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French, Fred, Kaiser, Thompson – “Live, Love, Larf and Loaf” + “Invisible Means”

Pop Rock

 

5 JUNHO 1991

IMPORTAÇÃO DO CATÁLOGO DEMON RECORDS

 

FRENCH, FRED, KAISER, THOMPSON

Live, Love, Larf and Loaf (1987) ****

Invisible Means (1990) ***

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Logo pelo título percebe-se que é uma brincadeira. Jon French (antigo companheiro de Captain Beefheart), Fred Frith (guitarrista genial, compositor genial, produtor genial, fundador de grupos geniais como Henry Cow, Art Bears, Skeleton Crew, etc, enfim – um herói), Henry Kaiser (guitarrista genial, com inclinações – como Frith, aliás – para tratar a guitarra de forma pouco ortodoxa) e Richard Thompson (guitarrista genial, membro fundador dos Fairport Convention, movendo-se com todo o à-vontade entre as cenas folk e “avant-garde”, colaborando, por exemplo, com o inclassificável gordo dos Pere Ubu, David Thomas) juntaram-se para uma boa piada que acabou por resultar brilhante. Rock’n’roll, “pastiches” de música chinesa, “surfin’ USA”, de Chuck Berry, jazz paranóico, vale tudo, num “cocktail” explosivo de humor delirante, virtuosismo instrumental e canções de se lhes tirar o chapéu. Três anos depois, o quarteto tornou-se mais sisudo. Os “quatro da vida airada” levaram-se a sério e acabaram por fazer um disco à beira do rock “mainstream”. A excelência técnica, obviamente, permaneceu.

Live, Love, Larf & Load
Invisible Means


 


Richard Thompson & Danny Thompson – Industry

Dentadas
Richard Thompson & Danny Thompson
Industry
Hannibal / Rykodisc, distri. MVM

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“Não se trata de fazer história da era industrial, do séc. XVIII até aos dias de hoje. Não penso que isso seja possível. A natureza de uma canção de três minutos obriga à pintura de pequenos quadros. É mais sobre as impressões causadas pela indústria e pelo seu fim… e a transição do industrial para o pós-industrial… É isto que espero que este álbum reflicta.” É nestes termos que Richard Thompson introduz o seu novo projecto de parceria com o contrabaixista e elemento fundador dos Pentagle, Danny Thompson, cujo percurso posterior, com o seu colectivo Whatever, está marcado pelo jazz.
Ainda segundo Richard Thompson – antigo guitarrista dos Fairport Convention que posteriormente formou dupla com a sua mulher Linda, enveredando, nos anos 80 e 90, por uma música de cariz experimentalista, ao lado de gente como Fred Frith, Henry Kaiser, Jon French (com os quais gravou um par de álbuns, incluindo o notável “Live, Love, Larf & Loaf”) e os pere Ubu -, “Industry” representa novo passo na sua carreira que, paradoxalmente, procura correspondência na glória dos seus álbuns a solo dos anos 70, encetados por “Richard The Human Fly”.
O tema de “Industry” é o ideal para Richard Thompson libertar todo o seu azedume e a sua reconhecida apetência para cantar os assuntos mais tristes e deprimentes. O encerramento das minas de carvão, o estado de degradação a que chegaram as cidades, o trabalho infantil, a resistência das mulheres, as greves e o desemprego são alguns dos temas abordados neste álbum de cores escuras, como quase todos na obra do guitarrista.
“Chorale”, o instrumental inicial, é uma despedida da Inglaterra rural, do seu estilo de vida bucólico e pastoral, asfixiado pelas máquinas da indústria. Outro instrumental melancólico, “Children of the Dark”, relata a escuridão de uma mina onde trabalhavam crianças. A guitarra e o contrabaixo flutuam num mar de desamparo em “Drifting through the days” antes de as cordas desatarem a chorar, entre o “progressivo” e a música de câmara. “Pitfalls” oscila entre os Gentle Giant e a escola inglesa de jazz, nos seus desenvolvimentos de violino e saxofone. O rock excêntrico de “Live, Love, Larf & Loaf” é redimensionado numa veia quase “rockabilly” pelos saxofones de Paul Dunmall e Tony Roberts, em “Big Chimney”.
A úncia nota de algum optimismo de “Industry” surge pela via de uma inversão/mutação que interioriza o fascínio pela força da estética industrial. “New Rhythms” acentua a cadência implacável da máquina, com a sua batida metálica e repetitiva, contra a qual se insurge uma gaita-de-foles, antes da derivação para um fraseado jazzístico. Mas é “Saboteur” o tema que melhor ilustra esta dialéctica de ódio/fascinação pela máquina. Um trabalhador de uma fábrica de algodão sente-se enlouquecer com o poder e o barulho ensurdecedor da maquinaria e decide sabotá-la. Mas, quando desce à cave para o fazer, fica hipnotizado pela beleza do metal, mostrando-se incapaz de levar a sua intenção por diante.
Participam em “Industry”, entre outros, o seu antigo companheiro nos Fairport Convention Dave Mattacks, na bateria, a cantora Christine Collister, Peter Knight (violinista dos Steeleye Span) e elementos dos Whatever, de Danny Thompson, nos sopros.

