Arquivo da Categoria: Críticas 2003

Saturnia – “Hydrophonic Gardening”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
28 Novembro 2003


SATURNIA
Hydrophonic Gardening
Mellow, importação
7|10



Viajar para Saturno torna-se fácil, ouvindo a música dos Saturnia. Após um promissor álbum de estreia, Luís Simões e Francisco Rebelo refi naram o alcance destas “trips” que mergulham o espírito num oceano de sinestesias. Ainda que em “Kozmische (parts 1 and 2)”, a batida se esgote no psicadelismo de pacotilha dos Ozric Tentacles, desprende-se do álbum uma energia genuinamente indutora de estados alterados que vão da euforia de danças dervíxicas ao intimismo de secretas alucinações. “Hydrophonic Gardening” transporta ecos dos Pink Floyd, Klaus Schulze e Steve Hillage, mas fi ltrados por uma visão capaz de transmutar estas influências numa música personalizada. “Sunflower” lembra o misticismo dos Yatha Sidhra. “Lava” fará as delícias dos viciados na “new age” da Hearts of Space, bem como “Planetarium”, ideal para assistir à chegada de um ovni, como “The Way Home”, de Kevin Braheny. “Vimana” e “Omnia”, os mais tripantes frutos cósmicos desta jardinagem hidrofónica, disparam ao espaço, acolhendo Syd Barrett e as ondas aquáticas de “Meddle”. “Regulem os comandos para o coração do sol” volta a ser a palavra de ordem. Os Saturnia levam-nos lá.



Mola Dudle – “O Futuro Só Se Diz Em Particular”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
28 Novembro 2003


MOLA DUDLE
O Futuro só se Diz em Particular
Ed. e distri. Ananana
7|10



Consumada a cisão nos Mola Dudle, Nanu é agora o porta-voz de uma música que diverge radicalmente do anterior álbum do grupo, “Mobília”. A palavra e as vocalizações tornaram-se essenciais na economia do projecto ainda que as “canções” continuem a pautar-se pelo esforço em “fazer diferente”. Mas algo se perdeu no desfazer da mobília. A música parece ter-se deixado apanhar pelo vírus do “estilo”, caindo em tiques de uma certa pseudomodernidade pop que afasta “O Futuro só se Diz em Particular” do anterior experimentalismo, considerando, apesar e tudo, que um tema como “Redrock one:um” possa ser uma leitura irónica desse mesmo universo de referências. Num álbum em cuja lista de convidados constam Manuela Azevedo, dos Clã, e Armando Teixeira, presenças que, de certa forma, ajudam a compreender a mudança de orientação, ajuste-se a sensibilidade ao chique de arranjos de cordas à la Kronos Quartet, versos em francês, atmosferas de “film noir”, valsas, Nova Huta, e um tema, “Diva”, digno dos A Fúria do Açúcar. A Mola não quebrou mas faz agora parte de um maquinismo pronto a usar.



Rodrigo Amado, Carlos Zíngaro, Ken Filiano – “The Space Between” + João Paulo, Paulo Curado, Bruno Pedroso – “As Sete Ilhas De Lisboa” + Hugo Alves – “Estranha Natureza” + José Peixoto – “Aceno” + Paula Oliveira & João Paulo – “Quase Então” + Helena Caspurro – “Mulher Avestruz”

(público >> mil folhas >> portugueses >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 15 Novembro 2003

O jazz criado hoje por músicos portugueses é jazz de cá e de lá, jazz universal, a saltar para fora das margens. Buscam-se caminhos, pontos de partida e de chegada. Descobrem-se novas vozes.


