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Joey Beltram – “Aonox” + + Alcove – “Universal Implications” + Nemesis – “Xcelsior”

pop rock >> quarta-feira >> 19.07.1995


Ecologia Das Tecno-Sombras

Joey Beltram
Aonox (7)
ALCOVE
Universal Implications (7)
NEMESIS
Xcelsior (7)
BARRAMUNDI, DISTRI. MEGAMÚSICA



a Barramundi é um novo selo de tecno ambiental. Belga e subsidiária da Play it again Sam. Tem um conceito e uma estética. O conceito pretende ser ecologista, na medida em que preconiza a libertação, a conservação e a higiene da mente. A estética é de rompimento com os cânones do género e a introdução de pistas para o futuro. A apresentação foi feita com a colectânea “Na Introduction to a Cooler World”, de que já existe um segundo volume, “Dreamtime Planet”, e individualizou-se, até à data, em quatro projectos, dos quais apenas deixámos de fora “Vaporetto to Eden”, dos Man-Dello, do teclista dos “electronic body cowboys” Weathermen, precisamente por ser aquele onde são menos visíveis os tais enunciados.
Joey Beltram, um dos pioneiros da tecno, pelo contrário, avançou para lugares inexplorados onde a necessidade de fazer dançar foi deixada completamente para trás. “Aonox” é maquinaria da idade do gelo em funcionamento. Pop industrial limpa de resíduos, clínica e asséptica. Ambientalimso feito com ecos de vidro e de metal, de ressonâncias que cortam como lâminas, de ondulações de mares de mercúrio. Os Alcove são menos evidentes nos seus propósitos, mas sem dúvida mais perversos. Os ritmos metronómicos afogam-se em descontinuidades e trevas aquáticas, como se apagassem de repente todas as luzes do jogo de realidade virtual com que nos entretíamos a esquecer a vida. Há ligações suspeitas com os Aphex Twin e Richard H. Kirk, um ex-Cabaret Voltaire. “Universal Implications” foi construído nos estúdios Amor & Psyché, mas um olhar de relance para o peixe vermelho nadando no verde escuro ou para as imagens de terra queimada da capa chegam para percebermos que, para os Alcove, o Apocalipse, nas metrópoles do pensamento, já começou. Música ambiental para as noites sem luz do fim do mundo. Com os Nemesis situamo-nos em terrenos mais sólidos, embora não menos inovadores. A vertente dançável é reciclada e estruturada em novos moldes por este grupo originário da Finlãndia, que em “Green” e “Birdforest” concretiza num espaço acústico virtual o tal lado mais ecologista e humanista da editora. Mas é a conversão de sequências “tecno”, como “Xcelsior” e “Schwitters” (tal como “Duchamp”, dedicado a uma dadaísta e, nessa condição, apóstolo da transgressão), ou “trance”, caso de “Gegenschein”, aos moldes propostos pelos “cósmicos” dos anos 70, sobretudo os Tangerine Dream e os Pink Floyd até “Meddle”, que fornece o material mais interessante para meditar sobre algumas das direcções que está a tomar a música electrónica deste final de milénio. “Xcelsior” termina apontado para o espaço, precisamente, com uma versão de “Set the controls for the heart of the Sun”, dos Floyd.

VÁRIOS – “The Phenomenology of Ambient, vol. 1: Free Zone”

pop rock >> quarta-feira >> 20.07.1994


Uma Questão De Ambientação

VÁRIOS
The Phenomenology of Ambient, vol. 1: Free Zone (5)
Crammed, distri. Megamúsica



Convém em primeiro lugar separar as águas. “Ambient” converteu-se hoje erradamente, para muitos, em sinónimo de música electrónica mais ou menos suave. Metem-se no mesmo saco Eno, Klaus Schulze e Tangerine Dream, com os Orb, KLF e Future Sound of London. A questão é que o som pode nalguns casos parecer semelhante à superfície, mas as filosofias que subjazem aos diferentes casos são opostas na sua essência.
Em rigor, o único ponto de contacto existente entre estes mundos é a tecnologia. Quanto aos alemães, é fácil pô-los de imediato fora deste barco. Os representantes da chamada “escola planante” partem da ideologia romântica à descoberta do espaço, exterior e interior. A música ambiental propriamente dita, enquanto termo tornado corrente pelas teorizações de Brian Eno elaboradas a partir de “Discreet Music”, procura, por seu lado, harmonizar o indivíduo com o espaço circundante. Integrar numa única música a melodia humana e o ruído circunstancial. Por último, a derivação final da “ambient”, proveniente do esvaziamento rítmico da “house”, procura pelo contrário uma espécie de conforto no vazio (são bem elucidativas, neste aspecto, as considerações que os Future Sound of London tecem a propósito so seu último disco), um paliativo para as ressacas provocadas pela “ecstasy” e pela orgia dançante das discotecas. A música ambiente, ou ambiental, do lado de Eno, procura o real. A “ambient” à saída das pistas de dança e à entrada da individualidade perdida mergulha no virtual. A primeira é atenção, a segunda alienação. A primeira vem de Cage e da Natureza, a segunda da “House” e dos químicos. Uma liga a outra desliga. Uma acorda, a outra adormece. Uma harmoniza, a outra normaliza.
A confusão aumenta quando se editam discos como este, onde, a pretexto de se tratar de uma “Free Zone” sem fronteiras, se juntam as batidas sem coração nem imaginação de técnicos recentes de manipulação sonora de várias nacionalidades, como Solar Quest, Avalon, Orange, Rising Sun Air, Porcupine Tree (os mais interessantes), Bleep, The Arc, Young American Primitive, Deep Space Network e Terre Thaemliz, com retalhos – onde a electrónica está mais presente ou é mais calma – arrancados a ferro de discos antigos do catálogo Made to Measure, na tentativa de desta forma fazer passar por “ambientalistas” nomes como Benjamin Lew, Sussan Deihim com Richard Horowitz, David Cunningham, Hector Zazou e Peter Principle. Até David Byrne (!), cuja música é tão ambiental como um par de dançarinos de lambada, foi enfiado a martelo nesta zona franca, através de um pequeno apontamento orquestral de “The Forest”. Se quiséssemos ser perversos, poderíamos descortinar nesta molhada uma estratégia concertada, fruto de um inconfessável desejo de procurar capitalizar num catálogo, o da MTM, onde, por ser dirigido a minorias, seguramente os números de vendas de discos não devem ser exorbitantes. Agora, se afinal também são “ambientais”, a rapaziada é capaz de pegar neles. Chama-se a isto vender gato por lebre. (5)