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Rui Júnior – Entrevista: “Na Catedral do Tambor”

Pop Rock

1 de Maio de 1996

Na catedral do tambor

O “Ó” que som tem, quando bate em “Ó Tambor”? Tem o som que tinha há 13 anos no álbum homónimo de estreia, mas mais aberto. O acento reforçou-se. Num maior poder de hipnose, na subtileza dos batimentos, no peso dos convidados. Um “O” de espanto.


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Rui Júnior, rosto e alma do projecto, Fernando Molina e José Salgueiro, três dos percussionistas de O Ó Que Som Tem, sentem o ritmo no fundo, mas também à flor da pele. A pele de um tambor. Um instrumento “espiritual” capaz de pôr um homem em transe.

De “O Ó Que Som Tem” para “Ó Tambor” houve alguma mudança na orientação do grupo?
Rui Júnior – Houve, naturalmente. Treze anos de diferença, todos nós amadurecemos. Inclusive, havia temas que não conseguíamos tocar e que hoje tocamos com facilidade.
P. – Referia-me à estética…
R.J. – Digamos que “Ó Tambor” é uma continuação do primeiro disco, no sentido de juntar instrumentos de percussão portugueses com outras culturas. A novidade está na existência de sons sintetizados, ao contrário do primeiro, que era todo acústico. Actualmente, os sons sintetizados fazem parte do universo da música. Embora não goste da maior parte deles, reconheço que os há muito bonitos.
P. – O grupo só pode existir com este núcleo de músicos?
R.J. – Este género de reportório requer muitos meses, até anos, de ensaios. Nada melhor do que pegar nas pessoas que já sabem uma série de temas de cor, em vez de passar novamente três, quatro anos a aperfeiçoá-los com músicos novos. Apesar de neste disco contarmos com percussionistas novos, o João Lobo, o Mário Santos e o João Balão. O curioso é que alguns destes temas já estão a ser tocados por outros percussionistas e bateristas, como “Mody Dick”, que está a ser usado pelo grupo de José Salgueiro.
José Salgueiro – … Um grupo actualmente com mais cinco bateristas, que surgiu a partir de um “workshop” com o Max Roach. Quanto a “Moby Dick”, tem sido transmitido oralmente aos meus alunos mais novos, que por sua vez o tocam. [N.R. Na origem, “Moby Dick” é uma homenagem aos Led Zeppelin e ao tema com este nome.]
P. – Um dos aspectos mais interessantes de “Ó Tambor” é a estrutura da maior parte dos temas, que partindo de uma entrada simples se vão tornando progressivamente mais complexos, segundo uma estratégia de subtil adição.
J.S. – O Rui sempre encarou a percussão como sendo melodia também. Como numa melodia simples, com a percussão as coisas também vão acontecendo aos poucos. Hoje em dia, quando se ouve percussão, ouve-se uma quantidade de instrumentos a tocarem ao mesmo tempo. Não dá para perceber que ritmo é que faz cada um. É uma massa sonora, que até pode ter um balanço incrível. No nosso disco acontece o contrário, os sons vão-se somando e mudando a percepção das pessoas.
P. – Onde foram buscar o estranho poema que José Mário branco declama no título-tema?
R.J. – É um trecho dos textos védicos, uma espécie de corão dos indianos. Há aí pequenos textos que falam de percussão, nomeadamente quando o xamã aparece com o seu tambor, que toca para comunicar com os espíritos e ter as visões para orientar as pessoas. O texto que escolhi é uma invocação à força dos tambores. Há uma lenda africana que diz que o mundo nasceu de um tambor.
P. – “68” é um título um pouco enganador, remetendo de imediato para o mítico Maio desse ano…
R.J. – É o tema com as Fincapé. Uma coisa extraordinária que acontece cá em Portugal, relativa a certas visões da música popular. Sempre disse que muitas pessoas olham para longe sem verem o que está perto. Esse grupo, genuinamente africano, representa a África aqui em Lisboa. Mais concretamente na Buraca, onde os seus elementos residem. Elas é que escolheram o tema, dedicado a Amílcar Cabral.
P. – Em “Moby Dick”, são utilizadas técnicas vocais indianas. De onde lhe veio esse interesse pela Índia? Relaciona-se com alguma necessidade espiritual? As tablas são mais espirituais que um bombo?
R.J. – Mas também sinto as nossas percussões de forma espiritual, como se percebe logo no tema de abertura, “Musti”, no modo como emprego as caixas. Por outro lado, sei que em Taiwan [!] acham bastante piada a este disco. A relação entre determinados instrumentos e a espiritualidade sentimo-la tanto em relação a sons que nos são mais distantes e estranhos como em relação aos nossos.
J.S. – Embora a espiritualidade esteja, de facto, mais ligada à Ásia, à Índia, ao Japão. Eles usam a percussão e a espiritualidade como partes de um todo. Na Europa não temos tanto essa relação.
P. – Outra influência que permanece do primeiro álbum é o cano gregoriano, em “Recolhimento”.
R.J. – São coisas que nos acompanham desde a infância. Sempre gostei de boas vozes, bem cantadas. Os cantos gregorianos comovem-me.
P. – Agora estão na moda, desde os monges de Silos aos Enigma…
