Arquivo da Categoria: Electro

Camouflage – “Meanwhile”

Pop-Rock / Quarta-Feira, 19.06.1991


CAMOUFLAGE
Meanwhile
LP / CD, Metronome, distri. Polygram



Na linha dos grupos continentais lançados periodicamente no “circo” à cata de dividendos, os alemães Camouflage surpreendem no bom e no mau sentido. O trio constituído por Marcus Meyn, Oliver Kreyssig e Heiko Maile, chegado ao terceiro álbum (após “Voices & Images” e “Methods of Silence”, ambos bem sucedidos em termos de vendas na Europa e nos Estados Unidos), não consegue libertar-se de uma série de óbvias influências, ao ponto de por vezes se tornar difícil distingui-los dos originais. Mas, e aqui radica o lado positivo da questão, embora destituídos de identidade própria, os Camouflage conseguem surpreender pelo apurado sentido melódico e pela criação, ao longo dos 12 temas que compõem o disco, de ambientes “techno pop” suficientemente sugestivos para uma fruição descomplexada por parte do auditor. Assim, “Mellotron”, “Mother” ou “Handsome” poderiam fazer parte de qualquer disco dos Depeche Mode, sem que se notasse a diferença. “These eyes”, “Waiting”, “Bitter sweet” e “Spellbound” passam facilmente por temas dos Japan, a tal modo a voz se parece com a de David Sylvian. “Heaven (I want you)” não destoaria ao lado de outras canções dos Orchestral Manoeuvres in the Dark. Agora que o Verão se aproxima, não são de desperdiçar futilidades tão agradáveis como esta. ***

Legenda
. Imperdoável
* Mau Mau
** Vá Lá
*** Simpático
**** Aprovado
***** Único

KLF – “Chill-Out” (o melhor disco do ano de 1990)

Pop-Rock 02.01.1991


O DISCO DO ANO



Depois de “Chill Out”, deixa de fazer sentido falar de “nova vaga” ou de simples evolução musical. Se calhar, nem sequer vale a pena falar de “música”. Para já o demónio é quem domina a “nova” idade.

O universo evolui aparentemente em círculos. Na verdade não se trata de círculos, mas de uma infinita espiral a desdobrar-se pela eternidade. Assim, contrariamente às aparências, nada se repete e tudo se transforma. Na música, como em tudo. Em “Chill Out”, dos KLF, cada som evoca a um tempo as imagens do passado e visões de um possível futuro. Da capa, em que figura bucólica paisagem onde pastam pacíficos carneiros, aos acordes espaciais de longínquas guitarras, assoma o espectro dos Pink Floyd (é lícito ver no disco uma “pastiche” irónica a “Atom Heart Mother”) e dos misticismos electrónicos que, nos anos 70, viriam a desembocar na corrente denominada “planante”.
O estilo e o conceito prestam-se a todas as interpretações e mistificações, confundindo por igual aqueles que insistem em ver no disco um indesmentível sinal de retorno ao passado e os que julgam ter encontrado, nos KLF, os profetas do som da “nova idade”. “Chill Out” existe, simplesmente, como objecto de catalogação impossível, buraco negro que aspira a multiplicidade de géneros, esvaziando-os de sentido, ao mesmo tempo que se serve deles como plasticina infinitamente moldável e permeável a todas as perversões. Trata-se, em concreto, de uma longa sucessão de colagens sonoras, em que cabe tudo: a electrónica, sons naturais, pedaços roubados (diz-se “samplados”.) de outros discos, mensagens quase subliminais, o silêncio. A primeira impressão sugere serenidade e promessas de um futuro dourado, como o antecipam os “new age gurus” de longas barbas e cérebros ligados a terminais de computadores, perdidos na contemplação de paraísos que julgam naturais. Depois nasce a suspeita. Como nas primeiras imagens de “Blue Velvet”, passa-se da luz e cores da superfície, para as sombras e monstruosidades ocultas nas traseiras da realidade. Erra quem julga ver na actual vaga da “ambiente house” (torna-se cómodo arrumar o disco nesta categoria) um passo no sentido da pacificação. Não se trata (como a capa e a sonoridade geral parecem sugerir) de um retorno à Natureza, mas, pelo contrário, de uma fuga em direcção desconhecida. Tornada uma acumulação de símbolos destituídos de qualquer significado, a realidade transforma-se numa sucessão de imagens, deslizando à velocidade de um filme. O caminho escolhido pela nova geração não é o da integração, mas antes o da fuga para a frente – do êxtase da dança alimentada a comprimidos, incapaz já de prolongar por mais tempo a alucinação, avançou-se em direcção ao asilêncio -, não o da serenidade finalmente atingida, mas o de quem não tem nada a dizer, por nada haver já que dizer. Do sonho frenético para o sonho da anestesia. Paralisia. Instantâneo fotográfico – em “Chill Out”, a música não avança nem recua, todos os movimentos se autodevoram, culminando um processo de simulação, que acumula farrapos e simulacros de todos os géneros que fizeram a história da música popular, para os reduzir a nada, como se, para além de todo o movimento, estivesse irremediavelmente a absoluta imobilidade, isto é, a morte. Os KLF obrigam a que se comece tudo de novo.

Animal Collective – “Spirit…/Danse…”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
14 Novembro 2003


ANIMAL COLLECTIVE
Spirit…/Danse…
2xCD Fatcat, distri. Ananana
9|10



Avey Tare e Panda Bear viajaram de Baltimore para Nova Iorque para se dedicarem ao malabarismo musical. Inventam melodias em forma de serpente, atiram-nas ao ar, umas vezes apanham-nas, outras deixam-nas cair para ficarem mais deformadas. Depois furam-nas e retorcem-nas até os olhos saltarem das órbitas. Nesta junção de “Spirit they’re Gone/Spirit they’ve Vanished” e “Danse Manatee”, respetivamente em 1999 e 2001, cabem os maiores desvarios. Eles falam em psicadelismo e a voz de Panda, a par de certas estruturas melódicas, sugere, de facto, os Legendary Pink Dots, mas nada nos prepara para a alucinação: eletrónica animalesca, pianos ora clássicos ora em dissonâncias jazzísticas, “easy listening” para psicopatas, “noise” mutante e pop – sempre a pop… – a trocar-nos as voltas. “Danse…”, mais abstrato, tem a densidade da música contemporânea e a originalidade de um futuro ainda por desembrulhar. Tudo o que pode ser experimentado entre uma visão de Syd Barrett e a cacofonia está aqui. O apocalipse da pop.