Arquivo mensal: Março 2009

Brigada Victor Jara – Colectânea de Versões Festeja 25 Anos de Carreira

28.04.2000
Colectânea de Versões Festeja 25 Anos de Carreira
Na Senda de Estranhas Melodias


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Apagaram as velas do 25º aniversário com a edição de uma colectânea de versões de velhas canções que fizeram a história do grupo. Para a Brigada Victor Jara, uma das instituições da MPP, é o início de mais um ciclo de vida que prosseguirá no próximo ano com o lançamento de um novo álbum

“Por Sendas, Montes e Vales”, assim se chama esta colectânea, editada em CD duplo pela Farol Música, inclui 26 temas retirados de toda a discografia anterior da Brigada, regravados numa única sessão de estúdio com a presença de convidados como André Sousa Machado, António Pinto, Catarina Moura, João Paulo e Silva, Jorge Reis, Luísa Cruz, Manuel Freire, Minela, Tomás Pimentel, Vitorino, José Medeiros e o Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra (GEFAC).
Manuel Rocha, violinista e, actualmente, o elemento mais antigo da Brigada, conversou com o PÚBLICO sobre a data de aniversário, o disco e o futuro do grupo que, no próximo ano, lançará um novo álbum de originais.
“Pensámos fazer um disco de 25 canções [na realidade são 26] que marcassem o percurso da Brigada. Em vez de repescar outra vez velhas canções, como fizemos no 15º aniversário, pensámos que seria engraçado fazer um disco ao vivo, só que não encontrámos nenhum sítio, no devido tempo, um espaço com público, acabando por fazermos num só dia, no estúdio, toda a gravação, som e imagem, fez-se também um vídeo”, explica Manuel Rocha, que não nega ter havido uma certa “preguicite” na escolha desta fórmula. Mas justifica: “Este disco foi um disco de percurso, ainda por cima a Câmara de Coimbra resolveu dar-nos a medalha da cidade, de mérito cultural, e havia necessidade, segundo a editora, de criar um produto comemorativo, mais do que outra coisa qualquer.”
Mas as baterias, garante o violinista e porta-voz da Brigada, estão já todas apontadas para o próximo disco que irá sair daqui a um ano. “A solução era fazer sair uma coisa que correspondesse a uma novidade que era pôr versões ao vivo e, por outro lado, convidar, para dar mais assunto e nos dar mais prazer, uma data de malta amiga.”
A propósito deste próximo álbum, Manuel Rocha defende que “há espécimes tradicionais que importa ‘atacar’ ou desenvolver pelo lado mais telúrico, menos elaborado e urbano”. Será esse o caminho a seguir num disco que, apesar de poder vira a enfatizar, mais do que é costume, um lado instrumental, continuará a explorar aquela que é uma das características mais interessantes da Brigada Victor Jara, as baladas que, embora recolhidas do cancioneiro, soam pouco familiares. “Procurámos sempre trazer para o nosso reportório coisas que sejam mais ou menos estranhas, como o ‘Bento airoso’, por exemplo”, diz Manuel Rocha para quem, nestes casos, o mais difícil é “dar a estas músicas uma forma, uma leitura interessante, sem desvirtuar o que lá está”.
A mesma estranheza sentida quando, no álbum “Novas vos trago”, editado no ano passado, se ouviu um tema a ser vocalizado por Lena D’Água. “Resultou muito bem”, reconhece o violinista, que conta a história dessa colaboração: “O Ricardo Dias estava a trabalhar com ela, num espectáculo, como pianista. No convívio com ela, percebeu que aquele estereótipo da Lena D’Água de cantora pop que toda a gente conhece, ligada a uma imagem de beleza feminina, afinal tinha outro lado, de uma mulher que canta bem. Achámos óptima a ideia de ela cantar connosco.”
Poderá a música da Brigada, bem como de outros grupos portugueses da mesma área musical, ter possibilidade de ser bem aceite no estrangeiro? Para o violinista, a resposta é afirmativa, com alguns senões. “A música tradicional portuguesa, enquanto produto de exportação, tem possibilidades, não pode é continuar a filiar-se na música céltica, como nós próprios fizemos algumas vezes. Além da competição ser esmagadora, por outro lado, é preciso abandonar – e é isso que temos feito – uma certa tendência pop que pretende, mesmo que inconscientemente, responder a pseudo-solicitações de público. Mas nem sequer será isso o que o público quer… O desafio é fazer com que a música soe a qualquer coisa de consistente sem ter que namorar de forma descarada as sonoridades mundialmente aceites.”
Vinte e cinco anos passados e muitos músicos que entraram e saíram do grupo, a Brigada prepara-se para enfrentar o futuro sem deixar de recordar os tempos heróicos da sua génese, “em 1975, numa jornada de trabalho numa estrada da Lousã”, onde, recorda Manuel Rocha, “a malta se juntou para tocar umas modas e foi incorporada como testa de um camião do MFA”. A partir do mítico “Eito Fora!” a estrada mudou diversas vezes de direcção, mas ainda há quem, “no fim dos espectáculos, pergunte quem foi Victor Jara” e nas lojas, nalguns casos, os discos do grupo aparecem arrumados na secção de música chilena, “de preferência sob o nome de Victor Jara” (risos)…
Quem quiser juntar-se à Brigada Victor Jara nos festejos de comemoração poderá assistir aos próximos espectáculos do grupo em Faro, no Largo da Sé (no próximo dia 24), no Porto, no Teatro Rivoli, a 28, e em Lisboa, na Aula Magna, a 29. Vai valer a pena, mesmo que para tal seja necessário trilhar sendas, montes e vales.

