JOE JACKSON
Night and Day II
Manticore, distri. Sony Music
07|10
Distantes vão os tempos em que Joe Jackson ensaiava os primeiros passos nas garagens da “new wave”. Com a passagem do tempo o Tintin do rock apurou o estilo, acendeu cigarros e enfrascou-se com “bourbon” no jazz canalha até chegar à depuração formal do classicismo, numa “Symphony No.1”, que lhe conferiu o estatuto de erudito. Mas como os amores antigos não se esquecem, eis que Joe regressa á cidade que o viu nascer, Nova Iorque, para reacender os holofotes numa sequela do aclamado “Night and Day”, de 1982. Voltam as canções, os ambientes “cool” e noturnos, embrulhados em roupagens “jazzy” ou em arranjos para cordas (pelo recém-criado quarteto Ethel), pretexto para o compositor e cantor mergulhar nos mundos paralelos e personagens bizarras que fazem a mística de NY. Três dessas personagens bem poderiam ser as cantoras convidadas Sussan Deyhim, Dale de Vere e Marianne Faithfull, cujas participações fazem a diferença no documentário.
Na profundidade e sumptuosidade dos arranjos, na descoberta, a cada nova audição, de novos pormenores, “Night Music” tem a dimensão de um clássico. As canções desrespeitam o formato vulgar pop. “Flying”, com ressonâncias a Elvis Costello, é o único momento em que a memória dos primeiros tempos de Jackson é consentida. As outras são lentas cascatas de emoção dentro das quais o músico inventa espaços que pinta a seu bel-prazer com traços electrónicos. Oboés, violinos e clarinetes contribuem para aumentar a dimensão clássica de “Night Music”, espécie de grande produção cinematográfica a que não é alheia a aprendizagem anterior de Jackson na autoria de bandas sonoras como “Tucker”, “Shijin No Ie” (com a orquestra Filarmónica de Tóquio) ou “Queens Logic”, a par da gravação dum álbum totalmente instrumental, “Will Power”, já editado em Portugal. Joe Jackson prepara ainda uma obra sinfónica para instrumentação electrónica a incluir no catálogo de clássicos da Virgin. “Even after”, “The man who wrote Danny boy”, “Only the future”, “Sea of secrets” e “Lullaby” são canções para durar. A voz do cantor suavizou-se, os tempos ganharam uma respiração mais lenta, os sintetizadores assumem-se como principais tecelões das melodias. Espalhadas entre as imagens sonoras, outras imagens, sem palavras, falam na noite: quatro “nocturnos” onde os sons sintéticos se fundem, como as estrelas contra o pano negro de céu, com as cordas e os sopros acústicos, para fazer surgir paisagens que evocam o universo musical de um Hector Zazou, de “Géographies” e “Géologies”. “Detesto a ideia de ser considerado um rocker veterano ou uma estrela pop envelhecida”, diz Joe Jackson, “se tiver que escolher, prefiro ver-me como um jovem compositor”. Gershwin e Cole Porter têm um novo discípulo. (8)
Katharco Consort
La Divina Comedia (7)
Lyricon, distri. MC – Mundo da Canção
O céu e o inferno. Deus e o demónio. O tema da eterna luta entre o bem e o mal, da salvação ou condenação do homem, têm sido tratados ao longo dos séculos em todas as formas de arte, ocupando um lugar de destaque no imaginário do final deste século. No universo da Pop os anjos e mafarricos também têm tido o seu tempo de antena, com mais ou menos cheiro a incenso ou a enxofre. Joe Jackson, nascido em berço “new wave” mas cada vez mais assumido como autor erudito, abordou o tema de uma forma curiosa. “Heaven & Hell” não é tanto um álbum que pegue no tema na sua generalidade mas uma sequência de sete canções, mais um prelúdio, correspondentes aos sete pecados mortais. Cada uma destas canções possui dois títulos, um luminoso, visível, e outro negativo, como o seu contrário, ou