Arquivo da Categoria: Críticas 1996

Évasion – “Cantos do Mundo”

POP ROCK

16 de Outubro de 1996
world

Évasion
Cantos do Mundo
ED. EL TATU


ev

As meninas cantam. E bem. São todas filhas de emigrantes, duas delas de pais portugueses. Por esse motivo, as Évasion acrescentaram, nesta reedição aumentada do álbum “Vous et Nous…”, três temas cantados em português, “O ladrão”, um original dos Madredeus (aqui com a companhia de Tim, dos Xutos e Pontapés), o tradicional “Anda cá, Manuel” e “Grândola, vila morena”, de José Afonso. O método das Évasion é simples: ouvem a maior quantidade possível de polifonias vocais de todo o mundo, escolhem as que gostam mais e procuram reproduzi-las o mais fielmente possível. São, por este motivo, uma espécie de catálogo, uma viagem barata pelos folclores do planeta, empreendida com razoável discernimento, apesar da ausência de um enquadramento que permita entender estes “Cantos do Mundo” como a integração da “world music” numa visão personalizada (como acontece com as Zap Mama), e não como uma colecção aleatória de temas avulsos. Importa, no entanto, realçar a pouca idade dos elementos do grupo, espantando, por isso, a maturidade das interpretações e a intuição revelada na diversidade de registos exigidos pelas várias tradições. As Évasion possuem a ginástica vocal e o bom gosto, condições que lhes permitirão, a curto prazo, atingir um patamar ainda mais elevado. Para já fica o gozo do passeio pelas polifonias do Louisiana, África do Sul, Japão, Bulgária, Córsega, Catalunha, Hungria, Argélia, Nápoles, Haiti, Geórgia e Oceânia, além dos três temas cantados em português. A capa é um horror, sendo de toda a conveniência ignorá-la, sob pena de se cercear pela raiz qualquer possibilidade de evasão. (7)

Carlos Nunez – “A Irmandade das Estrelas”

POP ROCK

9 de Outubro de 1996
world

Ovo estrelado

CARLOS NUÑEZ
A Irmandade das Estrelas (6)
BMG Ariola, distri. BMG e import. Disco 3


cn

Nos festivais internacionais para que é, com frequência crescente, convidado, Carlos Nuñez eclipsa geralmente toda a concorrência, rendida ao seu quase sobrenatural virtuosismo – como aconteceu, inclusive, em Portugal, quando da sua apresentação na última edição do Intercéltico do Porto. O músico galego é, de facto, um predestinado, atingindo níveis de desempenho, na “gaita” ou no “tin whistle”, verdadeiramente de excepção. Esta evidência não apaga, no entanto, o pouco acerto que tem presiddido ás suas opções musicais, das quais o folk(?)-rock-“reggae” dos Matto Congrio constitui no exemplo mais gritante pela negativa. É verdade que a dimensão e o estatuto internacionais entretanto alcançados pelo músico galego porventura o impedem de se dedicar a uma música eventualmente mais do agrado dos puristas mas cujo destino mais provável, em termos comerciais e no terreno do “mainstream”, onde hoje se movimenta, seria o fracasso.
“A Irmandade das Estrelas” não resolve a questão, embora procure ultrapassá-la através da fórmula, dispendiosa, do recrutamento do maior número possível de “estrelas”, conferindo, neste caso, ao título, um segundo sentido que apenas desvaloriza o seu conteúdo iniciático. Da lista de lustres da irmandade fazem parte os Chieftains (Paddy Moloney é o padrinho aceite por Carlos…), Ry Cooder, os Nightnoise (de Triona e Michéal Dhomhnaill), a Vieja Trova Santiaguera cubana, o grupo de vozes e pandereteiras Xirabela, Amancio Prada e o guitarrista de flamenco Rafael Riqueni. E os portugueses Dulce Pontes, Paulo Jorge e Yuri Daniel, em “Lela”, uma serenata de Santiago de Compostela que toca no fado de Coimbra. Um ovo estrelado com excesso de condimentos. Obra e pretensões universalistas, como se vê, na linha dos fundamentalismos célticos agora tão em voga, que procuram estender o círculo druídico a todas as épocas e lugares.
No meio de tantas manobras de conquista, quase se escondem num outro mundo – menos iluminado por “estrelas” mas enraizado numa genuína ligação da terra ao firmamento – as vozes solitárias, de Luz Casal, em “Negra sombra”, e colectivas, das Xirabela, em “Cantigueiras”. Carlos poderia fazer sozinho o foguetório, acendendo as velas nos lugares mais altos do tecnicismo e do bom-gosto. Assim, deite quem quiser os foguetes e apanhe as canas deste arraial de gente fina que, sem chegar aos calcanhares da obra de referência neste capítulo, a “Symphonie Celtique”, de Alan Stivell, deixa a milhas de distância a pastelada, não menos megalómana e com idênticos propósitos, de Dan Ar Bras, em “L’Heritage des Celtes”.



Sheila Chandra – “ABoneCroneDrone”

Pop Rock

18 de Setembro de 1996
world

SHEILA CHANDRA
ABoneCroneDrone (8)
Real World, distri. EMI – VC


sc

Era previsível a forma que tomou este terceiro tomo de uma trilogia que se iniciou com “Weaving my Ancestor’s Voices”, prosseguiu no anterior “The Zen Kiss” e finalmente desembocou no oceano, literalmente sem margens, da “drone” pura e simples. Um passo lógico mas que não deixa de ser radical da parte desta cantora de ascendência indiana, para quem a experiência do canto se liga intimamente à da audição e do contacto místico com níveis superiores do ser, como é o da música, enquanto realidade ideal, no sentido que Platão lhe conferiu – entidade pré-existente à qual, por ascese, o homem pode aceder (contemplar) ou, no caso do músico, “roubar” de modo a transformá-la em frequências sonoras audíveis. Um sentido assumido até às últimas consequências por Sheila Chandra, que aqui se refere à sua música como “performance”, na medida em que se afirma como relação que exige a participação activa do auditor – sendo este último, em última análise, quem confere à matéria sonora os seus atributos semânticos e a sua organização final. Premissas que colocam “ABoneCroneDrone” e os seus seis segmentos-temas, todos com este título, na mesma linha ideológica e estética dos minimalistas e, em particular, de LaMonte Young e do seu conceito de música eterna, os quais, por sua vez, derivam das noções de “drone” e de ciclicidade da música indiana, afinal a matriz formal, filosófica e religiosa do movimento minimalista. Em “ABoneCroneDrone”, Sheila navega no interior do som, fazendo nascer, de maneira mágica, as melodias, do centro da harmonia, lugar de origem de todos os ordenamentos e sequenciações melódicas. Lugar, pois, de navegação mas também de pesca, onde uma simples sílaba se estende até ao infinito e a noção de polifonia se dilui na imensidão oceânica das microtonalidades e do jogo de combinações dos harmónicos, por sua vez multiplicados em micro-sinfonias subliminares. É difícil acreditar que esta Sheila Chandra seja a mesma que, nos anos 80, levou “Ever so lonely”, com os Monsoon, aos tops de vendas. Em “ABoneCroneDrone”, a cantora alinha-se na vanguarda do experimentalismo vocal, embora – e bastaria esta diferença para a distinguir de algumas das suas companheiras representantes de correntes e técnicas de canto ocidentais – sem cortar os elos de ligação aos princípios da música indiana tradicional. No fundo, “tecendo”, de maneira inovadora, as tais “vozes dos seus antepassados”.