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Billy Joel – “Billy Espertalhão” (televisão)

PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 9 AGOSTO 1990 >> Local

RTP


Billy espertalhão

O ENORME sucesso alcançado por Billy Joel em terras americanas prova até que ponto o mau gosto e a pirosice são apreciados na grande e gorda nação. O “artista” em questão consegue aliar letras de teor literário equivalente às fotonovelas “Capricho”, a uma música que se estica toda sem conseguir no entanto chegar aos calcanhares de Elton John. Se tivermos em conta que o dito Elton se encontra, em questões de qualidade musical, ao nível da subcave ou talvez mais abaixo, estamos conversados quanto ao lugar que Joel ocupa na hierarquia. Os americanos, contudo, não se deixam enganar por estes preciosismos de índole intelectual e, por isso mesmo, perniciosos. Engolem deliciados a “mensagem” de Billy, como engolem a querida Coca-Cola, como engolem afinal tudo. Criancinhas endinheiradas que correram a comprar “The Stranger”, “52nd Street”, “Glass Houses”, “An Innocent Man”, enchendo os bolsos a um espertalhão, entre muitos outros, que sabe tirar partido das infinitas possibilidades oferecidas pela “Big Apple”.
Canal 1, às 14h40

David Bowie – “Música Para Camaleões” (televisão)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 3 AGOSTO 1990 >> Local

RTP


Música para camaleões



DAVID ROBERT JONES, aliás, David Bowie, muda de personalidade como quem muda de roupa. Ziggy Stardust é a máscara mais conhecida mas devemos procurar na própria música os genes das constantes metamorfoses. Salta com a agilidade que só a distanciação permite do “glam” para a “soul”, do “rock” para as experimentações eletrónicas mais radicais. É alienígena, o homem que veio do espaço. Só “major Tom” lhe faz frente quando, indefeso, retira a maquilhagem, frente ao espelho. Adolescente, vindo das estrelas armado de guitarra elétrica, toca num bar em Marte. Inquilino da loucura. Palhaço a chorar na praia, na noite americana. Os astros são assim, mudam constantemente, não sofrem, do alto do Olimpo. De vez em quando, raramente, vem a notícia nos jornais: “Rock ‘n’ roll Suicide”. São loucos, os artistas – comentam aliviados os medianos – e correm a comprar o disco póstumo acabado de editar.
Com David Bowie é assim, tudo a fingir – camuflagem. A visão do conjunto é possível somente através da fotografia aérea.
A atração pela loucura ganhou-a do irmão Terry, a quem dedicou “All the Madmen”. “Bewlay Brothers”, ele o são, “Alladin Sane”, budista, de rosto raiado e corpo sem sexo. Ao outro deixem-lhe os Valium e o recetor de TV. Mas podem trocar-se os papéis, como ele gosta, e partir para o azul escuro, depois negro, das profundezas do céu. Contagem decrescente e lá vai o major para nunca mais voltar. “Space Oddity”, dele e de Kubrick.
O duplo da carne e osso das imagens vendeu o mundo, disfarçado de mulher, vestida de noite, recostada no sofá, dama proibida na capa que teve de mudar. “Hunky Dory”, andrógino ainda, em dedicatórias surreais a Dylan, Warhol, Velvets, “Oh you Pretty Thing”, estavas demasiado à frente para te conseguirem ver de frente, apenas seguiam o teu rasto. De poeira de estrelas, “stardust”, “Starman”, sempre as estrelas e tu Ziggy sempre a olhares para o seu brilho refletido nas latejoulas do fato com que iludes as multidões. Enganaste-os a todos, até D. A. Pennebaker que pensou que era tudo a sério e fez um filme do espetáculo onde já não participavas. “Ziggy Stardust – The Motion Picture” soa a Hollywood, parece condizer, mas em ti nada condiz com o que parece. Deixemo-lo cantar “Jean (Genet) Genie” e imitar os seus iguais nas versões de “Pin Ups”: Who, Yardbirds, Pink Floyd, com Angie imitando o anjo, na pose da capa.
O cinema sim, sempre, mas também a literatura. “1984”, de Orwell. Bowie antiutópico, violento, “Rebel Rebel”, corpo de cão maldito, “Diamond Dogs” raivosos, exigindo carne fresca e eles, os fãs, obedecem e dão-se em sacrifício, em troca do prazer. Fingiu tornar-se jovem e humano, com a alma que os americanos gostam, em plástico. “Young Americans”, “Plastic Soul”, finalmente a “Fame”, com ajuda de John Lennon. “Golden Years”, tempo para regressar à terra pela mão de Nicolas Roeg.
Diz-se que quando chegou a Londres, à estação Vitória, saudou como os nazis. Ele negou e partiu para outras estações, “Station to Station” até Berlim. Esperavam-no Robert Fripp e Brian Eno. Mutante cibernético, converteu-se à fidelidade matemática da máquina, tornando-se ele próprio mecanismo na trilogia do demonismo sintético: “Low”, “Heroes” e “Lodger”, tratado na arte da despersonalização. Assassino da alma, “yassassin” da emoção piegas do mundo pequeno, super-homem de olhar azul gelado de vidro que ganhou o brilho da pantera em “Cat People” de Paul Schrader. Fera devoradora, Bowie trabalha, toca e canta com Pat Metheny, Giorgio Moroder, Lou Reed, Tina Turner, Bing Crosby. Torna-se “gigolo”, soldado inglês de quem o oficial japonês gosta e homem-elefante, como os monstros de “Scary Monsters, Super Creeps”, o mais terrível de todos é “Baal” de Bertolt Brecht. Mas também figura real entre os bonecos de “Labyrinth”. Dança na rua com Mick Jagger como um “Absolute Beginner”. E quando o rodopio acaba, pega no braço da rapariga e diz-lhe simplesmente: “Let’s Dance”, de preferência “Tonight”.
Canal 1, às 14h50

Rolling Stones – “Avô, Conta-me A História Dos Stones!” (televisão)

PÚBLICO DOMINGO, 29 JULHO 1990 >> Local

RTP


Avô, conta-me a história dos Stones!

NUNCA MAIS se vai embora, a maior banda de rock ‘n’ roll do universo. O que é que eles se julgam, que são eternos? Que a paciência não tem limites? O pior é que os mais novos só agora lhes apanharam o nome e toca de comprar os discos como se fossem novidade. Deste modo, o ciclo renova-se constantemente e os Rolling Stones têm o resto do futuro garantido. Mick Jagger, Keith Richards, Bill Wyman, Charlie Watts e Ron Wood são hoje respeitáveis avozinhos, entretidos a fingir subversões e a montar espetáculos de feira, para gáudio das multidões. Gravam um álbum de cinco em cinco anos e vivem dos rendimentos, administrando sabiamente o mito e a imagem cuidadosamente encenados. Tanto lhes faz passar por psicadélicos como por praticantes de um “funky” descomplexado. “She’s a Rainbow”, “Emotional Rescue”, qual a diferença? São tolerados como uma instituição representativa dos antigos valores de uma geração hoje convertida a ideais menos desprendidos que os de há três décadas. Só Brian Jones soube manter-se-lhes fiel, por força de uma morte precoce. O programa de hoje conta a história toda.

Canal 1, às 17h30