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Maria João, Teresa Salgueiro e Filipa Pais – “Três Cantoras Debatem Música Portuguesa No Feminino – Cantos Da Alma Sentida” (entrevista)

pop rock >> quarta-feira, 03.02.1993


Três Cantoras Debatem Música Portuguesa No Feminino
CANTOS DA ALMA SENTIDA



Reunimos o trio de ouro das vozes portuguesas. Para Maria João, Teresa Salgueiro e Filipa Pais, o prazer de se saberem cúmplices juntou-as quase imediatamente nos cantos que encheram os corredores do PÚBLICO. Em jeito de antecipação de um projecto antigo de Filipa Pais e Teresa Salgueiro, baseado nos temas populares recolhidos por Michel Giacometti. Maria João, por seu lado, vai continuar a cantar pelo mundo fora com músicos de excepção: Aki Takase, Lauren Newton, Marilyn Mazur e Bobo Stensson. Alheias ao tempo e ao lugar, quando finalmente, se sentaram para falar das coisas que bordam a sua música, as horas anteriores já tinham acendido a chama. Entre a descoberta de dificuldades e entregas comuns, afirmaram-se intérpretes rodeadas de excelentes profissionais e defenderam a dignidade da música que lhes sai da alma e das vísceras. Entre a diversidade das suas imagens e personalidades, a felicidade de estar em palco arrebata-as para lá da indústria e dos seus contos imorais. Vozes de corpo inteiro partilhadas com quem as ouve, esquecidas da pequenez de um país provinciano.
No final deste encontro de raparigas, entre a promessa de um jantar e a troca de gravações de temas queridos, Maria João, Teresa Salgueiro e Filipa Pais tinham afirmado com emoção a intenção de abrir caminhos. É isso que anima os seus cantos. Soltos, instintivos, cristalinos e interiores. Porque de cantoras e mulheres de alma à superfície.

Maria João, Teresa Salgueiro e Filipa Pais contaram ao PÚBLICO segredos, riscos e estratagemas. E algumas fraquezas. Falaram de si e dos homens. Do que é ser mulher e cantora em Portugal, um país provinciano, reconheceram, onde “fica tudo uma coisa caseira”. E onde nem tudo é o que parece.
PÚBLICO – Em Portugal, na música popular, há poucas compositoras. O homem compõe e a mulher interpreta?
FILIPA PAIS – A mim, neste momento, apetece-me mais interpretar que mostrar as minhas coisas. Não me sinto ainda pronta para mostrá-las… Os homens se calhar são mais libertos…
MARIA JOÃO – É mais uma questão de pessoas, de sensibilidades. Há mulheres muito brutas e homens muito sensíveis. Eu componho quando estou a cantar. Quando improviso estou no fundo a compor. Agora, pegar num tema desde o princípio da composição, acho um disparate. Como estou rodeada de músicos excepcionais, tudo o que eu possa compor será sempre inferior ao que eles podem fazer e fazem excelentemente. Muitas vezes os temas nem sequer são para mim mas eu agarro neles e “roubo-os”…