R.J. – Já no nosso primeiro disco misturávamos o canto gregoriano com adufes. Dez anos depois surgem os pseudo-gregorianos…
Fernando Molina – Os monges de Silos deram um balúrdio de dinheiro à editora. E são tipos contemplativos, nada virados para os bens materiais… Deram-lhes em troca uma cozinha nova!
P. – Que significam os temas “5ª feira” e “6ª feira”?
R.J. – “5ª feira” é um tema meu, cujo nome parte do compasso, um 5/8 (cinco por oito). “6ª feira” foi composto pelo Fernando Molina.
F.M. – … Numa sexta-feira, 13! Com um “Fostexzinho” [gravador], em casa, pus-me a fazer experiências. Calhou nessa noite. Cheguei fora de horas a casa, vindo de tocar num bar. Estava particularmente inspirado e fiquei até às seis e meia da manhã à volta daquilo.
P. – O disco termina num registo quase paradoxal, não tanto pela primeira parte, com o “sample” das crianças a entoarem a lengalenga, mas pela orquestração final, samplada, julgo que em tom de ironia, pomposa e quase despropositada…
F.M. – Um “the end” à maneira de um filme americano!…
R.J. – A ideia é essa. Vejo este disco como uma viagem. Que, por exemplo passa por África, no tema das Fincapé. Aí fui espectador e aprendiz. Todo o disco segue a sequência de uma viagem. Viagem-filme. Só tenho pena de as imagens não saírem dos olhos directamente para a fita. É a banda sonora de um filme que tenho na cabeça. Acaba como acaba o filme. No fim, vê-se o genérico.
P. – A Amélia Muge está como peixe na água no meio das percussões.
R.J. – A Amélia consegue trazer melodia aonde eu não consigo. Ela sente as percussões muito bem, que ali é para cantar de determinada maneira e não de outra.
P. – Um dos temas mais belos do disco é, precisamente, “6ª feira”, no modo como o violoncelo se ergue a cantar de entre as percussões.
F.M. – É uma composição minha em que dou o mote numa “gato drum”. Compus aquilo num “Octapad” [percussão sintética], por motivos óbvios, à noite. Depois, em estúdio, o Rui não gostou muito do som. Agarrámos no “gato drum” e realmente soava bastante mais quentinho. É um tema obsessivo. Um percussionista adora como ninguém explorar isso. Um gajo chega a Marrocos e vê aqueles tipos durante meia hora a tocarem uma malha.
P. – “Ó Tambor” explora, precisamente, esse lado ritual das percussões…
R.J. – O transe. Um bendir ou um adufe, para mim, é andar à volta de uma mesa, de olhos fechados, a tocar [imita o som]. É um mundo.
F.M. – Num dos ensaios fizemos uma experiência muito gira. Uma coisa é ter os temas estruturados e debitá-los mecanicamente. Outra, é como Rui faz, um exercício em que fechamos todos os olhos, agarramos num padrão mais conseguido, e ficamos ali cinco, dez, quinze minutos, a girar em torno dele, obsessivamente.
Aí é que um gajo começa a sentir a intenção que a técnica não consegue transmitir. Um estado em que se vêem dinâmicas lindíssimas. Já tem acontecido, às tantas, desatarmo-nos a rir com os efeitos que se conseguem. Emocionamo-nos mesmo. Cria-se uma empatia tal entre nós… quase religiosa. De repente, sentimos num determinado tempo que aquilo tem que parar. Fica um silêncio… Um gajo até sustém a respiração…
P. – Ninguém sente necessidade de desbundar, de explodir?
J.S. – Sem dúvida que às vezes apetece! Aí o Rui sempre foi um disciplinador. A desbunda, por muito que apeteça, não nos leva a lado nenhum. Ou leva-nos a alguns sítios, mas nunca com certezas. O melhor, nessas alturas, é andarmos para trás, quando as pessoas se deixam de escutar umas às outras. Olhamos todos para o Rui e lá está ele, com uma cara de mono [risos]. “O.k., vamos lá parar e começar outra vez!”
P. – Nesta nova etapa da sua existência, O Ó Que Som Tem, pode ser encarado como o pólo complementar dos Gaiteiros de Lisboa? Eles a falarem alto, vocês mais em surdina?
J.S. – Complementam-se, em termos de enriquecimento da nossa música tradicional, que tem que evoluir e ser trabalhada. Durante muitos anos muita água correu, mas o barco nunca chegou. Agora o barco chegou e estamos todos a embarcar num que nos pode levar a qualquer sítio.
P. – A música tradicional não passa de um ponto de partida, quase um pretexto, para o vosso projecto, não concordam?
R.J. – As referências existem, simplesmente, nada nos prende aí, nem a nenhum sítio. Nenhum de nós é pesquisador ou estudioso, ou etnólogo, à excepção talvez do Rui Vaz, que tem conhecimentos a esse nível. Já por ocasião do primeiro disco tentaram conotar-nos, com alguma boa vontade, com trabalhos de recolha. Sempre rejeitámos isso.
J.S. – Há uma procura de uma estilização em relação às bases rítmicas portuguesas. Queremos fazer evoluir isso. Sentimos o “tum tum tum- tacatacataca- tum- tum tum tum”. É a chula, que nós temos cá dentro. Só que podemos evoluir, assim como os espanhóis fizeram com o flamenco. É essa a nossa procura, sem nunca perder de vista a estrela.
F.M. – Já no primeiro álbum o Rui provou que se estava a marimbar para as ideias pré-concebidas, que o disco fosse isto ou aquilo, em termos de aproveitamento promocional.
R.J. – Está lá um tema chamado “Marimbando”… [risos]

