JOSÉ MÁRIO BRANCO
A Noite (8) / Correspondências (8)
Ed. EMI –VC
O que torna José Mário Branco e a sua música únicos? A arte dos arranjos e da composição? O segredo da transmutação? A culinária de venenos? A capacidade de luta e de resistência? A ironia? O sarcasmo? A transparência? Tantas perguntas a pedir respostas, que, por sua vez, exigem outras perguntas. Experimente-se uma chave: a força. A força das convicções e dos ideais. A força que confere unidade a uma obra que passou em revista os vícios e virtudes da sociedade portuguesa das últimas três décadas.
“A Noite”, editado originalmente em 1985, junta duas facetas distintas do compositor. De um lado, em termos de rodela de vinilo – ou na reconversão para o novo formato, na primeira parte –, é o foguetório popular, a sátira mordaz e festivaleira de “Cá vai Caneças”, “Tiro-no-liro” e “Elogio da Corrupção”. Na segunda parte, Portugal apaga-se, para se reacender e desventrar, uma vez mais, numa solidão que é de todos nós, que definhamos a sonhar os mitos e glórias do passado.
De todos, quase todos nós, carneiros modernos ou pós-modernos, mas carneiros sempre – por imposição ou vocação, vai dar ao mesmo. “A Noite” é um longo poema sinfónico/ manifesto espiritual, que interroga os abismos da história (ou o seu negativo) e do inconsciente portugueses. “A noite é o espaço vago, o tempo sem história/ em que as perguntas nascem dentro da memória/ em tudo o que já fomos está o que seremos/ mas cabe perguntar: foi isto que quisemos?”
Se “FMI” fazia a dissecação, sem anestesia, de um corpo inteiro em agonia, “A Noite” é a revelação das suas motivações e pulsões – estéticas, espirituais, existenciais e políticas –, através da interrogação e da auto-interpelação: “Como é que aqui chegámos?” “Acaso estamos vivos?” “Existe uma saída?” Caminho de retorno ao paraíso do útero maternal, única matriz a partir da qual é possível recomeçar tudo de novo. Com “A Noite” a música portuguesa recomeçou e das trevas fez-se luz. Ascensão e queda, passado e futuro, indivíduo e colectividade, “A Noite” constitui-se como a própria dialéctica da criação. Iluminada em palco, à luz dos holofotes e do espírito, mesmo em frente aos nossos olhos estremunhados.
Com data de edição original de 1991, “Correspondências”, ao contrário de “A Noite”, tem carimbo e o endereço dos destinatários. Palavras e sons dirigidas a poetas e músicos, aos netos e ao sr. Silva, ao remetente, quando a solidão e a ilusão apertam mais. Um álbum que, em termos poéticos, resume, sem lhes acrescentar novos destinos, viagens cumpridas do autor, espécie de recapitulação, de um pôr em ordem o desalinho dos anos e desenganos do passado. Em termos de som e produção, é um trabalho de colaboração, de experiências formais, por vezes sentidas como desvios.
Nesse aspecto de partilha de responsabilidades, “Correspondências” pode ser visto como o equivalente a “Galinhas do Mato”, de José Afonso, no qual as funções de comando foram entregues a José Mário Branco. Cumprida mais uma espiral do tempo, chegara a vez do próprio José Mário Branco entregar os arranjos a amigos como José Peixoto, José Martins e Júlio Pereira.
É ainda o sinal do fim de uma época e o começo de outra, marcado pelo nascimento da UPAV, na defesa, em novos moldes, da música portuguesa. José Mário Branco, o político, sobrepondo-se ao José Mário Branco, músico. Uma vez mais, as notas informativas que acompanham as presentes reedições, da autoria de Nuno Pacheco, constituem leitura auxiliar obrigatória.
JOSÉ MÁRIO BRANCO
Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades (10)
Margem de Certa Maneira (10)
A Mãe (8)
Ser Solidário (9)
Ed. EMI – Valentim de Carvalho
Lançados há pouco, “A Mãe” e “Ser Solidário” completam o primeiro pacote de reedições da produção integral de José Mário Branco, juntando-se às duas primeiras obras anteriormente colocadas à venda no mercado.
