Arquivo da Categoria: Críticas 1997

Cherish The Ladies – “New Day Dawning”

POP ROCK

9 Abril 1997
world

Cherish the Ladies
New Day Dawning
GREEN LINNET, DISTRI. MC – MUNDO DA CANÇÃO


ctl

A música deste agrupamento feminino não é do tipo que permite grandes evoluções, a não ser que se queira desviar do caminho previamente traçado. As Cherish the Ladies criaram o seu nicho próprio e a música tradicional da Irlanda habita dentro dele com a vitalidade e o conforto de quem encontrou recipiente e veículo aproporiados. Comparando com os trabalhos anteriores, “New Day Dawning” faz aquilo que se costuma e deve fazer nestes casos, aprofundar a visão e apurar a execução, o que poderá ser avaliado em pleno pelos que conhecem “The Black Door” e “Out and About”, os dois álbuns que tiveram distribuição em Portugal. Nota-se que o grupo está mais desenvolto, sendo notória uma maior fluência na execução dos “reels” e “jigs”, evolução a que não será alheia a entrada para o atual sexteto da “virtuose” da flauta e dos “whistles”, Joanie Madden. Por outro lado, Mary Bafferty deu um salto qualitativo enorme no acordeão, o mesmo se podendo afirmar de Soibhan Egan, no violino, e de Donna Long, no piano e violino de acompanhamento. Também as vocalizações de Aoife Clancy ganharam em segurança e profundidade, como se depreende da audição de baladas como “Green grow the rushes oh” ou, em gaélico, “A neansai mhile grá” (com uma tocante intervenção, no “whistle”, de Joanie Madden). Na imensa galáxia da música irlandesa, “New Day Dawning” será “apenas” uma entre tantas das suas estrelas de primeira grandeza, o que não dirá muito aos que se sentem intoxicar com a enxurrada de música que chega ao nosso país com esta proveniência. Escutado, porém, com outra disponibilidade, tem muito para oferecer, sendo, até à data, o retrato mais belo da Irlanda tirado pelas Cherish the Ladies. (8)

Tam ‘Echo’ Tam – “A Capella”

POP ROCK

26 Março 1997
world

Tam ‘Echo’ Tam
A Capella
JARO, DISTRI. MEGAMÚSICA


tet

As Zap Mama já estão noutra, vão pela estada do “hip hop”, em direção ao arco do triunfo. Entram em cena as Tam ‘Echo’ Tam, um quarteto multinacional e multirracial formado por dois homens, Larbi Alami e Daniel Vincke, e duas mulheres, Aline Bosuma e Valérie Lecot, numa mistura belgo-zairense que retoma os caminhos que as Zap abriram no primeiro álbum e em “Sabsylma”. São as combinações lúdicas “a capella”, com as vozes a fazerem a vez de instrumentos de ritmo, segundo a mesma fórmula de polifonias sinuosas, aqui compostas na totalidade pelo grupo, onde se cruzam temas que sugerem tradições várias com experiências (muito semelhantes ou quase decalcadas das do grupo de Marie Daulne, como em “Sophie s’envole”) que apenas buscam o prazer do jogo vocal. Mais “jazzy” (“La fuite de jazz”, “What does it mean?”) e, em termos de forma, menos rebuscados do que as Zap, os Tam prestam igualmente atenção ao trabalho desenvolvido pelos Manhattan Transfer ou por Bobby McFerrin. Num terreno fértil da “world music”, onde começa a chegar, talvez em número excessivo, uma quantidade de curiosos em praticar as delícias da polifonia, os Tam ‘Echo’ Tam têm a seu favor o “swing” e a inegável facilidade com que assimilaram as regras impostas pelas Zap Mama e contra, obviamente, a falta, para já, de uma voz (ou vozes…) própria. (7)



Gabriel Yared – “The English Patient”

POP ROCK

26 Março 1997
poprock

Gabriel Yared
The English Patient
POLYDOR, DISTRI. POLYGRAM


gy

A música de filmes, na maior parte dos casos, é feita não para pessoas que gostam de música, mas para pessoas que gostam de música de filmes. Não se trata de um jogo de palavras e as exceções só confirmam a regra. Quem não viu o filme fica a chuchar no dedo diante de pastelões de todo o tamanho que, no contexto das imagens, até podem funcionar. Quem viu ouve para sonhar. Ou, segundo o “efeito Kodak”, para mais tarde recordar. A tarefa de encher de sons “The English Patient”, candidato maior aos óscares deste ano, foi entregue a um perito, Gabriel Yared, alguém que antes de se especializar nesse campo compôs um interessantíssimo álbum de música eletrónica para uma coregrafia, “Shamrock”. Não é o caso desta sensaboria, previsivelmente classicista ou classicizante, ideal para quem quer levar para casa a estatueta. Há traços de romantismo, um tom invariavelmente solene e três temas tradicionais na voz de Márta Sebestyen, um deles com os Muszikas, que valem por todo o disco, incluindo o minuto de “Én csak azt csodálom” que aparece no recente “best of” desta cantora húngara. Há ainda pedaços de “standards” a intrometerem-se na partitura de Yared: “Cheek to cheek” de Irving Berlin, em duas versões, uma na voz de Fred Astaire, outra por Ella Fitzgerald, “Wang wang blues” e “One o’clock jump”, por um dos reis do “swing”, Benny Goodman, “Where or when”, pela Shepherd’s Hotel Jazz Orchestra. Julie Steinberg interpreta ao piano (o piano, ah, o piano…) uma ária das “Variações de Goldberg” de Bach. Momentos de vidas antigas, mas vida, de qualquer modo, recortados do painel de emproamentos pintado por Yared. (4)