Arquivo de etiquetas: José Mário Branco

Maio Maduro Maio – Artigo de Opinião

Pop Rock

7 de Junho de 1995

Os CINCO mais maduros de Maio


mmm

Em “Maio Maduro Maio”, José Mário Branco, Amélia Muge e João Afonso, na companhia instrumental de António José Martins e Rui Júnior, assinam a mais bela homenagem de sempre à música de José Afonso. Vinte e cinco canções, entre as quais dois inéditos e um tema de José Mário Branco, dão corpo a uma visão simultaneamente próxima e distanciada da obra do autor de “Cantigas do Maio”. Próxima pelos elos, artísticos, pessoais ou mesmo familiares, que unem José Afonso a cada um dos músicos participantes. Distanciada porque lúcida e permeada de um espírito de aventura que acrescenta outros dizeres às palavras e notas do mestre.
Feita a recensão das vinte e duas canções que se encontram espalhadas pela discografia do homenageado, fizemos estatística, obtendo os seguintes resultados: “Fura Fura”, de 1979, é o álbum que contribui com o maior número de canções, quatro. Seguem-se “Venham Mais Cinco” (1973), “Coro dos Tribunais” (1974) e “Como se Fora seu Filho” (1983), todos com três canções, embora ao primeiro falta o título-tema, que faz parte do espectáculo mas foi omitido no disco, por razões técnicas. “Cantares do Andarilho” (1968) e “Contos Velhos, Rumos Novos” (1969) figuram com duas canções cada. Com apenas uma canção escolhida estão “Baladas e Canções” (1967), “Cantigas do Maio” (1971), “Enquanto Há Força” (1978) e “Galinhas do Mato” (1985). Ou seja, não entram nesta lista “Traz Outro Amigo Também” (1970), “Eu Vou Ser como a Toupeira” (1976) e “Fados de Coimbra” (1981).
Concluídas as operações de contabilidade, pedimos a José Mário Branco, Amélia Muge e João Afonso que fizessem a sua escolha individual, acompanhada dos respectivos comentários. Os resultados deram “Fura Fura” e “Cantigas do Maio “ consensuais. “Coro dos Tribunais” (J.M.B. e A.M.) e “Como se Fora seu Filho” (J.A. e A.M.) receberam, cada um, duas citações. Por fim, as escolhas mais personalizadas revelaram que “Venham Mais Cinco” está na frente das preferências de João Afonso, “Cantares do Andarilho” é um dos preferidos de Amélia Muge, tendo José Mário Branco optado por “Galinhas do Mato”, em segunda escolha, uma vez que a primeira, “Fados de Coimbra”, não contou, por não figurar na lista de “Maio Maduro Maio”.

“Fura Fura”
José Mário Branco: É o disco mais bonito do Zeca, o que mais me encheu as medidas em termos de riqueza melódica, poética e harmónica. Com um trabalho espantoso do Júlio Pereira, com um bom-gosto incrível nos arranjos. Foi o grande salto em frente do Júlio, o contacto com o Zeca. Um disco que não me canso de ouvir. Uma canção: “De sal de linguagem feita”.

Amélia Muge: Pondo o mesmo entusiasmo que o José Mário em relação ao trabalho do Júlio, é o disco onde se sente mais aquele fervilhar da canção tradicional, de terreiro. “Fura Fura” é um disco de terreiro e de taberna. Onde o Zeca mais faz aquilo que considero muito importante em termos de tradição, que é repegar nas coisas populares e acrescentar-lhes versos ou fazer músicas a partir de versos populares. É também um disco de teatro baseado nas “Guerras do Alecrim e da Manjerona” e no “Zé do Telhado”. Esse lado está muito vivo.
Uma canção: “Senhora que o velho”.

João Afonso: Excelente trabalho do Júlio Pereira. Tem músicas meio surrealistas, como “De não saber o que me espera”, uma grande visão sobre a vida.
Uma canção: “De não saber o que me espera”.

