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António Menano – “Fados”

pop rock >> quarta-feira, 27.09.1995


Rouxinol De Coimbra

António Menano
Fados
ODEON / EMI-VC



Nunca o fado atraiu sobre si tantas atenções, em termos de projecção mediática e comercial, como no último par de anos. Ao aparecimento de jovens revelações junta-se a consolidação dos consagrados, num fenómeno de recrudescimento do interesse por este género musical que, em paralelo, tem sido acompanhado pela reedição no formato digital de registos da pré-história, de Amália ao fado de Coimbra, passando por antologias várias, arrancados ao baú do tempo e postos diante da opinião pública.
Desta feita a EMI – das editoras mais activas neste trabalho de sapa – foi buscar velhas gravações em 78 rotações de António Menano, um dos mitos do fado de Coimbra. Menano, nascido em 1895 em Fornos de Algodres, na serra da Estrela, era, segundo rezam as crónicas, além de boémio inveterado, senhor de uma voz de tenor que na “Coimbra dos doutores” dos anos 50 fez “calar os rouxinóis” e, em Lisboa, atraiu a “recintos de grande lotação, como o Coliseu e o Jardim Zoológico”, multidões ansiosas por o ouvir.
Considerado o sucessor do lendário Hylário (espécie de correspondente masculino da Severa lisboeta), presença emblemática nos saraus e no Orfeão Académico de Coimbra, António Menano é autor, em 1915, da edição musical “Os três mais Lindos Fados de Coimbra”, publicada pela Livraria Neves e reeditada quatro anos mais tarde, num período em que o Estado pedia aos estudantes para não cantarem o “venenoso cogumelo do fado, produto originário da viela urbana”.
Já nos anos 20 sai uma colecção de edições musicais do “Reportório do Orfeon da Universidade”, com cinco fados da sua autoria, dois dos quais incluídos na presente antologia, “Fado patriótico” e 2Fado do Choupal”. Em 1927 e 1928, doutorado, fez em Lisboa e em várias cidades da Europa uma série de registos conhecidos pelas cores das etiquetas: lilás, azul escuro, dourado e – mais raras – vermelho. Estas gravações foram mais tarde passadas pela primeira vez para disco no Brasil pela Transamerica Trading Company, já com o selo Odeon. Em 1933 António Menano abandona a sua carreira artística, partindo para Moçambique onde exerceu clínica durante 30 anos, quase até ao ano da sua morte, em 1969.
Para a história ficaram os seus fados com sabor a eternidade, os seus famosos “pianíssimos”, os silêncios e as memórias de uma Coimbra que teima em não se deixar morrer. E o “Fado Hilário”, que a sua voz imortalizou, no fecho destes “Fados” restaurados na medida do possível por processos digitais. Um – mais um – documento imprescindível. (8)