Arquivo da Categoria: Críticas 2004

Temo – Derew

10.09.2004
Temo
Derew
Playa Sound, distri. Dargil
7/10

Em pleno século XXI, ainda é possível chegar ao âmago de uma música que não abdica da sua pureza original. “Derew” é o exemplo vivo da permanência de uma oralidade que resiste à erosão do progresso. Uma voz, do cantor curdo Temo, acompanha da pela sonoridade de um instrumento de cordas, o tenbûr, são suficientes. Há uma espontaneidade natural neste canto, em que não percebemos as palavras mas sentimos a intensidade e a ligação ao essencial da vida e da terra. Essencialmente vocal, a música do Curdistão socorre-se das sonoridades instrumentais para melhor pontuar os sentimentos vinculados pela voz. O nascimento e a morte, os baptismos e casamentos, o tempo das colheitas, a vida dos pastores das montanhas são alguns dos temas presentes em “Derew”. Há uma inquietação e um embalo, como que um fado subjacente a esta voz que tanto parece sorrir como chorar. Não é música de consumo imediato, está longe dos cânones comerciais em que muita da “world music” se afundou. Ouvimo-la e sentimo-nos nus.

Eyvind Kang – Virginal Co Ordinates

10.09.2004
Eyvind Kang
Virginal Co Ordinates
Ipecac, distri. Sabotage
8/10

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Misterioso é o termo que melhor se aplica ao mais recente trabalho do violinista Eyvind Kang, ex-colaborador de John Zorn e Bill Frissell, entre outros, além de autor de álbuns como “7 Nades” e “Theatre of Mineral Nades”. Kang viajou pelo mundo e essa panvisão influencia “Virginal Co Ordinates”. “Go in a good way toa better place” é um misto de “drone” indiana e pop psicadélica ao ralenti. “Doorway to the Sun” irradia emanações solares de uma orquestra de gamelão polinésia durante 19 minutos até se transformar num mantra vocal surpreendente contemplativo de Mike Patton. Em “Ocultum Lapidem” há um violino dividido em fracções de luz e sombra, neo-clássico, minimal, fragmentário. Todo o disco enferma desta aura de majestade discreta como que a avisar-nos da vastidão do mundo. “Taksim” deleita-se nas notas de uma guitarra imersa na improvisação árabe. As longas extensões de “Virginal co-ordinates” e “Innocent eys, crystal see”, com Patton a entoar um estranho cântico e influências japonesas, ficariam perfeitas como banda sonora de um filme de Peter Greenway.

Jethro Tull – Stormwatch

24.09.2004
Jethro Tull
Stormwatch
Chrysalis, distri. EMI-VC
5/10

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“Stormwatch” faz parte do novo pacote de reedições remasterizadas da discografia antiga dos Jethro Tull e inclui quatro temas extra. Ainda há quem se interesse por eles. Bem entendido, a data de edição é 1979 e nessa altura os Tull tentavam salvar a pele e sair ilesos da investida “punk”. Fizeram-no facilitando, arredondando as arestas e restringindo os ritmos, amiúde, a ensonsas batidas de rock FM, quando não descendo à total sensaboria, como acontece com a orquestração pirosa de “Home”. Atenção, porém, Ian Anderson nunca foi homem para descer até aos limites da vulgaridade – embora chegue lá perto em “Warm sporran”, “Something’s on the move”, tímida incursão no “hard rock” e uns “old ghosts” por demais primários – mantendo intocáveis o seu virtuosismo na flauta e as suas vocalizações de menestrel vagabundo. Temas como “Dark Ages”, “Dun ringill” e “Flying dutchman” estão ao nível do período, bem mais interessante, de “Songs from the Wood” e “Heavy Horses”. E a fechar, “Elegy”, um puro exercício de rock sinfónico neo-clássico, lá está para provocar os ódios ou os amores mais extremados.