Espaços entre o jazz que se faz em Portugal


RODRIGO AMADO, CARLOS ZÍNGARO, KEN FILIANO
The Space Between

Clean Feed, distri. Trem Azul
8 | 10

JOÃO PAULO, PAULO CURADO, BRUNO PEDROSO
As Sete Ilhas de Lisboa

Clean Feed, distri. Trem Azul
8 | 10

HUGO ALVES
Estranha Natureza

Ed. autor/Actus
7 | 10

JOSÉ PEIXOTO
Aceno

Ed. e distri. Zona Música
7 | 10

PAULA OLIVEIRA & JOÃO PAULO
Quase Então

Clean Feed, distri. Trem Azul
7 | 10

HELENA CASPURRO
Mulher Avestruz

Ed. autor
7 | 10

Nas excelentes notas explicativas que acompanham “The Space Between”, assinadas por Bill Shoemaker, define-se este “espaço entre” como o lugar que separa (e, consequentemente, liga…) o conhecido e o desconhecido, onde “os sentidos ainda não se tornaram sensibilidade”, os “estímulos ainda buscam um contexto” e “os ‘blues’ são uma cor, mais do que um estado emocional culturalmente defi nido”. Espaço que num rompante se abre, como diz o título de abertura, entre o “nothing” e a “new thing”. Para Rodrigo Amado (saxofones alto e barítono), Ken Filiano (contrabaixo) e Carlos Zíngaro (violino) este espaço – o da improvisação – estabelece ainda a ponte entre os discursos intrinsecamente jazzísticos dos dois primeiros e as intervenções, mais conotadas com práticas da música contemporânea, do violinista. Abstracta, recusando embora soluções aleatórias, a música sugere ritmos e cadências com raízes explicitamente mergulhadas na tradição, por mais “out” que queira deixar entender, como em “Off breaker”. Já “Horn, strings & sound” não esconde o propósito de investigação da forma sonora pura, essa quimera que consiste em procurar a impossível perfeição situada além da emoção.
De certa forma complementar de “The Space Between”, a música de outro trio – João Paulo Esteves da Silva (pianos, acordeão, percussão e voz), Paulo Curado (saxofones alto e soprano, garrafa e voz) e Bruno Pedroso (bateria, percussão e voz) – procura igualmente “lugares” ou um lugar de rutura com o jazz americano, “perigosamente próximos dos mundos da fala”. Onde “The Space Between” é geografia e materialização de ilusões, “As Sete Ilhas de Lisboa” demanda uma matriz étnica, embora de igual modo confi nada à delimitação simbólica de uma Lisboa “de sabedorias perdidas de árabes e judeus”, como se pode ler no interessante texto de apresentação de João Paulo Esteves da Silva (J.P.E.S.). Entre o piano impressionista (J.P.E.S. tem o cuidado de referir a utilização de dois instrumento, um novo e um antigo) de “Este castelo de areia”, a mimética folk de “Bi fri nalmente”, as explorações “free” de “Fumarada”, as onomatopeias rítmicas de “Barco à vista” e as vocalizações “gestalt” de “Vamos lá pôr esta coisa a funcionar”, o jazz infiltra-se e recua como a maré do Tejo. Existirá, afinal de contas, um jazz intrinsecamente português? Fará parte da sua natureza afirmar de modo particular o universal?
Mas nem só da “nova coisa”, e das interrogações que esta suscita, vive o jazz que se faz por cá. O jazz clássico está vivo. Que o diga o jovem trompetista e fliscornista Hugo Alves, “aluno” atento de Lee Morgan, Clifford Brown e Woody Shaw, em “Estranha Natureza”. Timbre quente, aconchegante, fraseado Redondo e escorreito, o swing indispensável imperam nos dez originais escritos pelo próprio e executados na Capela das Artes, Alcantanha, Silves, na companhia de Bruno Santos (guitarra), Jorge Moniz (bateria) e Nuno Correia (contrabaixo). Jazz a pavimentar, bem, o presente.
José Peixoto, guitarrista dos Madredeus, prossegue o seu caminho em direção a uma música onde a espiritualidade e os modos de improvisação da música árabe são a pedra de toque. Em “Aceno” Peixoto convidou o guitarrista da ECM, Ralph Towner (mantendo com ele amigável duelo de guitarras, em “Espaços”), Manuela Azevedo (vocalista dos Clã), Filipa Pais, José Salgueiro, Mário Delgado, Mário Franco, Mário Barreiros e Quine. Rabih Abou-Khalil é ponto de orientação. Filipa Pais poderá ter aberto uma nova porta do seu mundo em “Perto do poente (a visita da lua)”, vocalização astral com luz de moura ao luar como há muito vinha prometendo e aqui em absolute cumpre. Jazz ambiental, jazz do Sul, jazz de intimismos, jazz de fi ligranas, ou talvez tudo tendo a palavra “jazz” apenas a tracejado, o que, mesmo assim, não lhe tira o encanto.
Duas vozes femininas demandam o “Eldorado” do jazz sem rótulos. Paula Oliveira foge-lhe mesmo por completo, em “Quase Então”, com João Paulo a dar-lhe cobertura no piano. A voz de Paula Oliveira pode fazer quase tudo, quase fazendo esquecer a de Maria João, em “Então”. Música tradicional portuguesa jazzada, pois então. Paula “scata” (às vezes de forma tão sólida como redundante, num “Sonho na canção de embalar”, em toada popular). Paula interioriza a melodia e os tons de alma. Paula quer dizer tudo de uma vez, chegando ao ponto de se transmutar em voz e canto de anciã numa incursão profunda no folclore, numa “Dona Iangra” que obriga a parar para melhor se escutar. Paula tem muitas músicas ao seu dispor e só lhe falta, caso assim o deseje, escolher uma delas para caminhar pelo seu próprio pé. Porque voz tem de sobra. A fechar, o “standard” “Stella by starlight” repõe o jazz no seu lugar e Paula Oliveira no lugar do jazz.
Já Helena Caspurro (atual assistente no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro e participante em projetos como “Bach2Cage”) vive a sua estreia discográfica, “Mulher avestruz”, com o jazz a correr-lhe por dentro de maneira distinta. Com ocasional sotaque e sensibilidade brasileiros. Mais “blues”, em “L-O-V-E you!”. E um piano a dirigir-lhe os dedos para as paisagens de vistas longas e largas do título-tema, onde Caspurro se revela compositora, arquiteta de dizeres, sinais e ruídos que a colocam na mesma academia de cantos inóspitos de Shelley Hirsch, Lauren Newton, Joan La Barbara ou Cathy Berberian.