Mais que um acto de justiça feito a um dos maiores compositores, arranjadores e – porque não dizê-lo – intérpretes de música popular portuguesa de todos os tempos, a recuperação para o formato digital da sua obra (com a reprodução das capas originais e enriquecida pela escrita de Nuno Pacheco) vale como exemplo de uma atitude. Ao mesmo tempo, poderá e deverá servir de ensinamento e base de trabalho para toda uma geração de novos músicos que pretendam fazer algo mais do que simplesmente submeter-se às regras do jogo.
“Não te prendas a uma onda qualquer”, era o aviso, feito em 1982, em “Ser Solidário”. Se há uma lição a extrair do modo como o autor destes quatro álbuns sempre encarou a música, ela está na liberdade e no desafio que lhe permitiram livrar-se tanto do espartilho ideológico como de um esteticismo autoconvencido.
José Mário Branco, como José Afonso antes dele, apontou o único caminho que permite a verdadeira emancipação de uma arte onde o popular não se confunde com o popularucho, nem o acto interventivo com o gesto irreflectido. Didáctica, sem impor formas de conduta, aberta, na não exclusão preconceituosa de qualquer género musical, toda a obra do compositor aponta para a ruptura e para a auto-análise, essenciais para um movimento que se pretenda dialéctico. Não como círculo fechado em torno de um qualquer umbigo, mas como projecção num presente reinventado, sem dúvida, a partir da experiência pessoal. Um presente inserido numa realidade social que, mais que filtrada ou reproduzida através de meros processos de dobragem ou contemplação, se transmuta numa outra realidade, onde a poesia e o trabalho, a arte e a vida, a dor e a diversão, a raiva e a ternura deixam de ser veículos encapotados ao serviço de ideologias ou quaisquer outros tipos de manipulação.
Se “A Mãe”, álbum composto para uma peça de teatro da Comuna/Teatro de Pesquisa, constitui, dos quatro discos em questão, aquele onde o discurso surge mais conotado com uma visão partidária – o fabuloso incêndio de “F. M. I.” pode ser encarado como o equivalente musical de manifestos poéticos como a “Cena do ódio” de Almada Negreiros ou a “Ode triunfal” de Pessoa/Álvaro de Campos, nessa absoluta justaposição do sentir com o dizer – “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades” e “Margem de Certa Maneira” são o gosto pelo risco e a reinvenção de uma herança musical sem data nem fronteiras. São dois álbuns em que o sinfónico, o jazz, a tradição rural, a poesia trovadoresca, o rock, a canção libertária e o teatro (tantas vezes da crueldade…) se unem para dizer – e contradizer – o que deve ser dito, na conquista de mais espaço e liberdade para as palavras e para os sons que jamais se contentam com o que têm. Dois álbuns que, enfim, nos ensinam que o acto político mais forte e corajoso nasce da coragem de ser (e de parecer) o que se é.
14 de Fevereiro de 1996 Os melhores de sempre – música portuguesa
José Mário Branco “Ser Solidário”/”FMI”
Como foi
À primeira tentativa de gravação de “Ser Solidário” responderam as editoras com a recusa. As resistências do medo e dos preconceitos foram mais fortes do que a música. José Mário Branco viu-se obrigado a mudar de estratégia. “Ser Solidário” lançou-se nos palcos, a testar sensibilidades, aguardando melhor oportunidade. “É um disco pensado para disco”, diz o seu autor, “com material inventado, composto e concebido na sequência da minha saída da Comuna – um disco com princípio, meio e fim, com o ‘FMI’ integrado. A proposta de edição deste trabalho foi elaborada com ajuda de Manuela de Freitas, do Trindade Santos e do José Duarte. Agarrei numa maqueta e foi assim que o propus a várias editoras, que não se interessaram. Houve reacções e respostas negativas de vária ordem: frontais, laterais, silêncios, não-respostas. Pelo que percebi de algumas negativas que foram expressas, terá havido dois tipos de factores para a recusa. Por um lado, a marginalização de um tipo muito queimado de período de 1974-75. Por outro, medo e recusa de editarem, especificamente, o ‘FMI’. Havia a atracção pelo lado mais escandaloso, mas também o receio.”