Cristina Pato Lança Segundo Álbum

26.05.2000
Cristina Pato Lança Segundo Álbum
Uma Gaita Colorida


cp

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Impressiona pela técnica instrumental irrepreensível e pela cabeleira que já foi vermelha e agora é verde-alface. Para Cristina Pato, a “Tolemia” (“loucura”) é palavra de ordem e a gaita-de-foles um brinquedo tão colorido como os seus cabelos. Esteve recentemente em Portugal para promover o seu segundo álbum, com edição prevista para o final do mês.

“Tolemia” não é um grande álbum – falha na produção e na escolha do reportório – mas revela uma notável gaiteira, Cristina Pato, galega, 19 anos, os últimos 16 passados a estudar e a tocar o instrumento que é o emblema da sua região natal. Com a saída eminente de um novo álbum, intitulado “Xilento”, Cristina Pato garante ao PÚBLICO que emendou a mão. Para já, prestígio é coisa que não lhe falta. Na Galiza todos a conhecem, não só pela cor dos cabelos, como pelo seu inquestionável talento. Os Chieftains (na digressão que fizeram por Espanha, este ano) Carlos Nunez e a sua compatriota Susana Seivane já a convidaram para tocar com eles.
Cristina Pato é a mais nova de quatro irmãs, filha de um acordeonista e de uma pandereiteira. “Na minha casa não havia a tradição de tocar gaita-de-foles”, conta. Foi a irmã mais velha, Raquel, que lhe pôs nas mãos, pela primeira vez, uma gaita. Cristina tinha então três anos, quando soprou pela primeira vez na ponteira. Mais tarde entrou para a escola de gaitas de Ourense (que passou de 150 gaiteiros, quando da sua formação, para os 20 mil actuais!), onde aprendeu com Xosé Luís Foxo, tendo tocado na banda de gaitas da cidade durante dez anos. Entre os quatro e os 15 anos, Cristina Pato dividiu os estudos da gaita com os do piano. Antes de gravar “Tolemia” – “gravado em cinco dias, antes do Natal de 1998, com os meus amigos e com meios limitados” -, o seu primeiro trabalho a solo, fez parte dos Mutenrohi, com quem gravou dois álbuns. “Xilento”, o novo álbum, conta com as participações de Uxia Peixoto e do português Rui Júnior e é, segundo a sua autora, “um disco muito variado e mais próximo de Portugal”. O rótulo “céltico” e o fenómeno da “irlandização”, que ainda não há poucos anos apoquentava os nossos irmãos galegos, não a preocupam. “Antes as pessoas conotavam a gaita-de-foles sobretudo com a Irlanda ou com a Escócia, mas finalmente perceberam que cada país tem a sua gaita específica, nacional. A gaita galega é o instrumento principal da música da Galiza.”
Hoje, Cristina Pato divide as atenções, no capítulo das mulheres tocadoras de gaita, com Susana Seivane, um pouco mais velha do que ela. Conheceram-se, há alguns anos, em Tenerife, “trocaram de gaitas” e a rivalidade, se existe, “é apenas criada pela imprensa”. E se Susana arrancou em força logo com um fantástico álbum de estreia, Cristina Pato prepara-se, também ela, para dar a sua contribuição para a revolução nas técnicas de execução da gaita galega que nos últimos anos se tem vindo a processar, através de gaiteiros como Carlos Nunez, Anxo Pinto ou Xosé Manuel Budino.
Apesar do respeito que tem pela música tradicional, a gaiteira admite que a sua música e os seus espectáculos têm a mais a ver com o rock, destinados a ser apreciados pelas “grandes massas”: “Gosto que o público baile, se sinta bem, e de me divertir. Gosto de ouvir guitarras eléctricas e bateria, de rock ‘n’ roll.” A sua banda usa bateria e sintetizadores. Porque, “para um estrangeiro, a gaita-de-foles tem um som muito duro e são necessários outros instrumentos para tornara a audição mais fácil”.
Em conformidade, a preocupação em mostrar uma imagem exterior espalhafatosa não é descurada. Actualmente de um verde electrizante, os cabelos de Cristina já foram vermelhos e mesmo cor de laranja, a primeira cor com que os pintou, então com apenas 11 anos (“a minha mãe esteve um mês sem me falar…”). Os mais velhos erguem o sobrolho mas acabaram por se conformar. “Não faço do meu aspecto, ou da minha indumentária, uma filosofia de vida.”
Além da Galiza, Crstina Pato nutre uma paixão especial pelo Brasil: “Da minha colecção de CD, uma grande parte é preenchida por discos de música brasileira: Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Chico Buarque…” Tem uma explicação: “O meu professor de piano é brasileiro!” Faz sentido, olhando para a imagem colorida de Cristina Pato e ouvindo a forma extrovertida como toca, é difícil não pensar no Carnaval. “Não tento tocar como os velhos mestres, estamos no séc. XX, a minha geração ouve Carlos Nunez mas já não ouve Ricardo Portela. Aos nove anos ninguém vai dizer: ‘Mamã, quero ir estudar com o Ricardo Portela’ [risos]. Eu defino-me como uma gaiteira fresca e divertida. Toco gaita porque é um instrumento muito divertido. E porque é tocado como o coração!”