Richard Thompson – Mock Tudor

10.09.1999
Quadros De Um Rapaz Dos Subúrbios
Richard Thompson
Mock Tudor (8)
EMI, distri. EMI-VC

richardtompson_mocktudor

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“Pode tirar-se o rapaz dos subúrbios, mas não se pode tirar os subúrbios do rapaz.” A frase, que um dia alguém aplicou a David Bowie, natural de Brixton, nos arredores de Londres, assenta como uma luva a Richard Thompson, outro nativo dos subúrbios londrinos, temática que este músico já havia abordado com a sua então mulher, Linda Thompson, em “Sunnyvista”, e que agora retoma neste seu mais recente capítulo a solo, depois do duplo “You? Me? Us?”, de 1996. Com produção de Tom Rothrock e Rob Schnapf (trabalhou com Elliot Smith), “Mock Tudor” está dividido em três “capítulos”, correspondentes aos períodos cronológicos que marcaram a relação de Richard Thompson com Londres, mais concretamente, a zona norte da cidade: “Metroland” (1953-1968), “Heroes in the suburbs” (1969-1974) e “Street Cries and Stage Whispers” (1974 até hoje).
Está ao nível dos melhores trabalhos deste músico cuja carreira se iniciou nos Fairport Convention até se tornar nome de referência para gente como os REM, Bruce Springsteen, David Byrne, Nancy Griffith, Elvis Costello, Shawn Colvin, Evand Dando e Bob Mould. Sem atingir o estatuto de obra-prima de “I Want to See the Bright Lights Tonight” (com Linda Thompson) nem explodir no delírio de excentricidade de “In Strict Tempo”, “Mock Tudor” ilustra, no entanto, o que de mais consistente – folk-rock personalizado ao mais alto nível – existe na sua veia criativa, num álbum que carrega com menos força do que é habitual na tecla do sarcasmo e da miséria.
Do rock ‘n’ roll de coração adolescente do tema de abertura, “Cooksferry queen”, ao pungente tema final, “Hope you like the new me” (evocativo da tristeza que se infiltrava no âmago da música de três grandes nomes, entretanto desaparecidos, da folk contemporânea, e aos quais o álbum é dedicado: Nick Drake, Sandy Denny e Lal Waterson), “Mock Tudor” traça o quadro subjectivo dos subúrbios da capital ingelsa na última metade deste século, com o cinzento do cimento polido pela chuva e a vida aprisionada nos reflexos das poças de água das ruas. Há grandes canções neste tríptico, como “Uninhabited man” (com Thompson na sanfona), “Sibella” ou “Hope you like the new me”, uma “pastische” dos Police, em “Crawl back (under my stone)”, apontamentos “country” (“Walking the long miles home”) e sequências de folk-rock evocativas dos Fairport de “Liege & Lief” e “Full House”, (“Two Faced Love”. Richard Thompson não é um compositor simpatico e a sua obra adquire, por vezes, uma irritante opacidade. Por isso a relação de “Mock Tudor” com o auditor poderá ser semelhante à do músico com a sua cidade natal – de “amor-ódio”, como ele próprio diz. E a sua música, como Londres, “um lugar idealizado para se viver”.