Arquivo da Categoria: Críticas 2001

Norma Waterson – “Bright Shiny Morning”

Y 2|FEVEREIRO|2001
escolhas|discos


NORMA WATERSON
Bright Shiny Morning
Topic, distri. Megamúsica
8|10



Depois de se passear por entre as estrelas (algumas delas cadentes, como Nick Drake e Freddy Mercury) no fabuloso compêndio de “covers”, “The Very Thought of you”, poucas hipóteses restavam à senhora Waterson se escapar a um movimento de refluxo. Mas se a maré baixou, recolhendo-se num álbum composto cem por cento por temas tradicionais, permaneceram a profundidade e a sabedoria que continuam a emanar desta voz sem idade que ainda arrisca a exposição do canto “a capella”, no tema “Game of all fours”. Acompanhada, como sempre, pela família, com o tom épico das baladas em que intervém o marido, Martin Carthy, a impor-se, a novidade de “Bright Shiny Morning” reside, sobretudo, nas novas combinações instrumentais proporcionadas pelas presenças dos convidados Mary MacMaster, da dupla escocesa Sileas, na harpa eletrificada, e Julian Goodacre, na gaita-de-foles, instrumentos pouco habituais na tradição rural inglesa. A rainha aí está de novo sentada no trono da folk que por direito lhe pertence.



Mestre Ambrósio – “Terceiro Samba”

Y 25|MAIO|2001
discos|escolhas


MESTRE AMBRÓSIO
Terceiro Samba
Chaos, distri. Sony Music
9|10



Há ocasiões em que ouvir música se torna um ritual de exaltação da alma e dos sentidos. O terceiro álbum dos Mestre Ambrósio, tem esse efeito. Simplicidade e energia propagam-se como as chamas de um incêndio num dia de Verão, empurrado e alimentado pelo vento, em marcações percussivas que arrebatam a tradição e o futuro, trazendo a dançar as vozes de Luiz Gonzaga e Tom Zé. Mestres, como mestres são os Mestre Ambrósio, em tirar magia de uma rabeca, um pandeiro, um reco-reco, um fole, um suspiro, um grito. Samba e forró, xote e ciranda, uma festa de Junho, a favela e o sertão animam-se numa ronda de cores e “signos que não são só musicais”, nas palavras do grupo. “Vida” é a esperança que nasce da dor, “Gavião”, um hino à liberdade, “Saudade” brilha como uma lágrima. Não se explica música desta, “teia de ritmos e timbres que bebe nas fontes primais”. Só temos que nos entregar. Um dos álbuns do ano.



ZZZZZZZZZZZZZZZZZP! – “FB56”

09.11.2001

ZZZZZZZZZZZZZZZZZP!
FB56
Ed. e distri. Ananana
8/10

LINK (Compilação com “Disseminações”)

À semelhança do que já tinham feito no anterior “FICTA003”, os ZP! (eles que me perdoem por ter eliminado 16 dos “Z”, mas a economia de espaço assim o exige!), de Miguel Sá e Miguel Carvalhais, recortaram o número de catálogo e colaram-no na capa, a servir de título. A opção expressa uma predilecção pela abstracção e pela manipulação das entranhas, quer do som quer dos meios da sua produção. Os sete temas deste mini álbum composto para uma encomenda da Bienal da Maia são amostras convincentes de uma estética cuidadosamente elaborada ao longo dos últimos dez anos. O sampler e o computador são as ferramentas usadas na confecção de uma música que vive das dinâmicas e das tensões (quando não dos “erros”) entre programação e improvisação, groove e fragmentação. Pianos virtuais, segmentação de timbres e de texturas inusitadas, vozes e instrumentos samplados segundo técnicas de colagem que tanto devem a Musci/Venosta e aos Severed Heads, como ao pioneirismo de Bernard Parmegiani, e a atitude futurista de culto à beleza da máquina, situam “FB56” no mesmo patamar de projectos como Sack & Blumm ou General Magic.