueiro ou, em certas inflexões, Nuno Guerreiro, da Ala dos Namorados. Anteriormente já a cantora gravara “Cristina Branco Live in Holland”, em edição de autor, registado ao vivo em dois concertos realizados no dia 25 de Abril de 1996 numa sala portuguesa “de culto” onde já cantara José Afonso, por exemplo. Foram feitos mil exemplares “que se venderam imediatamente”, logo seguidos por novas edições sucessivas, até se chegar aos 5000 discos vendidos. Para trás ficaram os estudos e Comunicação Social, trocados por uma vontade de fazer carreira. Seja em que sítio for. A princípio Cristina sentiu-se “um bocado assustada” com as dimensões e a rapidez do seu sucesso. Decidiu avançar. Um segundo álbum, “Murmúrios”, vendeu igualmente a bom ritmo, conquistando em França um galardão de “melhor álbum do ano de música tradicional”. Foi tudo de rompante, não sei muito bem como as coisas se processam, nem quero saber”, diz Cristina Branco, ainda mal refeita da rapidez com que a sua carreira se tem vindo a construir no estrangeiro e para quem cantar continua a ser “uma coisa muito especial e intensa, que vem de dentro”.
“Murmúrios” reúne 14 temas, desde fados tradicionais como “Abandono”, imortalizado por Amália, com texto de David Mourão-Ferreira, as canções de Sérgio Godinho (“As certezas do meu mais brilhante amor”) e José Afonso (“Pomba branca”). A maioria dos temas, contudo, leva a assinatura de Maria Duarte, autora dos textos, e Custódio Castelo, responsável pelas músicas. “Falam todos de coisas que me dizem muito e muito antes de alguma vez ter pensado em cantar”. Não diz quais. “É um processo interno, com significado para mim, não sei se para as outras pessoas terá…”
Em Fevereiro sairá o terceiro álbum, intitulado “Postscriptum” (título de um poema de Maria Teresa Horta), distribuído pela prestigiada editora francesa de música clássica Harmonia Mundi, com a qual Cristina Branco assinou contrato por cinco anos, em colaboração com a Universal Classics, que se propõe gravar o seu próximo trabalho. João Paulo Esteves da Silva será o convidado especial num dos temas. “Postscriptum”, porque “há sempre coisas que ficam por dizer…”
Cristina Branco tem uma particularidade: nunca cantou, nem tenciona cantar, numa casa de fados. “São ambientes que condicionam a imaginação, nunca quis passar por lá”. Talvez porque se habituou, muito nova, a ouvir em casa outros tipos de música, desde “música de intervenção” a Janis Joplin, Ella Fritzgerald, Sarah Vaughan, Elis Regina e Edith Piaf.
Enquanto Portugal vai ter que esperar até Maio para poder ouvir ao vivo Cristina Branco (descontando duas aparições fugazes, no ano passado, numa organização da Abraço, outra no programa de Herman José), no estrangeiro a sua agenda está carregada com cerca de 85 espectáculos programados até ao final do ano, em Itália, Alemanha, Inglaterra, França, Holanda, Bélgica, entre outros países.
“Só aprendemos a respeitar a nossa gente depois dos outros, lá fora, lhe darem valor. Acontece assim com toda a gente”, diz Cristina Branco, enquanto encolhe os ombros e sorri.

Storm And Stress – Dstress

21.01.2000
Storm And Stress
Dstress (2/10)
Touch and Go, distri. Música Alternativa


dstress

“Arrumar em improvisação pós-rock” e “para os fãs de Gastr Del Sol, Jim O’Rourke e Derek Bailey” diz a folha de promoção da editora. Nós escolheríamos antes “aqui jazz o pós-rock, que descanse em paz”. Álbuns como o desta banda da qual faz parte o Ian Williams, baterista dos Don Caballero, uma das bandas menos interessantes do pós-rock da primeira geração, são interessantes sobretudo como carro-vassoura. Assimilam o lixo, que procuram reciclar como podem e sabem, mas do outro lado sai apenas e outra vez lixo. O que os Storm and Stress fazem neste seu álbum de estreia, gravado por Jim O’Rourke, o que já não serve de caução, é alinhavar sons soltos de guitarra, baixo e bateria convenientemente registados de forma crua (leia-se “som de garagem”, mas mais intelectual) com algum “feedback” pelo meio e remendos vocais que em “Na adress that was to skip ahead of the gallop of its own sperm and eggs and wait for itself in the future:2096” (belo título, sim senhor) fazem lembrar – e o grupo de Chris Cutler que nos perdoe… – os Cassiber, em “It takes a million years to become diamonds so let’s just burn like coal until the sky’s black” (belo título, sim senhor) os vagidos post-mortem de um vitelo imolado, em “1st” um sketch ébrio dos Bonzo Dog Doo Dah Band e em “forever, like anti-oxidants (listen to the sound our cells make)” (belo título, sim senhor) uma conversa telefónica de surdos-mudos. Chamar a isto pós-rock é ofensivo. O mais provável é os Storm and Stress terem esgotado a inspiração na escolha dos títulos.