duplo, que é o do próprio pecado. É no prelúdio e nas duas fugas que abrem e fecham a série dos sete pecados mortais que se fazem sentir com mais intensidade as influências clássicas de Joe Jackson, como já se manifestavam no álbum anterior, “Night Music”. Uma escrita que, segundo o seu autor, se prende com o excesso (ainda, segundo ele, um excesso de notas) inerente à noção de pecado. Mas onde “Heaven & Hell se mostra verdadeiramente interessante é nos casos em que a vertente mais formalista se combina de forma admirável com o formato de canção pop, servido por uma não menos notável intuição melódica, como acontece em “Passacaglia / A bud and a slice” (correspondente ao pecado da preguiça). “Right” (sobre o pecado da ira), por outro lado, alterna a agressividade de ruídos de tráfego e o combate de gladiadores entre dois bateristas, com a fragilidade de uma melodia quase suplicante. “Tuzla” desloca o tema da avareza para o palco da guerra na Bósnia, apontando o dedo aos que da tragédia procuram tirar lucros. As aparições de Suzanne Vega, no papel de anjo caído, em “Angel”, e de Jane Siberry, em “The Bridge” (sobre a inveja) não são determinantes, passando quase despercebidas ao lado das qualidades solísticas da violinista Nadja Salerno-Sonnenberg. “Heaven & Hell” oferece ainda um apêndice em CD-ROM com comentários de Joe Jackson a cada um dos temas e, para os mais literatos, a capa inclui citações de Robert Browning e da teosófica Helena Petrovna Blavatsky, sobre as relações entre Deus e o diabo.
A mesma temática do céu e do inferno é retomada pelos Katharco Consort, ou Katharco Early Music Consort, para a editora espanhola Lyricon, vocacionada para o lançamento de produtos híbridos entre a “new age” e a música antiga. Os Katharco Consort, liderados por Marco Ambrosini (viola d’amore, violino de bolso e voz) inserem-se na mesma linha de grupos como os Vox, cuja paixão pela música antiga não dispensa uma utilização, por vezes extensiva, da electrónica. Nesta “La Divina Comedia” inspirada directamente no clássico de Dante Alighieri, Ambrosini optou por uma leitura que situa o tema, para além dos seus aspectos obviamente espirituais, nos termos de uma “viagem iniciática pelo interior do corpo humano”. A peça divide-se em cinco andamentos, um prólogo e um epílogo, ambos curtos, e três motivos centrais de 15 minutos cada subordinados ao “Inferno”, “Purgatório” e “Paraíso”. O “Inferno”, como é hábito, diz-se aqui através das percussões, mas também de uma gaita-de-foles (durante muito tempo proibida pela igreja católica que via nela um “instrumento do diabo”) da Macedónia e sopros vários, ora em colisão dissonante ora swingando sobre as chamas do “jazz”. “purgatorio”, com uma estrutura harmónica mais clara, simboliza a espera e a incerteza, o sofrimento antes da luz. O andamento é um “andante” sinuoso, uma voz conduz primeiro as almas sobre as ondas do mar, depois um clarinete cede progressivamente a vez à harpa até que um naipe de cordas chega, fazendo já ouvir as promessas do paraíso. Já no lugar de eleição uma flauta de bisel desenha melodias celestiais sobre o dedilhar sereno da harpa, com as cordas cumprindo o seu papel de “coro eterno” numa demonstração da beleza do que se poderá chamar, seguindo a lógica do paradoxo, “nova música antiga”, mas que também não anda longe do “Heaven & Hell” da autoria do grego Vangelis. Num final apoteótico um órgão de igreja MIDI descansa por fim sobre as batidas de um tambor xamânico, simbolizando não só a fusão das almas no Uno como também a conciliação do Passado com a tecnologia. É bonita, embora previsível, a música que se faz ouvir no paraíso dos Katharco Consort.