Arquivo da Categoria: Críticas 1996

The Whistlebinkies – “Inner Sound”

Pop Rock

3 de Julho de 1996
world

The Whistlebinkies
Inner Sound (8)
A Wanton Fling (9)
GREENTRAX, DISTRI. MC-MUNDO DA CANÇÃO


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Respeitinho, gentes! Os Whistlebinkies vão soprar as velas do seu 20º aniversário, podendo ser considerados os equivalentes escoceses dos Chieftains. À semelhança dos seus vizinhos da Irlanda, desprende-se da sua música uma profunda sensação de classicismo, em parte devida à influência de um dos seus elementos, ligado aos meios eruditos, o flautista e harpista Eddie McGuire, mas sobretudo pela atenção posta no detalhe e na sofisticação dos arranjos. O grupo já tocou, aliás, com o violinista Yehudi Menhuin, a Royal Scottish Chamber Orchestra, até com um dos mestres da música contemporânea, o já desaparecido John Cage.
O tema de abertura de “Inner Sound” não destoaria num qualquer álbum da banda de Paddy Moloney, cujas “uillean pipes” se equiparam às “Lowland” e “Small pipes” de Rob Wallace. Na mesma linha dos Chieftains, insere-se ainda a construção formal desse tema, com as harmonias desenhadas, num traço contrastante, pelas “clarsách” (harpa céltica escocesa) de McGuire e Judith Peacock e o lirismo exacerbado que caracteriza uma obra-prima como “The Chieftains 5”. Ainda outra coincidência: os Whistlebinkies foram a primeira formação “folk” escocesa a tocar na República da China, da mesma maneira que os irlandeses foram os primeiros do seu país a actuar ali.
Em “Inner Sound”, a música dos Whistlebinkies espraia-se pela paisagem da Escócia, pelos lagos e montanhas ao pôr do sol da capa, numa amplitude cinematográfica que, de novo, evoca a postura estética dos Chieftains. Escuta-se este som que vem de dentro á sombra de um sonho, percebe-se através das filigranas com que é construído que nunca a música tradicional de raiz possuiu na origem esta sofisticação, mas por isso mesmo sobressai dele uma mais-valia de onirismo e a compreensão de que uma parcela importante da música “folk” contemporânea, muito mais do que tentar reproduzir, segundo técnicas mais ou menos arcaizantes, formas ou estilos “tradicionais”, se dedica à exploração sonora e conceptual das suas matrizes simbólicas. Faz então hoje mais sentido do que nunca falar de uma música folclórica imaginária sem que tal signifique um afastamento irredutível das estruturas musicais originais (ou o que delas resta), e é esta ideia que atravessa, de fio a pavio, e com máximo fulgor, tanto este como, ainda com maior intensidade, o mais recente “A Wanton Fling”, monumento esculpido sobre as tradições do gaélico escocês e da música das Terras Baixas.
Ao contrário de “Inner Sound”, cujos academismos e semelhanças com os Chieftains são impossíveis de ignorar, é um álbum iluminado por uma vocação épica que o faz transcender qualquer comparação. Por aqui passam composições do “pipe major” Donald McLeod, do poeta Robert Burns, da cantora Christine Primrose, bem como de dois elementos do grupo, Eddie McGuire, com uma canção extraída de “The Spirit of Flight”, da partitura para bailado para instrumentos tradicionais e orquestra que escreveu em 1991, e Rob Wallace, cuja prestação nas “pipes”, ao longo de todo o álbum e, em particular, na assinatura “The Whistlebinkies jig”, é simplesmente divinal. Judy Peacock revela-se, por seu lado, uma delicada intérprete do canto gaélico. Já houve quem se referisse, meio a brincar, aos Whistlebinkies como a única “gothic folk band” da Escócia. Faz algum sentido. No âmago da sua música enovelam-se as visões de um rei antiquíssimo a imaginar o Tempo através do vitral de uma catedral gótica.



Linda Thompson – “Dreams Fly Away”