Fuchsia – Fuchsia

12.05.2000
Reedições
Fábulas Góticas


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Praticamente desconhecido, mesmo dos mais conhecedores da música progressiva dos anos 70, o nome dos Fuchsia conquistou, volvidas três décadas, o estatuto de culto, sendo a edição original em vinil do seu único álbum uma raridade. “Fuchsia”, editado em 1971, surge agora com uma capa cartonada e sem menção da editora. A gravação leva a fidelidade ao som original ao ponto de reproduzir os ruídos de um vinil já com algum uso… não, não se trata de qualquer figura de estilo de mais um disco chique de hip hop mas tão só de uma transcrição de má qualidade. Passemos então adiante, ficando apenas o registo da existência deste estranho objecto desenterrado de um passado esquecido?
Seria assim se “Fuchsia” não fosse, como é, um daqueles álbuns possuidores de um estranho fascínio, como se transportasse consigo o perfume de algo realmente valioso. Os Fuchsia eram um sexteto acústico onde pontificavam as vozes dos seus três elementos femininos, Janet Rogers, Vanessa Hall Smith (ambas também violinistas) e Madeleine Bland (que também tocava violoncelo, piano e órgão de pedais). Três rapazes encarregavam-se do formato normal guitarra-baixo-bateria, com Tony Durant, o guitarrista, também encarregado das partes vocais. Tocavam um folk-rock gótico de tonalidades sombrias, e contavam histórias de assustar, com castelos perdidos na bruma, paixões bizarras e seres sobrenaturais. Por vezes a música lembra os Comus, de “First Utterance”, noutras os Spirogyra, noutras ainda vem à memória o registo mais doce dos Tudor Lodge, dos Trader Horne e dos Storyteller, com o mesmo gosto pela fábula surreal que Peter Gabriel encetou com os Genesis em “From Genesis to Revelation”. Pode ver-se nesta música (ouça-se com atenção um tema como “A tiny book”, um cruzamento dos Kinks com folk e psicadelismo) uma antecipação ingénua de grupos como os Kula Shaker ou Gorky’s Zygotic Mynci. Ou simplesmente um livro de histórias coberto de poeira para abrir e folhear com cuidado capaz de excitar a curiosidade do melómano-arqueólogo. (Sem editora, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10).

Sem estranheza de qualquer espécie, além do facto de ser albino, o guitarrista Johnny Winter dedicava-se em 1969, como se dedicou (ele e os eu irmão Edgar Winter) durante toda a sua vida de músico, aos “blues”. Mas como a época era de progressivismos, era de bom tom acrescentar-lhe qualquer designação mais rebuscada do que a “simples” raiz da música negra e do rock ‘n’ roll. Johnny Winter chamou então a um dos seus trabalhos, “The Progressive Blues Experiment”, uma série de blues eléctricos da sua autoria (mas também versões, como “It’s my own fault”, de Muddy Waters), que acima de tudo deixavam bem vincadas as suas extraordinárias qualidades de guitarrista. Por vezes excitante, sempre carregado de energia (1969 foi, de resto, um ano em que a música parecia querer explodir a cada instante…), “the Progressive Blues Experience” ficou como um bom exemplo de um movimento, o blues progressivo, que vingou sobretudo em Inglaterra (Graham Bond, Alexis Koner…), onde atingiu o zénite em dois álbuns seminais de John Mayall: “Bare Wires” e “Blues from Laurel Canyon”. (BGO, distri. Megamúsica, 7/10).

Já em plena decadência do progressivo e com o punk a martelar em pleno, ainda havia gente, como os alemães Frumpy, que acreditava que a salvação do rock estava em perder 10 minutos em cada faixa com solos de órgão ou de guitarra e na adaptação de técnicas de execução sacadas à música sinfónica. “Frumpy 2”, de 1976, é considerado o álbum clássico do grupo e há mesmo quem o inclua numa lista dos melhores de sempre do “krautrock” (como os autores da enciclopédia “A Crack in the Cosmic Egg”). Digamos que o “krautrock” não sai propriamente dignificado com esta nomeação, nem os quatro longos temas que aqui correm numa cavalgada de solos conseguiram fazer com que os fãs dos Deep Purple ou dos Uriah Heep trocassem a adoração por estas bandas pelos Frumpy. Há no entanto momentos de rock sinfónico (ugh!) bem conseguidos e a voz rouca da vocalista Inga Rumpf (que ganhou alguma notoriedade na banda de que fez parte a seguir, os Atalntis) até conseguirá eriçar alguns pêlos aos entusiastas do hard rock… (Repertoire, distri. Megamúsica, 6/10).

E já que se falou em punk, concentremo-nos em “Hypnotised”, segundo álbum (1980) dos irlandeses The Undertones que, por acaso, nem eram punks mas uma banda do que então se designava “power pop”. A voz de Feargal Sharkey soava aqui tão grande como o seu nariz e “Hypnotised” está repleto de hinos aos rapazes e às raparigas que contam as pequenas alegrias e dramas da vida nos subúrbios em canções directas com melodias, por vezes, viciantes. Como “My Perfect Cousin”, editado em single e que se tornou um sucesso de vendas, a tal que fala de Kevin, o primo “perfeito” da “upper class”, a quem a mãe ofereceu um sintetizador e, como brinde, os Human League para o ensinarem a tocar. (Dojo, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10).

Fechemos este artigo com uma descida à cave. Para ouvir o rugido que sai das profundezas da música de Jeff Greinke, compositor norte-americano intérprete da vertente mais telúrica da música electrónica. Greinke aprendeu com os ensinamentos de Brian Eno, em “On Land”, só que, em vez da superfície, escolheu como local de meditação, os abismos do interior da terra. “Over Ruins” e “Moving Climates” (agora juntos no mesmo CD) pertencem à sua discografia dos anos 80, tendo sido editados antes, respectivamente em 1985 e 1986, apenas em cassete. O que significa que estão mais próximos das texturas densas de “Trimbal Planes” do que da clonagem das paisagens do quarto mundo de Jon Hassell de “Big Weather”. Aqui os sintetizadores de Jeff Greinke eram ainda feitos de pedra, electricidade e lava, fazendo estremecer o solo como os passos de um gigantesco dinossauro. O lado nocturno da música de Steve Roach. (Raum 312, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8/10).