Arquivo da Categoria: Progressivo

Lars Hollmer – “Looping Home Orchestra, Live 1992-1993”

Pop Rock

1 de Fevereiro de 1995
álbuns poprock

Lars Hollmer
Looping Home Orchestra, Live 1992-1993

VICTO, IMPORT. ÁUDEO

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Lars Hollmer é um teclista e acordeonista sueco que fez parte dos lendários Sammla Mannas Mama – membros da organização Rock in Oposition –, formados no final dos anos 70 por Fred Frith e Chris Cutler, para depois enveredar por uma carreira discográfica a solo brilhante, da qual se encontravam até agora disponíveis, entre nós, a colectânea “The Siberian Circus” e a reunião, em CD simples, de “XII Sibiriska Cyklar”, de 1981, e “Vill du Hora Mer”, de 1982, ambas reedições da Resource. Hollmer insere-se na genealogia dos grandes criadores totalitários, sintetistas absolutos que procuraram (e encontraram) a confluência de todas as músicas do universo. Uma genealogia que se iniciou nos anos 60 com Frank Zappa, prosseguiu na década seguinte com os Faust e os Henry Cow, e culminou nos Oitenta com os Univers Zero e Art Zoyd. O sueco tem ainda a vantagem adicional de ser um espantoso inventor de melodias, inspiradas ou não no folclore do seu país. Segunda gravação com a Looping Home Orchestra, depois de “Tӧnoga”, de 1985, este novo registo recolhe gravações ao vivo no célebre Festival Musique Actuelle, que anualmente se realiza em Victoriaville, no Canadá (daí o nome da editora: Victo) e ainda em vários outros festivais na Alemanha e na Suécia. A execução instrumental do colectivo – além de Hollmer, mais quatro suecos, Jean Derome (juntamente com Robert LePage, um dos grandes saxofonistas da nova música do Canadá) e Fred Frith – é simplesmente inacreditável, na forma exemplar como elaboram uma música complexa que por nenhum instante se deixa cair no tom de “desbunda” que, por vezes, assoma em registos ao vivo. Uma música com as dimensões dramáticas ao nível de Robert Wyatt, de “Rock Bottom”, o experimentalismo “dada” dos Henry Cow e a espacialidade cinematográfica de Ennio Morricone. Orquestrações extraplanetárias e improvisações ultraestruturadas, metamorfoseiam-se na fala de um piano em estado de exaltação psicotrópica. Fanfarras de circo derivam para canções infantis, motivos minimalistas explodem bruscamente num fogo de artifício de sopros com a urgência de um “free rock” sem fronteiras. A inventividade é constante. Cada segundo, cada nota contém em si os germes de mil outras músicas imagináveis. Há aqui a dor de gestação de planetas e a alegria de uma criança que brinca. Música que vive e respira, com sangue a pulsar-lhe nas veias. Ao disco chamemos-lhe obra-prima. (10)

Hans-Joachim Roedelius – “Theater Works”

Pop Rock

1 de Fevereiro de 1995
álbuns poprock

Hans-Joachim Roedelius
Theater Works

MULTIMOOD, IMPORT. ANANANA

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Roedelius, juntamente com Dieter Moebius, formou no início dos anos 70 um dos grupos mais importantes e menosprezados da escola electrónica alemã, os Cluster. Afastados tanto da vertente cósmica, que se viria a revelar dominante (T. Dream, Schulze, Wegmuller, Ashra, Eroc, etc.), como das antecipações tecno dos Kraftwerk (mas também dos La Dusseldorf), do orientalismo místico (Popol Vuh, Yatha Sidhra, Mythos), do romantismo (Hoelderlin, Parzival) ou do psicadelismo libertário (Amon Düül, Agitation Free), já não falando dos subprodutos “sinfónicos” (Message, Wallenstein) ou do jazz minimal dos Release Music Orchestra ou Achim Reichel, os Cluster anteciparam em quase vinte anos o som “industrial” (nos álbuns I e II) do final de década de 80, antes do encontro com Brian Eno os levar para o território do romantismo ambiental, encontro esse de onde resultaram os álbuns “Cluster & Eno” e “After the Heat”. A dissolução do grupo e as consequentes carreiras a solo de cada um permitiram perceber que Dieter Moebius era o experimentalista e o radical do grupo, enquanto Roedelius rapidamente enveredou por uma música que tanto devia a Eno como a um jazz de feira com uma costela romântica tipicamente germânica. O já extenso percurso discográfico de Roedelius pecou sempre por esta hesitação, visível em álbuns que vão da “new age” não assumida de “Momenti Felicci” a híbridos interessantes como “Der Ohren Spiegel”. Surpreendentemente, porém, este novo trabalho, reunião de temas dispersos compostos para bailado e peças de teatro, consegue a síntese almejada, através de uma música que pela primeira vez investe sem timidez nos ritmos electrónicos e no jazz de facto, como acontece no exercício “free” do saxofonista Herman Ridd, em “The blind”. É também o álbum onde Roedelius, a par da utilização de “samples” de Airto Moreira, Jorge Reyes ou Jorgen Thomasius, reencontra antigos companheiros, de Moebius a Eno, passando por Michael Rother, que em “Captured by letters” e “Long run” reactualiza o som dos Harmonia, fusão episódica dos Cluster com os Neu!, testemunhada nos álbuns “Musik von Harmonia” e “De Luxe”. Indispensável para os amantes da electrónica.