TERESA SALGUEIRO – É isso. E talvez venhamos todas a compor nos tempos mais próximos. Era uma coisa que eu gostava de fazer. Não sei é quando…
M. J. – Os meus ídolos são três mulheres que nunca foram compositoras – a Maria Callas, a Maria Teresa de Noronha e a Elis Regina, que são apenas intérpretes.
P. – As instrumentistas também se contam pelos dedos… Uma questão de educação? De comodismo?
F. P. – Penso que é uma questão de educação. Eu vejo agora, que estou no Conservatório, que há imensas raparigas com boas vozes, com vontade, mas que não arriscam, estão sempre à espera de qualquer coisa…
M. J. – A voz é um instrumento como outro qualquer. Eu não toco piano, pois não, mas toco cordas vocais.
F. P. – Leva-se para todo o lado…
T. S. – O pior é que enquanto num piano afinado se toca um “mi” e sai um “mi”, nós, se estivermos cansadas, queremos cantar o “mi” e às vezes sai um “ré” sustenido…
P. – Em Portugal as grandes vozes pertencem a mulheres?
T. S. – Existe uma tradição de música portuguesa cantada por mulheres. Muitos mais do que por homens. Embora haja o caso do Alentejo, dos fadistas de Coimbra…
M. J. – Acho que sim, vozes femininas é que é! [Risos.] Em Portugal há mais boas vozes femininas do que masculinas. Não no conceito que normalmente ouço dizer – “o fulano tem um vozeirão, uma extensão enorme e não sei quê”. Por exemplo, o Carlos do Carmo, que é um excelente cantor, tem uma extensão pequenina, mas diz tudo, está lá tudo…
P. – Haverá da parte da mulher uma identificação mais fácil entre a voz e o corpo? Será a voz o instrumento ideal feminino?
T. S. – Isso acontece em qualquer cantor, penso eu. O que conta é a interpretação que se consegue dar às palavras, aos sons, seja ao que for. A alma com que se entrega ao que está a fazer.
M. J. – Olha, o Marco Paulo tem uma excelente voz…
F. P. – Dentro do estilo é o maior!
M. J. – Um cantor tem que ser como um atleta, tem que estar preparado. É o corpo todo que nós usamos como se fosse um instrumento.

Aquecimentos

P. – Vocês desde que chegaram ao jornal não pararam de cantar, como se fosse a coisa mais natural do mundo. É difícil imaginar cantores homens a fazerem o mesmo…
F. P. – Talvez nos envolvamos mais…




M. J. – Uma vez perguntei a Lauren Newton (com quem ando a trabalhar) como é que ela aquecia a voz. Ela procede de maneira diferente da habitual. Já a Jay Calyton faz o aquecimento de uma forma tradicional. Depois quis saber como é que faz o Bobby McFerrin. A Lauren respondeu-me: Ele não aquece, está sempre a cantar, o dia todo!” E é o gajo que faz aquelas acrobacias todas… Está sempre quente!
T. S. – Embora o masculino e o feminino tenham diferentes sensibilidades.
P. – As mulheres entregam-se mais? Há maior interiorização no canto?
M. J. – Se calhar nós temos mais cuidado com o instrumento… Ou será porque somos umas tagarelas? [Risos]. Porque gostamos de abrir a boca e dizer coisas?

