Arquivo mensal: Março 2009

Fiona Apple – When The Pawn

21.01.2000
Fiona Apple
When The Pawn (6/10)
Clean Slate, distri. Sony Música


fa

LINK

Fiona Apple tem uma daquelas vozes que se identificam imediatamente e impressionam numa primeira audição. É uma virtude de que poucas se podem gabar mas que, pelo menos a julgar pelos discos que a senhora gravou até agora, como o anterior “Tidal”, acaba por funcionar contra ela. A utilização sistemática de requebros e inflexões de malabarista, através dos quais ficamos a pensar que Fiona poderia bem ser uma cantora de jazz, não funcionarão como mero exibicionismo vocal – Fiona parece ser bastante sincera, a voz sai-lhe assim e pronto… – mas a verdade é que tanta inquietação e nervoso miudinho aborrecem ao fim de algum tempo. Como também acontece em inúmeros casos de outras cantoras que cada vez mais parecem brotar não se sabe bem de onde – bem, Fiona já conquistou um prémio da MTV em 1997, com o vídeo de “Sleep to dream” e, no ano seguinte, um grammy, pela interpretação de “Criminal” -, inundando a pop de boas vozes e falta de boas ideias, a salvação vem do lado da produção, aspecto em que “When the Pawn” se mostra exemplar. Quer isto dizer que as canções são agradáveis (muitas delas não fariam má figura nos tops, como “Limp”, “Paper bag” ou “Fast as you can” que foi escolhida para primeiro single e clip do álbum, este dirigido por Paul Thomas Anderson, de “Boogie Nights”) mas não lhes peçam muito mais. É então que o produtor, neste caso Jon Brion, aparece a correr com o estúdio às costas para meter mais um efeito na voz, um apontamento electrónico, uma batida de dança mais modernaça, uma orquestração de casino ou um solo de piano-fraque. “When the Pawn”, como o título indica, é uma boa jogada de peão num jogo de xadrez sem mestres.

Ryuichi Sakamoto – BTTB

14.01.2000
Ryuichi Sakamoto
Cinemage (5/10)
BTTB (6/10)
Sony Classical, distri. Sony Música


rs

LINK

Ryuichi Sakamoto é um dos mais destacados representantes, digamos mesmo o seu imperador oriental, da chamada “estética B.A.” (predominância do estilo e do “look”, inclui artistas como The Divine Comedy, Jay Jay Johanssen, Michael Nymean, Belle Chase Hotel, etc.). Cidadão do mundo, sabidão dos sons, o japonês ex-Yello Magic Orchestra e oficial do exército japonês no filme de Oshima, sabe servir-se como ninguém do seu inegável bom gosto e da sua atitude pós-moderna para se passear com diletantismo por todas as músicas que o Ocidente e o Oriente afogaram na panela da globalização. “Cinemage” parte de uma ideia original: um álbum de versões. De coisas cinematográficas como “The Last Emperor” e “Little Buddha” a “Wuthering Weights”, com participações de DJ Spooky, David Torn e David Sylvian (outro dos reis da estética B.A, aliás…). “Cinemage” é um álbum clássico, orquestral e elegante como o seu autor, derramando estilo por todos os lados. Tem a beleza morta de uma estátua funerária. É chato, pronto. “BTTB” ouve-se melhor, até porque permite baixar o volume sem causar danos de maior na arte do japonês. É um álbum de piano solo no qual Sakamoto demonstra o seu conhecimento e as suas inclinações, há muito assumidas, para a escola pianística impressionista francesa da transição do século XIX para o XX, de Satie, Debussy e Fauré, entre outros. Bonita música, música agradável que logo no tema de abertura evoca o intimismo de um Shegundo Galarza sozinho no “hall” do hotel. Ideal para usufruir numa noite romântica em boa companhia. Com “spot” publicitário e tudo.

Isan – Salamander

12.05.2000
Isan
Salamander (8/10)
Morr Music, distri. Ananana


isan

LINK

Desde que Robin Squille e Antony Ryan, a dupla que responde por ISAN (Integrated Services Analogue Network) ouviram “Zuckerzeit”, dos Cluster, e “Wonderland”, dos Pyrolator (não é de mais realçar a importância histórica destes dois álbuns), nunca mais puderam deixar de olhar para a música electrónica como um território (talvez o último…) de diversão. Como muitas outras bandas (Tarwater, Holosud, Schlammpeitziger, To Rococo Rot, Kreidler, FX Randomiz, Tele-Funken, etc.) mais ou menos conotadas com o electro-pós-rock, os ISAN chegaram à conclusão de que não são necessários muitos meios para fazer render a imaginação e retirar da maquinaria um manancial de passatempos para a inteligência. Com um punhado de sintetizadores analógicos, caixas de ritmos e um apurado sentido lúdico os ISAN confirmam com “Salamander” e excelente impressão deixada pelo anterior “Beautronics”. Ritmos simples, timbres de extrema clareza e, acima de tudo, uma maneira de desenhar melodias directamente inspiradas na dupla mais importante do krautrock, Dieter Moebius e Joachim Roedelius (acrescentemos ainda os Kraftwerk de “Ralf and Florian”, em “Effwel”9, encaixam uns nos outros como uma casinha de bonecos habitada pelas personagens de “Toy Story”. Ou pela salamandra que os dois músicos afirmam ter encontrado um dia alojada no interior das placas dos seus sintetizadores velhinhos e que, segundo dizem, é a responsável pela originalidade do seu som… Mais calmo e contemplativo que “Beautronics”, “Salamander” é um fruto electrónico tão leve e sumarento como a “Ananas symphonie” dos Kraftwerk. Sintetizadores em férias num asteróide, com bronzeador e óculos de sol.