Nota: Quem quiser saber outros pormenores de O Ó Que Som Tem pode procurar no endereço que o grupo abriu na Internet: http://www.ip.pt/ruijunior.



Rui Júnior – “O «O Que Som Tem?” – Série: “Os Melhores De Sempre – Música Portuguesa”

Pop Rock

19 de Abril de 1995
Os melhores de sempre – música portuguesa

Rui Júnior
O Ó, que som tem?


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Como foi

Rui Júnior andou ausente nos últimos anos. Uma ausência determinada por razões bastante traumáticas para si e que se prendem com a destruição, pouco depois da gravação de “O Ó, que Som Tem?”, de toda a sua colecção de percussões, provocada por uma inundação da cave onde se encontrava este material. Nos últimos meses o percussionista regressou, de corpo e alma restaurados, para as sessões de gravação de “Todos os Dias”, de Amélia Muge, e para integrar o projecto “Maio Maduro Maio”.
“O Ó, que Som Tem?”, o seu projecto de percussões, editado em 1983, representa a visão pessoal deste músico, em cujo currículo figuram os nomes de Júlio Pereira, Fausto, José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Janita Salomé, Vitorino, Rão Kyao, Jorge Palma, António Pinho Vargas e a já citada Amélia Muge, ou seja, a nata do que se convencionou chamar “música popular portuguesa”.
Na calha está a gravação do segundo capítulo deste projecto, único na cena musical portuguesa, e de um compacto didáctico sobre percussões. Com os mesmos músicos, entre eles Rui Vaz, Fernando Molina e José Salgueiro – “todos eles agora craques” -, mas um espírito diferente, “de maior acalmia”.
“O Ó, que Som Tem?” resultou, nas palavras do seu mentor, da “necessidade de poder compor e interpretar com instrumentos de percussão”. Na altura, vai fazer doze anos, ninguém tinha muita experiência de estúdio. “ninguém sabia como seria meter percussionistas num estúdio e gravar um disco.” Para Rui Júnior, “o José Fortes [engenheiro de som] foi muito útil em todo o trabalho”, por estar “mentalmente muito disponível”, mas também por ter “disponibilizado o estúdio”.
Rui Júnior recorda que o grupo, na ocasião, encheu o chão com uma quantidade de canas. “Queríamos um som de canas. Fomos a um canavial que havia lá perto, cortámos as canas, levámo-las para o estúdio e fizemos várias experiências, batendo com elas no chão. Depois íamos buscar mais e voltávamos a experimentar. Acabou por ficar tudo sujo.” “Por isso”, acrescenta, “há que louvar também a disponibilidade da senhora que fazia as limpezas!”
A gravação representou para todos “uma descoberta”. “Em estúdio o som tem que ser tratado de outra maneira. Tivemos, em conjunto com o José Fortes, de proceder a experiências ao nível da captação. Onde e como se deviam captar os bombos, por exemplo. Neste caso a ideia foi obter um som mais ou menos de ar livre, através da utilização de uma sala muito grande, na maior parte das vezes com os microfones no ar, por cima de nós e a uma certa distância.”
“O Ó, que Som Tem?” demorou uma semana a ser gravado. Durante esse período, as coisas “correram bem ao nível da gravação, embora menos ao nível da produção”. Rui Júnior refere a este propósito a existência de “algumas faíscas”, entre ele e o produtor da Sassetti. “A ideia deles era diferente da minha. O meu disco resultou de uma aposta da Sassetti, no seguimento do ‘Cavaquinho’, do Júlio Pereira, e do ‘Por Este Rio Acima’, do Fausto, dois discos em que participei.