Pernas Ao Léu E Os Manéis De Bigode

P. – Em palco vocês são cantoras mas também mulheres. Será possível existir uma Madonna à portuguesa?
M. J. – Eu acho a Madonna altamente, uma excelente profissional, curto imenso o que ela anda a fazer.
F. P. – Ninguém a critica, ela dá a volta…
P. – Não responderam à questão…
T. S. – A Madonna é mesmo Estados Unidos.
M. J. – É, os Estados Unidos funcionam muito nessa base, do produto, da encenação, do que se vê e do que se diz.
P. – Mas ela liga de forma explícita a sexualidade e a voz. É possível fazer o mesmo em Portugal?
M. J. – Mas cá há cantoras que também fazem isso. Normalmente cantoras mais ligadas à área do nacional-cançonetismo que andam sempre impecavelmente de perna ao léu, maminhas bem feitinhas, todas a mostrarem-se… É a tal componente sexual. A Cândida Branca-Flor, a Alexandra… Se repararmos bem, elas têm um cuidado extremo com o que vestem, como se apresentam, mini-saias não sei quê. Muito mais do que nós.
T. S. – Eu nunca seria capaz de cantar de mini-saia.
P. – De vocês as três, a Maria João parece ser quem mais assume essa componente…
F. P. – Perfeitamente! Tu és m ais liberta.
M. J. – Eu? Eu? [Risos]. Às vezes não é nada bonito de se ver – faço caretas…
F. P. – Mas isso é que é bonito.
M. J. – Muitas vezes a gente vê na televisão o malfadado “playback”, e as pessoas depois notam. O leigo, que está em casa, diz: “Ah, aquela está tão bonita, tão agradável de se ver!” Depois vem um concerto ao vivo e é terrível, a pessoa torce-se, tem as veias salientes…
T. S. – Quando canto determinadas coisas sinto-me diferente, mais “sexy”, mais triste, mais contida, mais atrevida, conforme a música.
P. – … A Teresa tem uma imagem discreta, mais sóbria…
T. S. – Mais quietinha!… Mas tem a ver com o tipo de música e com a personalidade.
M. J. – Mas aquilo que eu faço não é de propósito. Estou lá e é assim que sai. Sinto uma felicidade tão grande por estar em palco…
P. – Quando estão em palco, têm consciência dos olhares que recaem sobre vocês? Dos olhares masculinos, por exemplo?
M. J. – Masculinos e femininos, atenção! Mas eu nunca olho para o público. Imagina que estás a cantar uma coisa incrível e olhas para um Manuel à tua frente que se está a assoar… [Risos]
F. P. – Eu prefiro nem olhar para um Manuel de bigode! [Risos.]
T. S. – Não estou a pensar se aquele está a olhar para mim, a reparar na minha cintura… Mas penso se são homens ou mulheres que me estão a ver.
F. P. – É uma massa enorme e assustadora…
M. J. – … Que nos dá uma pressão e uma felicidade imensas!
F. P. – Eu estou ali no meio daqueles quatro irmãos Salomé, dos Lua Extravagante, de bigode (risos). São uns companheiros fantásticos e meus amigos. Mas é evidente que sinto qualquer coisa quando entro em palco.
M. J. – No vosso espectáculo da Aula Magna levaram bastantes assobios (risos).
F. P. – Eu ouvi.

Contos Imorais

P. – Quem as ouvir falar, assim amigas diria que não existe qualquer rivalidade entre quem trabalha neste ramo. É mesmo assim, não há competição?
T. S. – Cada vez mais as pessoas se querem juntar para aprender umas com as outras.
M. J. – É saudável. Não há competição, é na boa. Fulana está a cantar e pensa “Não sou ninguém se não cantar como ela canta.” Mas rivalidade, rivalidade, acho que não existe.
P. – Dentro da indústria, quais são os vícios e virtudes?
F. P. – Virtudes, a existência de bons compositores e grandes ideias. E estão a criar-se condições para que as pessoas possam trabalhar cada vez melhor.
M. J. – Vícios, de venda e de mercado. Acho que a indústria está viciada em certos padrões de comprar, vender e promover, o que acaba por condicionar os músicos e os cantores. Embora no meu caso as coisas sempre tenham sido mais fáceis, justamente por ser mulher.
F. P. – Às vezes é complicado, porque… não sei se quero dizer isto…
M. J, T. S. e PÚBLICO – Diz lá!
F. P. – Às vezes há coisas que acontecem mais facilmente se…
P. – Como? Propostas, digamos, de índole não propriamente artística?
F. P. – Por exemplo. Há coisas que parecem tomar um caminho porreiro até certa altura, a amizade e não sei que mais, até que chega um momento em que afinal é mais qualquer coisa. Se tu dizes que não, deixam-te cair.
M. J. – Nesses casos também não interessa. Se alguém te quer usar para fazer não sei quê, esse alguém também não te vai servir para mais nada.
P. – Não chegando a casos tão extremos, poderá dar-se o caso de a indústria pensar em primeiro lugar numa imagem apelativa que possa vender – e menos na música?
F. P. – Evidentemente que pensam logo nisso.
T. S. – A mim não me passa pela cabeça.
M. J. – Ai é, pensam não sei quê? Fixe! Vou aproveitar-me disso. Se alguém acha que me pode vender porque sou mulher, por uma imagem, não me vai pôr as mãos em cima de certeza absoluta, se eu não quiser. Então vou aproveitar-me dessa ingenuidade para poder fazer as minhas coisas. Se uma pessoa olha para nós e diz: “Vou comer esta querida” (risos), eu só tenho é que lhe dar a volta. Se, por exemplo, um produtor me disser: “Vou promover esta mas quero algo em troca”, eu, na troca, não lhe vou dar coisa nenhuma. Se calhar não devia estar a dizer isto.
F. P. – Acho que é uma questão de tacto. Se apostarem em mim, não vou dar nada em troca que não seja o meu trabalho. As coisas depois avançam ou não.