Gryphon – “Gryphon” + “Midnight Mushrumps” + “Red Queen to Gryphon Three” + “Raindance”

POP ROCK
27 de Dezembro de 1996

Álbuns world

JOGO DO GRIFO

GRYPHON
Gryphon (7)
Midnight Mushrumps (9)
Red Queen to Gryphon Three (8)
Raindance (8)

Curious (ed. ingl.)/ Canyon (ed. jap.), import. Loja da Música e Planeta Rock


gry

Para os amantes do progressivo, em particular os que pretendem trocar as velhas rodelas pretas pelo disco prateado, é um acontecimento. Claro, a música dos Gryphon não encaixa propriamente na world, mas, como existem algumas ligações suspeitas, não parece mal.
Em Portugal, os Gryphon receberam alguma divulgação radiofónica através do álbum “Treason”, quinto e último da banda, com selo Harvest.
Foram acrimbados como mais uma variação do eixo Genesis-Gentle Giant. Classificação que, embora injusta, não era totalmente descabida, porque “Treason”, estando fora de questão a sua qualidade, evidencia características que o distinguem do som personalizado que fez dos Gryphon um dos faróis do progressivo tardio, entre 1973 e 1977. Uma fusão de rock progressivo perfeccionista, carregado das usuais toneladas de sintetizadores e teclados, com música e instrumentos antigos, da Idade Média ao Barroco, como a cromorna, o fagote ou a flauta de biesel, este último manuseado pelo “virtuose” Richard Harvey.
“Gryphon”, dos quatro álbuns o mais próximo da folk, inclui tradicionais interpretados de forma surrealista e de acordo com uma leitura teatral, situada, porém, nos antípodas dos Genesis. Na linha da frente, os sopros “antigos” de Brian Gulland – que viria a integrar uma formação tardia dos Malicorne – e histórias recambolescas de bruxas, princesas e trovadores. “Midnight Mushrumps” é um clássico do progressivo. A obra-prima encontra-se na faixa com o mesmo nome, que ocupa a totalidade do primeiro lado, vinilicamente falando. Uma “suite” instrumental de sombras, dourados pôr-de-sol, verdes húmidos e violetas de capelas em ruínas em que os Gryphon exploram o lado mais ambiental da sua música, cruzando de forma subtil a música antiga com uma espécie de folk de câmara. Imagine-se um sonho nocturno na serra de Sintra.
“Red Queen to Gryphon Three” trouxe alguma notoriedade para o grupo em Inglaterra. Ao contrário do que acontece no álbum anterior, a música, totalmente instrumental, explode em força e extroversão. As guitarras eléctricas rivalizam com os teclados, tocados de forma superior por Harvey, e o fagote de Brian Gulland. Harvey é simplesmente magnífico nos solos de flauta de biesel, cujas potencialidades desenvolveria em pleno no seu primeiro álbum a solo, de música barroca, “Divisions on A Ground”. “Second spasm”, uma sucessão de golpes de teatro e idiossincrasias electro-acústicas, lembra os Faust disfarçados de arlequins. As vocalizações regressam em “Raindance”, um cozinhado de feitiços electrofolk confeccionado por mestres. Do “ambiental naturalista”, com sons de chuva e de riachos (uma vez mais Sintra a espreitar), de “Raindance”, à comédia acústica de “Le cambrioleur est dans le mouchoir”, passando por uma versão “chantilly” de “Mother nature’s son”, dos Beatles. Os 16m de “Ein klein (heldenleben)” constituem, por seu lado, uma lição do “progressivo”. Para aprender a ouvir com outros ouvidos os anos 70.