“Quando lhes falei no novo projecto, pensaram logo em mais uma coisa dentro do mesmo estilo, música popular, tum tum tum, isto vai ser canja. Quando se começaram a aperceber que não ia ter os mesmos ingredientes, com sintetizadores, uns coros, umas coisas bonitas e tal, é que foi pior. A ideia deles era limar, uniformizar, para obter um som que pudesse ser mais vendável. Por isso fiz muita questão que a ‘master’ não fosse tocada por ninguém. O produtor praticamente não teve influência. Tive que me impor para impedir que houvesse mudanças.”
O que, por outras palavras, significa que Rui Júnior sempre se regeu e continua a reger exclusivamente por critérios de ordem estética e nunca de ordem comercial. “Guio-me pelo meu gosto pessoal, como única forma de coerência.” Sobre este aspecto o percussionista cita o tema de abertura do álbum, “Recolhimento”, onde mistura coros gregorianos com adufes. “Hoje já se ouve os mesmos cânticos gregorianos sobre uma batida funk… Eu fiz isso dez anos antes, porque gostava, talvez por influência da minha mãe, que cantava nas igrejas, ‘Avés-Marias’, essas coisas. Achei que não havia ligação mais bonita que a dos cantos com aquele ritmo.”
E, afinal de contas, o ó, que som tem? “É um jogo de sons que me foi sugerido pelo meu pai, a propósito de uma das brincadeiras que tinha, quando era pequenino. Um miúdo voltava-se para outro e perguntava: ‘O ó, que som tem?’ O outro respondia: ‘Ora de ó, ora de u.’ Uma espécie de miniladainha.”

Como é

É sabido que as percussões, na música tradicional portuguesa, não primam pela subtileza. É mais bombos e foguetório, pés bem assentes na terra e gritar muito de baixo para o alto. É certo que no Minho ou nas Beiras há quem bata com mão mais ligeira o adufe, como a já mítica Catarina Chitas, de Penha Garcia. Só que depois ouvimos todas aquelas senhoras da Galiza a manejarem as pandeiretas como se estas tivessem asas, e olhamos desconsolados para o nosso descomunal umbigo em forma de bombo.
Rui Júnior achou que não tinha que ser necessariamente assim. Armou-se de um grupo de amigos – e de percussões – e decidiu inverter o processo. Nas suas mãos e nas dos seus companheiros, as peles, os sinos, os tubos, as madeiras, as pinhas, as canas, até os bombos, transformaram-se em utensílios nobres, para a construção de polirritmias que devem tanto à música portuguesa como a África, ao Brasil e à Índia, quando não a batimentos ainda mais primevos.
“O Ó, que Som Tem?” representa não só a emancipação e dignificação de uma classe de instrumentos, as percussões, como a instauração de uma estética que hoje é cultivada em todo o mundo mas que em Portugal não teve seguidores. Para Rui Júnior, as percussões, do simples tambor às canas que chocam contra o chão, devem cantar uma melodia, ter um discurso próprio para além da simples marcação de tempos. Razão pela qual o músico se veio a especializar anos mais tarde nas “tablas” indianas, instrumento de grande riqueza cromática, capaz de, com as suas alturas variadas, fazer o que ele lhes pede, isto é, cantar.
No disco, que muito em breve e em boa hora terá uma continuação, é visível esta conjugação entre, por um lado, a estilização da linguagem percussiva e, por outro, a ligação aos alicerces rítmicos tradicionais, não só portugueses, como já foi dito. Emblemático desta dialéctica entre o apego às raízes e o desejo de renovação é o tema de abertura, “Recolhimento”, onde a fusão do canto gregoriano e da gaita-de-foles com os adufes, o vibrafone e os sinos lhe confere uma dimensão de religiosidade que hoje é apregoada por muitos e aviltada por alguns.