Primeiro Passa-se A Roupa A Ferro

P. – Em Portugal assiste-se presentemente ao fenómeno da reciclagem musical – pessoas que já andam nisto há muito e se juntam para formar novos agrupamentos. É possível acontecer um equivalente feminino?
M. J. – Era bom as pessoas juntarem-se. Lá vou eu ter que falar nos Resistência, dos quais não gosto nada. Penso que é uma forma inteligente de sobrevivência, de sobrevivência a um alto nível, pois aquilo vende imenso. Mas há outras hipóteses das pessoas se juntarem. Por exemplo, aquilo que nós fizemos [espectáculo de Maria João com Lena d’Água, Xana, Teresa Salgueiro e Anabela Duarte realizado em Novembro de 1991, no Teatro São Luiz, integrado nos Festivais de Lisboa]. Foi diferente – um encontro por prazer.
F. P. – Há um projecto meu com a Teresa, mas não quero falar antes de as coisas acontecerem.
P. – Conseguem conciliar a vossa carreira, cheia de “timings” e digressões, com a vida familiar?
M. J. – Tenho uma criancinha, um rapaz quase com três anos, e é muito difícil para mim estar longe dele. E ele começa também a sentir a minha falta. Passada uma semana fora fico doente de tristeza, começo a embirrar com toda a gente, sou mal educada, chego mais atrasada que o costume…
T. S. – Atrasada? Tu também?…
M. J. – Uuii!…
T. S. – Ah, que alívio…
F. P. – Eu estou a melhorar.




M. J. – Mas a gente não chega atrasada por falta de respeito. Eles [os músicos] quando chegam tarde é porque ficaram sentados na cama a ver televisão (risos). Sei que é assim porque tive essa experiência na minha última “tournée”. Eles, coitados, já estão mais que escaldados com os meus atrasos, de maneira que eu chegava a horas, num esforço sobrehumano, e acabava por ficar à espera que eles viessem. E eles, naquela: “Ela deve estar atrasada.”
P. – O atraso sistemático é o arquétipo feminino desconhecido?…
M. J. – Nós temos mais coisas para fazer do que os homens. Os homens fazem a barba, tomam banho já está. Nós tomamos o banhinho, secamos o cabelo, que é comprido, pintamos os olhos, estamos quase a sair e pensamos: “Será que estamos bem, será que vou vestir isto ou não vou”…
F. P. – A mim o que me acontece é que arranjo sempre qualquer coisa – não gosto de sair de casa e deixar a cama por fazer. O homem está-se nas tintas.
M. J. – Eles chegam aos concertos, fazem o ensaio de som, depois vão para o quarto, vestem-se em cinco minutos e estão prontos. Enquanto nós, eu pelo menos, deixamos a roupa na cama, dobrada e passada a ferro com um ferrinho minúsculo, o que dá umas dores nas costas atrozes, numa posição não de todo ideal para quem vai cantar a seguir. Depois, lavar a cabeça, as pinturas… É um “stress” enorme (risos).
F. P. – Eu começo sempre a preparar-me umas duas horas antes…
T. S. – Também eu.
M. J. – Nem tenho tempo para comer.
F. P. – Normalmente eles vão jantar enquanto eu me vou pintar. Até porque cantar com a barriga cheia… Eles também não gostam.
M. J. – As pessoas pensam que os cantores, os músicos, levam uma vida altamente, vão curtir, vão ver o país – “rica vida, rica vida!”
F. P. – Mas é deitar cedo e cedo erguer!

