Outro só para os adeptos. A questão, em termos de crítica, coloca-se em termos simples: para aquela camada de público já familiarizada com a linguagem e as diversas tipologias da música tradicional irlandesa, só existe um método de aferição da qualidade (ou falta dela) de uma determinada obra; a audição. Como no jazz, com os seus subestilos particulares, não é o domínio do virtuosismo técnico ou da escolha de reportório que faz a diferença, mas sim a sensibilidade, a maior ou menor capacidade de expressar algo que, no caso da música tradicional, tem raízes no colectivo. E essa capacidade expressiva só a sensibilidade e a intuição do auditor permitirão uma avaliação qualitativa, que, em qualquer caso, nunca radicará na análise. Assim se compreende que o leigo arrume toda a música tradicional irlandesa no mesmo saco, apanhando as formas – por regra de elevado nível, tal como no jazz – sem lhes apreender o fogo. “Crossing” é mais um disco de “Irish traditional music”, sem nada de especialmente inovador que o distinga de dezenas de outros. Com base em material oriundo condados de Cork e Galway ou do “midwest” norte-americano, o trio composto por Matt Cranitch, na rabeca, Dave Hennessy, no “melodeon” (variante de concertina) e Mick Daly, voz, guitarra e banjos, faz, com apreciável dose de interiorização, a reinterpretação, em moldes clássicos, de “reels”, mazurkas, polcas, “jigs” e “barndances”, suavizados por canções com sabor a emigração e a distância, com raízes no legado de gente antiga e ilustre como Pete Seeger, Woody Guthrie e Tom Paxton. Não dá para grandes parangonas mas, lá está, haverá provavelmente um cantinho para ele na estante do adepto. (7)
VAI DE RODA
Polas Ondas (10)
Alba, distri. MC – Mundo da Canção
No início, é um poema de Rosália de Castro, “Follas Novas”. Os mesmos versos que inspirara os Milladoiro, em “As Fadas de Estraño Nome”. Elas, as fadas, e “cores de transparência húmida”, fundiram a Galiza e o Porto, esse “glaciar de granito que desce até ao Douro”, num álbum de águas, fogueiras, maquinismos e danças. “Polas Ondas” é o terceiro álbum dos Vai de Roda, projecto de Tentúgal, um universo próprio tão mergulhado nos sonhos do seu autor quanto distante de quaisquer abordagens convencionais na recriação da música tradicional, neste caso portuguesa e galega. Não se procure em “Polas Ondas” nem reproduções de museu nem angústias de utópicas fidelidades a linguagens que o tempo se encarregou de devorar. O vínculo dos Vai de Roda e do seu mentor com a tradição processa-se pelo lado do mito, do simbolismo iniciático, da fusão dos sons com a memória.
É um álbum de contradições assumidas, de enigmas, de extrapolações mágicas. O som é o do búzio (símbolo e instrumento da música imaginária do mar que escutamos a borbulhar no nosso inconsciente) e das ondas electrónicas do sintetizador. A capa sobrepõe uma imagem marítima (uma rede de pesca) à cor do sangue. Tentúgal é um “louco”, no sentido “tarotiano” do termo. Um buscador de unidade que não hesita em se quedar diante do abismo. Neste seu terceiro trabalho, cruzou Álvaro de Campos com contradanças e fanfarras e António Silva Leite (1759-1833), Afonso X, “o Sábio”, com um aluno seu de 11 anos, Vasco Bruno, numa leitura da tradição galaico-portuguesa que, em termos estéticos e de produção, está mais próxima de projectos galegos de fusão paralelos (Armeguin, Milladoiro, Luar na Lubre) do que das coordenadas portuguesas mais comuns.
Da Galiza, desceram polas ondas, a cantora Uxia (que em “A roupa do marinheiro” rubrica uma das suas interpretações mais tocantes de sempre) e Xúlio Vilaverde. Do lado português estiveram na Roda, Abílio Santos, Cristina Martins, Helena Soares, Sérgio Ferreira, Eduardo Coelho e Jorge Lira, o “irlandês”…
Gaivotas, o mar, percussões do longe, arcos afagando violinos e violoncelos, abrem alas à gaita-de-foles e à sanfona, em “Polas ondas”, o tema cinco vezes recorrente que dá sentido a uma nova música de câmara, com raízes na música tradicional, que parece querer fazer escola entre nós. Um terreno que se encetou com “Terreiro das Bruxas”, anterior trabalho dos Vai de Roda, prosseguiu com o disco de estreia dos Realejo e agora culminou em “Polas Ondas”.