Maio Maduro Maio – Artigo de Opinião

Pop Rock

7 de Junho de 1995

Os CINCO mais maduros de Maio


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Em “Maio Maduro Maio”, José Mário Branco, Amélia Muge e João Afonso, na companhia instrumental de António José Martins e Rui Júnior, assinam a mais bela homenagem de sempre à música de José Afonso. Vinte e cinco canções, entre as quais dois inéditos e um tema de José Mário Branco, dão corpo a uma visão simultaneamente próxima e distanciada da obra do autor de “Cantigas do Maio”. Próxima pelos elos, artísticos, pessoais ou mesmo familiares, que unem José Afonso a cada um dos músicos participantes. Distanciada porque lúcida e permeada de um espírito de aventura que acrescenta outros dizeres às palavras e notas do mestre.
Feita a recensão das vinte e duas canções que se encontram espalhadas pela discografia do homenageado, fizemos estatística, obtendo os seguintes resultados: “Fura Fura”, de 1979, é o álbum que contribui com o maior número de canções, quatro. Seguem-se “Venham Mais Cinco” (1973), “Coro dos Tribunais” (1974) e “Como se Fora seu Filho” (1983), todos com três canções, embora ao primeiro falta o título-tema, que faz parte do espectáculo mas foi omitido no disco, por razões técnicas. “Cantares do Andarilho” (1968) e “Contos Velhos, Rumos Novos” (1969) figuram com duas canções cada. Com apenas uma canção escolhida estão “Baladas e Canções” (1967), “Cantigas do Maio” (1971), “Enquanto Há Força” (1978) e “Galinhas do Mato” (1985). Ou seja, não entram nesta lista “Traz Outro Amigo Também” (1970), “Eu Vou Ser como a Toupeira” (1976) e “Fados de Coimbra” (1981).
Concluídas as operações de contabilidade, pedimos a José Mário Branco, Amélia Muge e João Afonso que fizessem a sua escolha individual, acompanhada dos respectivos comentários. Os resultados deram “Fura Fura” e “Cantigas do Maio “ consensuais. “Coro dos Tribunais” (J.M.B. e A.M.) e “Como se Fora seu Filho” (J.A. e A.M.) receberam, cada um, duas citações. Por fim, as escolhas mais personalizadas revelaram que “Venham Mais Cinco” está na frente das preferências de João Afonso, “Cantares do Andarilho” é um dos preferidos de Amélia Muge, tendo José Mário Branco optado por “Galinhas do Mato”, em segunda escolha, uma vez que a primeira, “Fados de Coimbra”, não contou, por não figurar na lista de “Maio Maduro Maio”.

“Fura Fura”
José Mário Branco: É o disco mais bonito do Zeca, o que mais me encheu as medidas em termos de riqueza melódica, poética e harmónica. Com um trabalho espantoso do Júlio Pereira, com um bom-gosto incrível nos arranjos. Foi o grande salto em frente do Júlio, o contacto com o Zeca. Um disco que não me canso de ouvir. Uma canção: “De sal de linguagem feita”.

Amélia Muge: Pondo o mesmo entusiasmo que o José Mário em relação ao trabalho do Júlio, é o disco onde se sente mais aquele fervilhar da canção tradicional, de terreiro. “Fura Fura” é um disco de terreiro e de taberna. Onde o Zeca mais faz aquilo que considero muito importante em termos de tradição, que é repegar nas coisas populares e acrescentar-lhes versos ou fazer músicas a partir de versos populares. É também um disco de teatro baseado nas “Guerras do Alecrim e da Manjerona” e no “Zé do Telhado”. Esse lado está muito vivo.
Uma canção: “Senhora que o velho”.