As Luzes

P. – Afinal sempre dão uma importância decisiva à imagem…
T. S. – Evidentemente. Arranjo-me e pinto-me para me sentir bem.
F. P. – Nos tempos que correm, a imagem é cada vez mais importante. Por altura do 25 de Abril, em 74, lembro-me que as pessoas cantavam como se fosse uma luta. Hoje isso está um bocado morto. As pessoas agora querem é luzes, grande espectáculo.
M. J. – Num concerto estamos em frente das pessoas e temos que nos sentir bem connosco próprios.
T. S. – É uma espécie de máscara que resulta para eu estar à vontade em frente a uma multidão que está a olhar para mim, e que não possa dizer mal dos sapatos ou achar o penteado esquisito…
P. – Nesse aspecto, as cantoras portuguesas também não primam pela ousadia…
F. P. – Não concordo. A Xana, por exemplo, não tem uma imagem clássica.
M. J. – A Anabela Duarte é bastante extravagante.
P. – O negócio, e não só, da música em Portugal poderia comportar excessos do tipo dos cometidos por Sinead O’Connor?
F. P. – Se for uma coisa que faça sentido…
M. J. – O que é isso de excesso?
P. – No sentido de provocação. Lá fora há uma mediatização e assimilação por parte da indústria. Mas num país de brandos costumes como é o nosso?…
M. J. – Se aparecesse cá uma mulher assim, na província chacinavam-na! Quanto à indústria, é Lisboa e Porto e pouco mais.
P. – Somos um país de provincianos?
F. P., M. J. e T. S. – (em coro) – Acho que sim!
M. J. – Somos um país pequeno, conhecemo-nos todos uns aos outros. Conhecemos os críticos, eles conhecem mais não sei quem, fica tudo uma coisa caseira.

Lua Extravagante / Vitorino – “O Lado Oculto Da Lua” (entrevista)

Pop-Rock Quarta-Feira, 18.09.1991


O LADO OCULTO DA LUA

Lua Extravagante é a designação bizarra do grupo formado pelos irmãos Vitorino, Janita e Carlos Salomé que, juntamente com a cantora Filipa Pais – “A mulher canta como os anjos”, diz Vitorino -, se propõe cantar o lado mais romântico e melancólico da alma portuguesa, sem descurar, porém, as fundações da terra por baixo da cidade. Histórias da “Nau Catrineta”, da Margarida do Monte “que foi amante do rei D. João V”, ou de um “Adeus à serra da Lapa”, em homenagem ao mestre José Afonso. Histórias da noite e de boémia. Do lado oculto da Lua. O disco sai a 22 de Outubro. O PÚBLICO falou com Vitorino, à procura de luz.