“Cantigas do Maio”
José Mário Branco: Disco histórico. Mas há razões muito pessoais para esta escolha, além de razões que têm a ver com a História do meu país. Foi a primeira vez que pude trabalhar com o Zeca a sério, que descobri a riqueza incrível que está debaixo dos temas dele. Não me é possível separar este disco do que eu vivi a fazê-lo. Algo de empolgante e importante para a minha vida toda.
Uma canção: “Cantar alentejano”.

Amélia Muge: Tem uma coisa espantosa que é logo o seu começo, em que começa e não começa. Mesmo se não fosse preciso mais nada, há ali uma enorme lição que tem a ver com as marcas de um trabalho e que mostra que um disco é algo mais do que uma súmula de canções. Por outro lado, já para não falar nos arranjos do Zé Mário, – um dos seus trabalhos mais extraordinários a esse nível -, é um disco onde o lado feminino do Zeca (espero que as pessoas não me interpretem mal) está mais patente. Há um lado masculino e um lado feminino que estão em nós. Ele soube tão bem mostrar isso, em “Mulher da erva”, “Cantar alentejano”, até mesmo em “As filhas do marajá, com patilhas de beber o chá”, onde há um lado muito feminino, ligado ao próprio mês de Maio. Há um lado comovente, sem ser lamechas, que tem muito a ver com a intuição feminina.
Uma canção: “Mulher da erva”.

João Afonso: Destaco a direcção do Zé Mário, o surrealismo de “Ronda das mafarricas”, do António Quadros, a maravilha que é “Mulher da erva”. Um disco de arrepiar, com uma imaginário riquíssimo. É uma fantasia.
Uma canção: “Mulher da erva”.

“Galinhas do Mato”
José Mário Branco: Aqui é de destacar mais a genialidade do Zeca como autor-compositor. Como se sabe, é um disco em que o Zeca praticamente já não canta, o pouco que aparece cantado por ele são restos do disco anterior. O Zeca intervém como autor-compositor e como produtor musical. Atenção – ele está presente em todos os momentos deste trabalho, no estúdio, a fazer a direcção dos cantores e dos músicos. Tem temas geniais.
Uma canção: “Benditos”.

“Cantares do Andarilho”
Amélia Muge: Um disco onde o Zeca está sozinho com a sua viola e o seu “pathos”. Um disco das origens. Tem uma ideia de começo mas ao mesmo tempo também de um Zeca despojado de tudo o resto, de tal maneira caseiro que quase tenho a sensação de que se tocassem à porta ele deixava de cantar.
Uma canção: “Cantares do andarilho”.

“Venham Mais Cinco”
João Afonso: Não podia deixar de escolher este, por causa do “Redondo vocábulo”, de facto uma autêntica pintura, uma música surreal. Gosto muito das letras meio estranhas e difíceis de entender. Tanto em “Venham mais Cinco” como em “Coro dos Tribunais”, o Zeca conseguiu colher influências africanas, embora meio “ajazzeadas”. Mas não as assumia em bruto, por exemplo não cantava como um negro. Transformava essas influências, personalizava-as. Quando não era moda a música africana na Europa, o Zeca apareceu com “Lá no Xepangara” e “Ailé, ailé”…

“Coro dos Tribunais”
Amélia Muge: … É importante falar do “Coro dos Tribunais”. É o primeiro disco que sai depois do 25 de Abril. A sensação que tenho é que daqui a dez anos vou ter razões se calhar ainda mais fortes para gostar dele. É o disco em que assume particular importância a ideia de expressão, do direito à palavra, e de toda a responsabilidade que isso implica em termos de julgamento. São as duas grandes correntes do disco: a questão do julgamento, ligada à liberdade e ao direito à palavra, e a própria ideia de animação, com “O que faz falta” ou “O brado da terra”. Um disco ainda por descobrir. Por essa carga toda e por ser também um disco ligado ao Fausto, que aqui cria ritmos a ambiências fabulosas.