Gonçalo Pereira Edita “Upgrade”

04.02.2000
Gonçalo Pereira Edita “Upgrade”
Guitarra Ponta-De-Lança


gp

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“Upgrade” é o segundo álbum de Gonçalo Pereira, antigo guitarrista de Paulo Gonzo. Um álbum de guitarra, mas também de histórias pessoais onde cabem o “Movimento Perpétuo” de Carlos Paredes e um olhar sobre o mal vivido durante a crise de Timor, onde utiliza o intervalo do diabo.

“Upgrade” foi lançado no mercado aproximadamente um ano depois da estreia deste executante virtuoso da guitarra eléctrica, “Tricot”. Para Gonçalo Pereira trata-se, de facto, de um “upgrade” (melhoramento) do disco anterior, fruto do contacto que manteve durante este intervalo de tempo com o seu público. “Este CD foi um bocado moldado e composto, tendo em consideração os gostos do público que me é fiel.” Que gostos são esses? “As pessoas procuram no meu tipo de música um escape. Poderem entrar por um tema dentro, para uma espécie de sonho, uma viagem. Não é o típico disco com temas de três minutos feitos com a preocupação de passar na rádio.”
“movimento Perpétuo”, uma versão em guitarra eléctrica de um original de Carlos Paredes, dura 1m28; logo a seguir, “O Mal” demora dez minutos a exorcizar o “Mefistófeles que existe dentro de cada um de nós”. “movimento Perpétuo” já andava no pensamento de Gonçalo Pereira há algum tempo. “É um dos temas mais puxados, em termos técnicos, que o Carlos paredes compôs, que comecei a trabalhar por desafio”, explica o guitarrista para quem o virtuosismo não é um acto gratuito, mas uma necessidade interior. “Não é uma preocupação”, garante. “O mais importante é o ‘feeling’, o sentimento.” Além de Paredes, Steve Vai, Nuno Bettencourt, Joe Satriani e Paco de Lucia são outros dos seus heróis da guitarra. Guitarristas velozes.
Gonçalo, considerado o “melhor guitarrista português”, há dois anos, pelos leitores da revista “Raio-X”, não nega o gosto pela velocidade de execução, mas ainda aqui apenas pelo “gozo de sentir o controlo sobre o instrumento, de modo a poder fazer tudo o que a inspiração sugere”. “É como jogar à bola, há posições no terreno que dão mais prazer do que outras. Os putos, quando jogam à bola, ninguém quer ir para a baliza, querem ir todos lá para a frente marcar golos, precisam da adrenalina, da acção.” Gonçalo Pereira gosta demarcar golos com a guitarra, um verdadeiro ponta-de-lança, embora não se considere um “fundamentalista”. Para manter a forma como atacante, Gonçalo Pereira treina guitarra todos os dias, de há 12 anos a esta parte.
Todos os temas de “Upgrade”, compostos pelo próprio, partem de “episódios vividos” e resultam de uma crença: “A música instrumental tem uma beleza rara, capaz de estabelecer uma cumplicidade enorme com o ouvinte, sem a imposição da letra.” O tema “O mal” foi composto “numa altura em que a situação de Timor se estava a agudizar” e foi gravado no Verão “em que aconteceu todo aquele rebuliço das guerrilhas”. Gonçalo Pererira usou neste tema o “trítono”, o intervalo do diabo, uma quarta aumentada, que 2na Idade Média levava os compositores à fogueira”.
“Upgrade” já anda a ser tocado na estrada desde Outubro do ano passado. Esteve em Lisboa nos auditórios das lojas Valentim de Carvalho e da Fnac numa minidigressão que passará em breve pela Virgin. A primeira edição, de 2000 cópias, já está esgotada. “Mais do que muitas bandas nas quais se aposta muito e depois se revelam ‘flops’.”
Gonçalo Pereira, além de tocar e compor, dá aulas particulares de guitarra. Eléctrica e acústica. No horizonte paira a possibilidade de gravação de um álbum “unplugged”. Para já será lançado um vídeo didáctico de técnica de guitarra, o primeiro deste tipo feito em Portugal, destinado tanto a iniciados, como a alunos mais avançados. Mais tarde poderá surgir uma banda de rock, com vocalista, com “uma química de equipa”. “’Upgrade’ é a penas uma gaveta da minha cabeça”, explica. “O projecto onde me masturbo, sem me importar se vão gostar ou não. Um projecto de culto.”