Arquivo da Categoria: Críticas 1996

pop rock >> quarta-feira >> 17.01.1996


Squeeze
Ridiculous
A & M, DISTRI. POLYGRAM



Há algo de nostálgico na música dos Squeeze e na persistência com que a banda de Glen Tilbrook e Chris Difford insiste em trazer o espírito da “power pop” dos idos de 80 para os dias de hoje. “Ridiculous” não é melhor nem pior que os outros discos, nomeadamente o anterior, “Some Fantastic Place”. É com prazer que reencontramos as mesmas melodias, cuja estrutura não poderia ser mais simples, embelezadas embora por uma iconografia adolescente, já algo desbotada e deslocada, inspirada nos Beatles. Precisamente, o que faz o encanto da música dos Squeeze é essa discrepância temporal entre o apego à memória e a recusa em evoluir para modelos mais actuais. Os Squeeze nunca vão mudar, nem ninguém há-de querer isso. “Walk away” é o exemplo máximo de anacronismo enquanto “This Summer” recua até aos quatro de Liverpool e à ingenuidade mágica de uma qualquer “Michèle”… Deixemos passar “Ridiculous” sem lhe fazer mal. Seria ridículo destruir uma estufa. Ou desprezar um oásis. (6)

JPP – “Devil’s Polska”

pop rock >> quarta-feira >> 17.01.1996


JPP
Devil’s Polska
GREEN LINNETT, DISTRI. MC-MUNDO DA CANÇÃO



Os Jarvellan Pikkupelimannit, ou JPP, como se autodesignaram a partir de 1988, quando alcançaram a consagração no seu país de origem, a Finlândia, com o duplo álbum “Kaustinen Rhapsody” (considerado o “melhor do ano” pelo diário “Helsingin Sanomat”) e a atribuição do prémio Tonnustus, pela Corporação de Rádio Finlandesa, dedicam-se ao reportório de violino. “Devil’s Polska” (no original “Pirun Polska”) não esconde o currículo clássico e de conservatório dos seus el, mesmo se nos seus primórdios, no início dos anos 80, o grupo se reivindicasse como descendente directo de uma linhagem de músicos populares que elementos populares que já no final do século passado animavam as aldeias de Kaustinen e Jarvela. O seu nome significa, de resto, “os pequenos músicos de folclore de Jarvela”. Por serem na altura ainda muito jovens e, quiçá, de baixa estatura. Os elementos do actual septeto já dispersaram os seus talentos pelos Niekkutallari, Koinurit, Salamakannel ou Maria Kalaniemi, entre outros. Em contrapartida ao seu passado regional, a música deste quarto álbum da banda é de iluminados. O reportório incide sobre polskas, polkas, “schottisches”, quadrilhas, valsas, marchas, um 2Tango bonito” e até um “Irish coffeee”, servido, evidentemente, com natas muito geladas. Das tradições finlandesa, mas também sueca, da região de Carélia, mais uma polka alemã e a tal polska do diabo. Experimentem começar, sem aviso prévio, pelo tema n 4, “Ellun sotiisi”, e deixem-se cair para o lado. É das melodias mais envolventes que tenho escutado nos últimos anos. Ou então, lá mais para a frente, “Kulkan kakkospolska”. E há muitas mais do estilo. Música tradicional com a complexidade, a riqueza harmónica e a sumptuosidade do Barroco. Cinco violinos, um baixo acústico e um órgão de pedais. “New finnish folk fiddling”, apregoa o subtítulo. Parece pouco? É mais do que suficiente para pôr qualquer um em órbita. Obrigatório. (9)

Aimee Man – “I’m With Stupid”

pop rock >> quarta-feira >> 17.01.1996


Aimee Man
I’m With Stupid
GEFFEN, DISTRI. BMG



“Whatever”, o álbum anterior de Aimee, passou estupidamente despercebido. Um dos discos que tornou mais brilhante o meu Verão de há dois anos. “I’m With Stupid” chega em plena época das chuvas, mas o milagre repete-se. Aimee abre a boca e o sol aparece. A antiga ninfeta dos Til’ Tuesday, admiradora de Liz Phair e admirada por Elvis Costello, está de volta com um som mais agressivo que o de “Whatever” e com ela estão de volta melodias viciantes. Quantas doses de “Long shot”, “Amateur”, “Par for the course” ou “That’s what just you are” serão precisas, antes da cura de desintoxicação? O tema do estúpido deve saborear-se com a memória gustativa nos Devine & Statton. Ou nos genuínos mestres do “cocktail”, Slapp Happy. Glenn Tilbrook e Chris Difford, dos Squeeze, produzem. Julianna Hatfield e Bernard Butler, ex-Suede, colaboram.
Da capa interior de infantário à voz de brinquedo, de entoações a fazer lembrar, por vezes Chrissie Hynde, e às canções com espessura de “chantilly”, tudo aponta no mesmo sentido: gozo. Chamem-lhe fútil ou superficial. Mas agradeçam-lhe. São discos como este, estupidamente saudáveis, que tornam a vida menos cinzenta e nos fazem acreditar que a pop é um remédio santo. Vai um rebuçado? (7)