PÚBLICO – Há quanto tempo existe o projecto Lua Extravagante?
VITORINO – Há quase um ano. A Valentim de Carvalho viu o nosso projecto e propôs-nos gravar um disco. Nem sequer estava nos nossos horizontes gravar. O grupo tem um sentido associativo. O disco dá-lhe consistência, mas suponho que será o único que vamos gravar.
P. – Porquê, logo à partida, essa recusa em dar sequência discográfica ao projecto?
R. – Temos todos os nossos projectos pessoais, muito fortes. Gravar um disco e manter ao mesmo tempo o projecto do grupo torna-se muito obsessivo.
P. – Quais são então os seus futuros projectos a solo?
R. – Estou a preparar um álbum duplo, com textos (isto é uma informação inédita) do António Lobo Antunes e música minha. O disco vai ser lançado no final do próximo ano, na mesma altura que o seu novo romance. É uma espécie de “joint-venture” literatura-música, baseada numa colectânea de 19 textos escritos pelo António, alguns muito jocosos, sobre a realidade portuguesa.
P. – Que público pretende atingir a Lua Extravagante?
R. – Vamos procurar alargar o nosso público. Há neste disco uma linguagem que considero moderna, na interpretação e evocação do romantismo português. Temos uma tradição harmónica e melódica forte em Portugal, que nos anos 80 foi desprezada em benfício daquilo a que se chama o “rock português”, em que a prioridade foi dada ao ritmo. Gerlamente, os cantores dos grupos rock não são grandes cantores, são mais “performers”, com um tipo de intervenção mais expectacular, encostado às formas anglo-americanas de fazer espectáculo. Quanto a nós, vamos tentar chamar a atenção para uma tradição mais recuada, expressa no “cante”. Quando falo de romantismo, refiro-me ao romantismo literário e à música romântica, não ao sentido “kitsch” do termo. Esse eleogio do canto e da voz faz parte do romantismo português. Cantava-se muito bem em Portugal.
P. – Canto esse cujas raízes se encontram decerto no canto alentejano…
R. – A nossa aprendizagem fez-se a partir dele. No disco há quase sempre uma voz solista, apoiada pelas outras. A relação com o canto alentejano é sobretudo em termos técnicos e de imaginário. De resto já estamos arredados da música rural. Metade da nossa vida já foi passada nas cidades, afastando-nos culturalmente das nossas origens.
P. – Como explica o interesse crescente do auditor pelas músicas ditas tradicionais.
R. – A “world music”, não é? Acho que estivemos muito afastados do nosso imaginário durante 10 anos. Talvez o interesse que refere não passe de um fenómeno cíclico. Ou talvez haja um cansaço com a música anglo-americana que se ouve em Portugal, que é muito monótona. No meu caso, gosto muito da música negra das Américas, do Norte e do Sul. A grande matriz da música americana está nas músicas de origem negra. Não sei se não sofremos por cá um massacre da chamada ´música de supermercado ou de elevador… Esse massacre, perpetrado pelos “media”, é uma maneira de fazer opinião pública.
P. – Que influência teve o rock ou a pop na sua música?
R. – Gosto muito de rock ‘n’ rol. Passei a minha adolescência com o Elvis Presley, Bill Haley and the Comets… Formei-me com o sentido social que tinha o rock ‘n’ rol e que agora está completamente distorcido e aviltado. O rock ‘n’ rol era contestatário, os americanos chamavam-lhe “música de pretos”. Era um contrapoder. Aquilo a que se chama hoje rock não tem nada que ver com essa atitude. Hoje, em termos gerais, o rock é betinho, do lado do poder. Suponho que a vertente pop, sobretudo inglesa – sou um grande admirador dos Beatles, do seu lado melódico -, aparece, por exemplo, num tema que dediquei especialmente aos Beatles, “Flor de Jacarandá”. No nosso disco há uma canção que lembra um bocado os Mamas and Papas.