João Afonso: Excelente trabalho do Júlio Pereira. Tem músicas meio surrealistas, como “De não saber o que me espera”, uma grande visão sobre a vida.
Uma canção: “De não saber o que me espera”.

“Cantigas do Maio”
José Mário Branco: Disco histórico. Mas há razões muito pessoais para esta escolha, além de razões que têm a ver com a História do meu país. Foi a primeira vez que pude trabalhar com o Zeca a sério, que descobri a riqueza incrível que está debaixo dos temas dele. Não me é possível separar este disco do que eu vivi a fazê-lo. Algo de empolgante e importante para a minha vida toda.
Uma canção: “Cantar alentejano”.

Amélia Muge: Tem uma coisa espantosa que é logo o seu começo, em que começa e não começa. Mesmo se não fosse preciso mais nada, há ali uma enorme lição que tem a ver com as marcas de um trabalho e que mostra que um disco é algo mais do que uma súmula de canções. Por outro lado, já para não falar nos arranjos do Zé Mário, – um dos seus trabalhos mais extraordinários a esse nível -, é um disco onde o lado feminino do Zeca (espero que as pessoas não me interpretem mal) está mais patente. Há um lado masculino e um lado feminino que estão em nós. Ele soube tão bem mostrar isso, em “Mulher da erva”, “Cantar alentejano”, até mesmo em “As filhas do marajá, com patilhas de beber o chá”, onde há um lado muito feminino, ligado ao próprio mês de Maio. Há um lado comovente, sem ser lamechas, que tem muito a ver com a intuição feminina.
Uma canção: “Mulher da erva”.

João Afonso: Destaco a direcção do Zé Mário, o surrealismo de “Ronda das mafarricas”, do António Quadros, a maravilha que é “Mulher da erva”. Um disco de arrepiar, com uma imaginário riquíssimo. É uma fantasia.
Uma canção: “Mulher da erva”.

“Galinhas do Mato”
José Mário Branco: Aqui é de destacar mais a genialidade do Zeca como autor-compositor. Como se sabe, é um disco em que o Zeca praticamente já não canta, o pouco que aparece cantado por ele são restos do disco anterior. O Zeca intervém como autor-compositor e como produtor musical. Atenção – ele está presente em todos os momentos deste trabalho, no estúdio, a fazer a direcção dos cantores e dos músicos. Tem temas geniais.
Uma canção: “Benditos”.

“Cantares do Andarilho”
Amélia Muge: Um disco onde o Zeca está sozinho com a sua viola e o seu “pathos”. Um disco das origens. Tem uma ideia de começo mas ao mesmo tempo também de um Zeca despojado de tudo o resto, de tal maneira caseiro que quase tenho a sensação de que se tocassem à porta ele deixava de cantar.
Uma canção: “Cantares do andarilho”.

“Venham Mais Cinco”
João Afonso: Não podia deixar de escolher este, por causa do “Redondo vocábulo”, de facto uma autêntica pintura, uma música surreal. Gosto muito das letras meio estranhas e difíceis de entender. Tanto em “Venham mais Cinco” como em “Coro dos Tribunais”, o Zeca conseguiu colher influências africanas, embora meio “ajazzeadas”. Mas não as assumia em bruto, por exemplo não cantava como um negro. Transformava essas influências, personalizava-as. Quando não era moda a música africana na Europa, o Zeca apareceu com “Lá no Xepangara” e “Ailé, ailé”…

“Coro dos Tribunais”
Amélia Muge: … É importante falar do “Coro dos Tribunais”. É o primeiro disco que sai depois do 25 de Abril. A sensação que tenho é que daqui a dez anos vou ter razões se calhar ainda mais fortes para gostar dele. É o disco em que assume particular importância a ideia de expressão, do direito à palavra, e de toda a responsabilidade que isso implica em termos de julgamento. São as duas grandes correntes do disco: a questão do julgamento, ligada à liberdade e ao direito à palavra, e a própria ideia de animação, com “O que faz falta” ou “O brado da terra”. Um disco ainda por descobrir. Por essa carga toda e por ser também um disco ligado ao Fausto, que aqui cria ritmos a ambiências fabulosas.