Álbum de recriação de ambientes relacionados, mais do que com os espaços, com um tempo mítico e imemorial, “Polas ondas” compõe pequenas odes à imaginação, num “puzzle” construído sob a forma de labirinto. Um disco de estações, de divisões de um extenso palácio onde em cada uma é possível escutar um eco. Seja numa contradança, no gemido de um velho sem idade ou na música antiga – medieva de “Rosa das rosas” de Afonso X, ou renascentista, de “Floripes na terra chã” –, dando à costa em sintetizadores, seja na serenidade “new age” alando numa harpa, ou numa Irlanda chegando-se numas “uillean pipes” à Terra anterior à divisão, “Finis Terrae” – porto de uma nova idade além-mar.
Ondas são as do mar, do movimento do verde das folhas das árvores batidas pelo vento, das nuvens e, talvez mais, da mente, essas águas eternamente fluindo nos domínios da Grande Mãe.
Não se abarca “Polas Ondas”de uma vez só, se alguma vez for possível abarcar a dimensão do sonho. Repetimos, não é música tradicional, mas uma viagem, musical e poética, através de um povo e de uma cultura recuperados, redimidos e recriados pela visão de Tentúgal: visão universalista, excessiva, receptiva a todas as vozes, mas milagrosamente unida por fios invisíveis que ligam o coração à vontade, o sopro ao barro. Ouviremos em “Polas Ondas” tão fundo quanto formos capazes de nos ouvir. A Roda mergulhou “nas ondas para um outro cais”. Se Fausto traçou, em “Por este Rio acima”, a rota de uma viagem de navegação, de regresso à nascente, os Vai de Roda – nos antípodas da perspectiva de ruptura proposta pelos Gaiteiros de Lisboa – levaram-na a bom porto, pelas ondas, por cima do mar, conduzindo a música portuguesa ao Outro lado. Um clássico.
Kate and Anna McGarrigle
Matapedia
HANNIBAL, DISTRI. MVM
As irmãs McGarrigle formam um par importante da música acústica de sabor doce, sendo os seus álbuns tanto melhores quanto melhor conseguem integrar o elemento de estranheza proveniente das diversas tradições musicais do Quebeque em que mergulham as suas raízes, em particular a elegância directamente herdada da influência francesa. Algo que tornou “Dancer with Bruised Knees” e “The French Record”, respectivamente de 1977 e 1981, em clássicos. Kate e Anna já trabalharam com Richard e Linda Thompson, Albion Band, Chieftains, Gilles Vigneault, Emmylou Harris e Daniel Lanois. As suas relações mais recentes incluem Joan Baez, convívio do qual parecem ter aproveitado algumas lições menos desejáveis. Em “Matapedia” (designação de uma cidade do Quebeque), álbum que quebra um intervalo de silêncio discográfico de seis anos, não desapareceram nem as típicas harmonias que se banham de forma fantasmagórica nos pântanos da música “cajun” ou nas baladas da tradição franco-canadiana dos Apalaches, nem o registo intimista que é timbre das irmãs. Só que a esta ligação não interrompida com a “folk” corresponderam desta vez algumas cedências de sabor mais “mainstream”. Estão neste caso o título-tema, em termos rítmicos, uma cópia bastante fiel de “Mrs. Robinson”, de Simon e Garfunkel, e o tema seguinte, “Goin’ back to harlan”, que funciona como se tivesse sido segredada por Joan Baez. Ultrapassado, porém, este pequeno impasse inicial, “Matapedia” não pára de inocular o seu “charme” perfumado, obrigando a uma e outra audição. “I don’t know”, “Hang out your heart”, “Arbre” (única vocalização em francês), “Jacques et Gillies”, “Why must we die” (um “hit” em qualquer região fantasma que se preze…), “Talk about it” (Laurie Anderson na folk?…) e “The bike song” estão ao melhor nível do duo. Quem procura os lugares por onde Sandy Denny andaria se ainda fosse viva deverá encontrá-los aqui. Um aquário de água doce onde nadam pequenos peixes perdidos. (7)