P. – Pela amostra musical, o projecto Lua Extravagante funciona como um negativo, ou contraponto, de grupos como os Sétima Legião ou Madredeus. Há um lado negro, de luto…
R. – Mas o interior português é um interior de luto. Tudo o que tem um balanço do coração é triste. Claro que há um ritmo que evoca um pouco esse balanço. É uma forma de cantar do Sul, mediterrânica e peninsular.
P. – No seu caso, prevalece a faceta revivalista, de romântico “fin de siècle”…
R. – Sim, há uma evocação desse ambiente. Foi um tempo muito importante para a humanidade, com o nascer de ideias novas, e depois eu tenho uma grande admiração pelos anarquistas, pela carbonária portuguesa, que deixou muitas ideias. As bandas formadas no fim do século passado, princípio deste, ou as recreativas culturais são um trabalho cultural dos anarco-sindicalistas. Era um tempo de grande felicidade.
P. – Fala em anarquismo, mas grava para uma multinacional. Parece que os ideais se tornaram apenas uma evocação nostálgica…
R. – Os ideais culturais permanecem. Estou a lembrar-me de uma recreativa cultural aqui na Madragoa, o Clube dos Vendedores de Jornais, fundado em 1921. Ainda existe como recreativa, na Rua das Trinas. São coisas que permanecem sempre.
P. – Resta então, ao artista, o papel de observador que está de fora?
R. – Vivo de fora porque a minha realidade passou a ser outra, uma realidade sinistra, a da guerra do Golfo. Realidade essa transmitida nalguma boa música moderna. O pós-modernismo gerou grandes confusões e equívocos. Em Tom Waits, por exemplo, há ainda a elegia de uma certa boémia… Mesmo que, a partir dos 40 anos, seja preciso um pouco de “desporto líquido”…
P. – Que pensa da viabilidade ou não de projectos como a UPAV?
R. – Conheço muito bem o José Mário Branco, já trabalhei com ele, mas tenho uma opinião contrária à dele em relação à divulgação da música. Temos de ter os pés bem assentes no chão. O capitalismo em Portugal é uma realidade, entrámos no Mercado Comum e as leis do mercado são implacáveis. Eu vendo discos e continuarei a gravá-los só enquanto eles venderem. Só assim é possível ter força em termos de opinião pública. É dentro deste mercado selvagem que temos de lutar, resguardando embora sempre a nossa “petite force”.
P. – Não o procupa que a integridade do artista seja prejudicada por essa necessidade de vender?
R. – Não é preciso abdicar dos nossos princípios para fazer produtos de boa qualidade. Mas chegar em boas condições às pessoas só se consegue através do “marketing” e este é implacável. No que nos diz respeito, a nossa imagem nem sequer é muito vendável.
P. – O negro faz parte da sua imagem, até na maneira como se veste…
R. – Vestido de negro, confundo-me mais com a sombra, com o escuro. Isto tem que ver com o Sul, com o interior português. Curiosamente, nas zonas onde há muito sol, há o culto do negro. No Sul da Itália, na Grécia…
P. – Negro somente iluminado pela luz da Lua. A Lua Extravagante cantará esse lado lunar, oceânico, da alma lusitana?
R. – A alma lusa, sim. A Lua, no imaginário popular, é mais importante que o Sol. Repare nos símbolos que punham nos bébés, para dar sorte: uma estrela, um corno, uma Lua e uma mão fechada. Há sempre a presença da Lua.
P. – Que extravagância da Lua é essa que referem?
R. – Há uma moda alentejana, “Chamaste-me extravagante”: “Cahamaste-me extravagante / por eu ter uma noitada / eu sou um rapaz brilhante / recolho de madrugada.” O termo “extravagante”, no Alentejo, refere-se a uma pessoa estranha ao quotidiano, com um convívio diferente do normal, ao homem que canta a noite.

Filipa Pais – “A Porta Do Mundo”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
28 Março 2003


FILIPA PAIS
A Porta Do Mundo
Ed. e distri. Vachier & Associados
7|10



Pertence a uma geração intermédia da música popular portuguesa que assimilou José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Fausto e Vitorino mas que nem sempre soube encontrar o lugar certo de resistência à voragem do tempo. “A Porta do Mundo” poderá facultar-lhe a chave que falta para lhe abrir as portas do sucesso. Depois de um par de temas com algo de Mafalda Veiga enfiado nas notas, “A Porta do Mundo” provoca o primeiro sobressalto com o tradicional “Não se me dá que vindimem”. A partir daqui é impossível escapar ao fascínio. Sente-se uma nostalgia indefinível nesta música que junta a solenidade da música de câmara com a pureza da música tradicional, como numa “Estrada do Sul” onde o Alentejo se ilumina banhado por uma outra lua extravagante. “Zacaria”, com assinatura de João Paulo Esteves da Silva, junta o tipo de expressividade de Amélia Muge com uma toada medieval. Duas grandes e tristes canções, “A porta do mundo” e “Quem sonha quem”, antecedem um pacote de “50.000 caixas de charutos”, de Ricardo Dias (brilhante no acordeão) a provar que a voz de Filipa Pais pode ir tão longe quanto quiser. A seguir a um tema de Vitorino e a uma “Cantiga de amigo” com a varinha mágica de José Afonso, “Em todas as ruas te encontro” oferece, a fechar, a auspiciosa estreia de Filipa como compositora. “Este é o meu lugar. Vou ficar”, canta ela em “E se”. “A Porta do Mundo” parece dar-lhe razão.