Resistências: José Mário Branco – “Correspondências” + Janita Salomé – “Cantar À Lua”

Pop Rock

6 MARÇO 1991
LP’S

RESISTÊNCIAS

JOSÉ MÁRIO BRANCO
Correspondências
LP, MC e CD, UPAV

jmb

JANITA SALOMÉ
Cantar à Lua
LP / MC / CD, Edisom

janita10

Multiplicam-se as edições discográficas nacionais de obras não directamente relacionadas com o rock. Cantores/compositores como Sérgio Godinho e José Mário Branco voltam a ser referidos de igual para igual com os músicos rock. A música tradicional ganha novo fôlego (Vai de Roda, Cantares do Manhouce). Como se de repente se alargassem as fronteiras do mundo. Ou as vistas se tornassem menos curtas. Mais interessante ainda: os discos vendem-se.
Foi preciso esperar quase dois anos até “Correspondências” estar finalmente disponível nos escaparates. As multinacionais ignoraram sistematicamente o projecto. Não acreditaram num músico, José Mário Branco, de créditos firmados e justamente reputado com um dos grandes compositores e arranjadores da moderna música popular portuguesa. O disco saiu agora com o selo UPAV, cooperativa cultural de que o próprio é fundador e membro activo.
“Correspondências”, gravado em 1989 no Angel Studio, assinala uma mudança significativa no percurso do autor e particularmente em relação ao seu anterior trabalho, “A Noite”. Para trás ficou o tom épico-dramático do longo tema que dava nome a esse disco ou a raiva e lucidez do manifesto “FMI”. José Mário Branco pôs a correspondência em dia, através de dez canções dirigidas a outros tantos destinatários: Daniel Filipe, José Afonso, Hannah Arendt, Chico Buarque, Anton Tchekov, a si próprio e aos netos, ao misterioso J.C. e ao prosaico sr. Silva. Palavras certas. Palavras cortantes. Populares umas, outras distantes. Entre a fábula acerca da mediocridade que é “Diminuendos”, contando a história do leão que aos poucos se transformou em formiga e a distanciação apaixonada de “Emigrantes da quarta dimensão”.
A voz – a mesma de sempre – mais madura, pausada, sem a rouquidão demencial de “A Noite”. Continua mestre na arte dos arranjos, na maneira de tornar mais bela uma canção. Excelente e conciso todo o trabalho efectuado no computador (“Dairinhas”, “Diminuendos”, “Shalom Palestina”, “Cada dia são cem”). Tudo encaixa sem esforço no lugar certo – a introdução pianística de Mário Laginha em “Emigrantes da quarta dimensão”, os coros elegíacos de “Zeca”, o evocativo solo de sax de Paulo Curado em “Sentido único”, os diálogos violoncelo/flauta (tocados respectivamente por Irene Lima e Ricardo Ramalho) em “1900” e das guitarras em “Quando eu for grande” (por José Peixoto e Júlio Pereira). José Mário Branco permanece ao lado das modas e à frente na luta contra o derrotismo e a contemporização. Recados por carta a quem os souber ler.
“Cantar à Lua”, de Janita Salomé, não pretende ser mais do que aparenta: álbum de fados (como já havia sido o anterior, “Melro”) e alguns temas tradicionais, acompanhados à (apenas) guitarra, (António Brojo e António Portugal) a que falta o intimismo contido da saudade e da escuridão das vielas, substituídos pelas grandes extensões queimadas e solares ou a placidez das noites enluaradas do planalto alentejano, presentes na voz e no canto pujantes de Janita. Disco afastado do gosto das massas. Disco contido e sentido nos propósitos, sincero no modo com os traduz. Faz apetecer o verão. Desejos à luz branca e crua, quando o mundo cala e a alma se liberta, nua, para lá dos montes e da Lua.