“Ser Solidário” parte para a estrada. José Mário Branco decidiu transformá-lo num “espectáculo de cartaz”, uma produção do Teatro do Mundo para “ficar em cena”. Estreado em Novembro de 1980, “poucos dias antes da morte do Sá Carneiro e do Amaro da Costa, foi a primeira vez que um espectáculo musical ficou em cena durante tanto tempo”. Perto de dois anos, “com salas esgotadas”, que permitiram às canções crescer e ganharem força. A selecção dos músicos, feita “um pouco à pressa”, incidiu sobre os mesmo que depois tocaram no disco.
Ultrapassada uma fase em que se chegou a propor ao espectador contribuir monetariamente para a gravação do disco, que depois receberia gratuitamente em casa – “cada espectador recebia à entrada um cheque-disco de 500 escudos e uma carta manuscrita a explicar”, “Ser Solidário” encontrou por fim uma editora interessada, a Edisom. Em Maio de 1981, José Mário Branco propõe a repetição do espectáculo no Teatro Aberto: “Mais um mês”. Na sequência disso, surge o contacto com a Edisom, acabada de criar por Zé da Ponte. Já depois de concluída a gravação e saído o disco, as mesmas canções regressaram de novo à estrada, agora já num formato de trio, “para mais dois anos e meio, três” de espectáculos.
É um “testemunho individual, profundamente individual” aquele que é dado a ouvir em “Ser Solidário”, mas também “um percurso que foi muito partilhado”. “Ao falar de mim, estou, mesmo sem querer, a falar dos outros.” Por isso, o disco pode ser encarado como testemunho geracional de muitos que, melhor ou pior, se relacionaram com a mudança. Ou o que se pensou ter sido uma mudança. “Há um tom de crítica e de auto-reconstrução antidogmática” neste trabalho, “que aproveita, inclusive, coisas que vês antes do 25 de Abril, como o ‘Vá…Vá…’, uma canção pronta desde 1970”, alusão ao café Vá-Vá, onde se reunima os intelectuais. “É uma reacção radical minha, no exílio [em Paris], ao que se poderia chamar os defeitos do intelectual de esquerda de café. Continua a ser um recado aos que falam, como eu dizia a brincar, dos problemas do povo com citações em alemão.”
Em termos musicais, o álbum espelha as tensões psicológicas e as contradições com que o seu autor se debatia. “Quase uma briga de estilos” em que os vários géneros musicais explodem como estilhaços de uma granada em todas as direcções. “É uma coisa e o seu inverso”. Dialéctica entre experiências já realizadas com “o jazz, o fado, as marchas populares, a música de raiz tradicional” e o “contacto com um património pessoal”, na “reconciliação” do músico com o próprio passado. José Mário Branco define numa palavra o seu estado de espírito nessa época: “Inquietação”, título de uma das canções de “Ser Solidário”. E um “amargo de boca”, a azedar nas palavras ambíguas do título-tema que fecha este duplo álbum. “Tentámos e não conseguimos e não só não conseguimos como este plural é o quê? Quem somos nós? Tenho eu alguma coisa a ver, ou não, com muita da gente com quem tenho andado? Numa altura em que os Pachecos Pereiras e os Durões Barrosos faziam a linha para o PPD, eu estava nesse estado!”
Confusão, oportunismo, indiferença, provincianismo, cinismo. Eis as linhas com que se cosia a sociedade portuguesa, onde, cada um a seu jeito, deu o sentido que mais lhe convinha à palavra revolução. É este estado de coisas, esta estagnação profunda das mentalidades, que “FMI” vem ferir como um cutelo, sem poupar ninguém. “É o produto de uma grande dor, um dor que me deu.” José Mário Branco pormenoriza os sintomas: “Numa noite, já deitado para adormecer, começou a rezinar-me uma parte de um tema antigo, em que glosava o início de ‘Os Lusíadas’, e a virem-me as palavras soltas, quase em escrita mental automática, de jorro.” “Um pedaço da vida” do músico, só possível de apresentar com “uma grande organicidade”, do mesmo modo que outro pedaço da sua vida, não menos visceral, que viria a ser gravada três anos mais tarde, “A Noite”. “Mais teatro do que música”, é verdade, se entendermos por teatro ao sentido que lhe deu Artaud, a coincidência absoluta entre a emoção, o ser e a sua representação. Daí as cautelas que rodearam a apresentação de “FMI”, com a capa do maxi-single selada com um aviso de proibição de qualquer “audição pública, parcial ou total” sem o consentimento do autor.
