Arquivo da Categoria: Críticas 2004

Genevieve Waite – Romance Is On The Rise

22.10.2004
Genevieve Waite
Romance Is On The Rise
Chrome, distri. Musicáctiva
6/10

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Numa daquelas selecções periódicas com que os críticos se entretêm a eleger os “melhores de sempre”, mais concretamente nos “200 melhores”, compilados em 1977 num “Rock Critic’s Choice”, o álbum de Genevieve Waite, originalmente editado em 1974, aparece em 98º lugar, numa lista repartida pelos habituais Dylans, Beatles e Stones. Estranho. Sobretudo quando poucos ouviram falar no nome de Genevieve Waite. Pois bem, a nossa Genoveva nasceu na África do Sul, foi actriz de filmes pouco falados, cantora na Broadway e de cabaré e terceira mulher de John Phillips, dos Mamas and Papas, que compôs todas as canções de “Romance is on the Rise”, álbum escrupulosamente produzido, arranjado e orquestrado que, apesar disso, apenas teve relativa projecção nas pistas de algumas discotecas, incluindo as “gay”, devido à sua faceta “camp”. E “vamp”, atendendo a com Genoveva aparece na capa, em pose dos anos 40, enrolada em corações de plástico. O ambiente varia entre o cabaré decadente, canções da Broadway e alguma Kate Bush (“Times of Love”) e, a ilustrar as ligações do casal à troupe de Warhol, uma versão, em formato boneca, de “Femme Fatale”, dos Velvets. A voz da senhora, um misto de Kate Bush e Marilyn, no registo menina perversa, é que pode soar a irritante a alguns ouvidos. O 98º lugar é um bocado exagerado.

Jean Michel Jarre – Aero

22.10.2004
Jean Michel Jarre
Aero
CD+DVD
Warner Bros., distri. Warner Music
7/10

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Reavaliado como pioneiro da “house”, Jarre tanto é capaz de pôr a sua parafernália de sintetizadores ao serviço de uma electrónica de “jingles” publicitários, como de se alargar em obras conceptuais (os 50 minutos de “ambient” subaquática “Waiting for Costeau” rivalizam com o próprio Eno) que alargam as fronteiras dessa mesma electrónica. “Aero” apresenta a novidade de ser o primeiro álbum inteiramente idealizado e gravado no sistema 5.1 Surround, que Jarre considera tão revolucionário como a transição do monmo para o stereo. Da edição faz parte um segundo CD, áudio, mais curto. O DVD, composto por inéditos e regravações de temas antigos de “Oxygène”, “Equinoxe”, “Zoolook” (com Laurie Anderson), “Magnetic Fields” e “Rendez-Vous”, é um portento de arquitectura sonora, aproveitando o espaço tridimensional como meio ideal para esta música revelar todas as suas virtualidades. Mesmo os temas mais “programáticos” parecem ganhar uma dimensão etérea, enquanto as novas “Scenes” e fragmentos de “Aero” vão buscar alento ao psicadelismo (o fósforo a raspar na lixa, como em “Alan’s psychedelic breakfast”, dos Pink Floyd) e a toda uma gama de efeitos cromáticos. Como suporte visual, um plano fixo dos olhos da actriz Anne Parillaud, filmados em alta definição. Perfeito “muzak”

Arve Henriksen – Chiaroscuro

22.10.2004
Arve Henriksen
Chiaroscuro
Rune Grammofon, distri. Dargil
7/10

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Branca e acariciante como a neve, a música do trompetista e compositor norueguês Arve Henriksen possui aquela propriedade rara de fazer feliz quem a ouve. Henriksen faz parte dos Supersilent e tocou com músicos de jazz contemplativos como Jon Balke e Anders Jormin mas “Chiaroscuro” tem mais a ver com os universos orgânicos de Jon Hassell, o silêncio de Brian Eno e a espiritualidade zen do que com quaisquer calorias jazz. Como Hassell, Henriksen faz sair da trompete um som vocalizado que submete a uma série de processamentos sonoros ou ainda a live sampling, por um dos seus companheiros neste disco Jan Bang (o terceiro é um percussionista). Mas onde as paisagens criadas por Jon Hassell são selvas povoadas por criaturas meio biológicas meio digitais, em Henriksen o horizonte é dominado por uma religiosidade serena à qual os cânticos em falseto, por vezes indistinguíveis da electrónica, acrescentam ainda maior elevação. “Chairoscuro” insinua-se suavemente na alma, com as suas canções sem palavras e as suas pulsações de azul e diamantes, quase imperceptíveis.