“Ser Solidário”/”Ser Solitário”. A alternância do “d” e do “t” não é original. José Mário Branco inspirou-se num conto do romancista existencialista francês Albert Camus “sobre o absurdo”. “É o percurso interior de um pintor que, à medida que avança na concepção e na depuração ético-estética da sua arte, se vai deixando tomar por um processo de esquizofrenia e isolar do mundo, da família, de todos. Até que fica isolado no sótão da casa, com as suas tintas e as suas telas, e já não sai de lá, nunca mais. Depois de muito tempo sem saberem dele, alguém resolve entrar naquele sótão e encontra-o já morto. No cavalete, está uma tela toda pintada de branco com uma assinatura que não é uma assinatura mas uma palavra, ‘solitaire’ ou ‘solidaire’, não se percebe se é um ‘t’ ou um ‘d’.” A capa de “Ser Solidário” é negra.
Como é
“Ser Solidário”, ou “Ser Solitário”, corolário de um período de intensa actividade de José Mário Branco, entre 1977 e 1979, como compositor e actor da Comuna, muito mais do que um simples trocadilho gramatical, é um genial trocadilho sobre uma alma, muitas almas, e sobre a música, muitas músicas. A “queixa das almas jovens censuradas”, do poema de Natália Correia, um dos grandes temas deste duplo álbum, vale como manifesto de um período simultaneamente amargurado e luminoso do autor, que aqui se questiona a si próprio, ao mesmo tempo que interroga a realidade portuguesa ainda a lamber as feridas abertas pelo 25 de Abril.
É um álbum de ruptura, de inquietação de procura de novas formas musicais que pudessem conter e responder à incandescência criativa das palavras, mais desesperadas e, paradoxalmente, carregadas de esperança do que nunca. O “jazz” e o fado são apenas duas dessas formas, onde José Mário Branco encontrou abrigo para a mudança. Jogando com o jazz-rock, reconverteu esta linguagem, na apropriação da “Maiden voyage”, de Herbie Hancock, para ilustrar o poema de Manuela de Freitas em “Sopram ventos adversos”. Testemunho de um homem só, estigmatizado pela sua coragem e pela sua diferença, “Ser Solidário” é, em paralelo, o testemunho de uma geração que não o soube compreender. Mais do que o hino “Eu vim de longe, eu vou p’ra longe”, ou o sarcasmo populista transformado em êxito radiofónico de “Qual é a tua, ó meu?”, é o título-tema que melhor reflecte essa relação de amor-ódio com a mediocridade, ontem como hoje, vigente neste quintal lusitano. Onde seria de suor a declaração linear, José Mário Branco dispara a ambiguidade, bem expressa na derradeira quadra deste disco: “De como aqui chegar não vale a ena/ Já que a moral da história é tão pequena/ Que nunca por vingança eu te daria/ No ventre das canções sabedora”.
Na mesma altura, José Mário Branco fez sair, em máxi-single, “FMI”, o tema que lançou sobre si a maldição nos 25 minutos mais violentos e catárticos de sempre da música popular feita em Portugal. Gravado ao vivo, composto de jorro a meio da noite (“A Noite” estava ainda por chegar), “FMI” é o equivalente musical da “Cena do ódio”, de Almada Negreiros. A lucidez e a raiva levados ao extremo, num libelo de vida ou de morte contra o sistema, mas também o grito e o choro, a nudez absoluta de um homem que se expôs por inteiro. “FMI” (um anagrama de “Fim”…) é a obra-prima de um homem livre cujo destino é “improvavelmente ser feliz”.