Pop Rock

3 de Julho de 1996
world

O último que apague a luz

Linda Thompson
Dreams Fly Away (8)
HANNIBAL, DISTRI. MVM


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“O álbum para as pessoas que adoram as canções de Richard Thompson mas preferem ouvi-las cantadas por Linda”, diz-se no folheto promocional. É o nosso caso, para quem as composições do antigo guitarrista dos Fairport Convention sempre adquiriram um brilho mais intenso na voz da sua então companheira. “A grande voz perdida”, anuncia, por sua vez, um título à largura de duas páginas, a encabeçar o extenso artigo que lhe é dedicado na última edição da “Folkroots”.
Linda Thompson – ou Linda Peters, nome de solteira – nunca gozou, de facto, a projecção mediática que o seu talento merecia. “Merecia”, e não “merece”, porque decidiu deixar de cantar ao vivo já há algum tempo, encontrando-se o grosso da sua obra nos álbuns que gravou com o marido, “Pour down like Silver”, “First Light”, “Hokey Pokey”, a obra-prima de 1973, “I Want to See the Bright Lights Tonight”, “Sunnyvista” e “Shoot out the Lights”, de 1982, que assinala o final da colaboração. “Dreams Fly away” reúne em 78 minutos 20 canções retiradas da sua discografia a duo com Richard Thompson, diversas remisturas, duas versões ao vivo e uma série de inéditos do formato de demonstração.
Linda Thompson é uma espécie de Nico do circuito “folk”. Conheceu toda a gente que se agitava no meio, na transição dos anos 60 para os 70 – Sandy Denny, Nick Drake, os Incredible String Band, Bert e John Renbourn, dos Pentangle, a nata do “folk rock” – e viveu com algumas dessas pessoas. Martin Carthy e o lendário produtor da Island, Joe Boyd, antes do casamento, que durou 12 anos, com Richard Thompson.
Não teve nem a fama nem o proveito. Começou por cantar em clubes, como o Troubadour, acabando o casamento com o guitarrista por lhe ser, de certa forma, fatal, já que se acomodou a uma posição de subalternidade em relação ao marido, entretanto tornado celebridade graças aos Fairport. Um pouco o mesmo que aconteceu com Beverly Martyn, mulher de John Martyn.
Ainda gravou um álbum a solo, “One Clear Moment”, de 1985, mas uma timidez extrema (chegou a perder a voz, vergada pela responsabilidade de trabalhar com Richard Thompson e pela tensão que lhe causava a competição, nunca assumida, com Sandy Denny, diva querida de todos os “folkies”) e o pânico que sentia de actuar ao vivo impediram-na de voar mais alto. Chegou a colaborar com os Home Service numa produção do National Theatre, “The Mysteries”, antes de se recolher sob a protecção do marido. Preferiu sempre manifestar a sua admiração pelos seus ídolos (Martin Carthy, Shirley Collins, Maddy Prior, June Tabor) do que valorizar as suas próprias capacidades.
“Dreams Fly away” traça uma panorâmica geral sobre a obra desta cantora, que, de certa forma, foi o “Doppelgänger” (duplo-sombra) de Sandy Denny, com quem se compara pela intensidade dramática posta na interpretação. Estranhamente, ou não, Linda dá aqui voz a um tema da antiga vocalista dos Fairport Convention e dos Fotheringay, “I’m a dreamer”, cujo título – outra coincidência? – se associa ao da própria antologia. É ainda a verificação do acento “country”, influência exercida sobre Linda Thompson, no início de carreira, por Bob Dylan e Tom Paxton.
“Lonely hearts”, “First light”, todos os inéditos (cinco), “Talking like a man” (remistura do lado “b” de um “single”), “I want to see the bright lights tonight”, “For shame of doing wrong” ou “Telling me lies” são alguns dos destaques possíveis, num lote de canções ao qual faltam talvez outras peças do fundamental “I Want to See the Bright Lights Tonight”, como a pungente “Has he got a friend for me”, aparecendo “The great Valerio”, outro clássico, num registo ao vivo algo apagado. Única falha deste testemunho tardio de uma das vozes mais originais e menosprezadas da “folk” britânica.



Norma Waterson – “Norma Waterson”

Pop Rock

26 de Junho de 1996
world

Cumprir a Norma

NORMA WATERSON
Norma Waterson (8)
Hannibal, distri. MVM


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Desde as primeiras notas de “Black muddy river”, o tema de abertura, escrito pelo Grateful Dead recentemente falecido, Jerry Garcia, que percebemos estar diante de um daqueles álbuns que hão-de perdurar por muitos e muitos anos. “Norma Waterson” é o primeiro disco a solo desta senhora cujo nome se confunde com a lenda na “folk” inglesa e que até agora se confinara a cantar num dos colectivos mais antigos da tradição desta ilha, os Watersons (dos quais também faz parte o seu marido Martin Carthy, outra instituição) ou, mais recentemente, em família, com Martin e a filha do casal, Eliza Carthy, no fabuloso “Waterson: Carthy”. O reportório, na maioria preenchido por versões de temas alheios, funciona de certa forma como um complemento da veia tradicionalista de “Waterson: Carthy”, com a particularidade de dar a conhecer o lado mais plástico e dramático, carregado de diversas “nuances” emocionais, da voz de Norma Waterson.
Há aqui uma sabedoria e uma experiência acumuladas que, juntas, resultam em pura magia. Como resulta igualmente perfeita a combinação da voz com a guitarra de Richard Thompson, num tema da autoria deste último, “God loves a drunk”, sombras e luz, o desespero habitual do ex-Fairport Convention transportado nas asas da ternura da cantora. Thompson é a presença instrumental mais forte que se faz sentir nesta viagem de Norma Waterson pela escrita de autores como Billy Bragg, Elvis Costello, Fred Fisher, Ben Harper, Lal Waterson e John B. Spencer com Graeme Taylor, um ex-Gryphon, além dos já citados Jerry Garcia e Thompson e de uma composição da própria cantora, “Hard times heart” e um tradicional. Martin Carthy, Eliza Carthy, Roger Swallow e Danny Thompson completam o grupo de músicos participantes.
Se Maddy Prior e June Tabor são hoje as mais legítimas representantes da sofisticação e do apuro técnico do canto inglês de raiz tradicional, Norma Waterson simboliza e incarna a expressividade e o sentimento, a voz esculpida pelos anos até ter adquirido um “bouquet” de sugestões e sentimentos que apenas a passagem do tempo consegue conferir. Os temas falam quase todos de experiências dolorosas, de cicatrizes deixadas pela vida, de becos e vielas do amor, mas a música flui com a tranquilidade de um rio antigo, desde as águas onduladas de “There ain’t no sweet man that’s worth the salt of my tears”, escrito em 1965 por Fred Fisher, numa evocação dos dias da rádio, até ao hino “Pleasure and pain”, de Ben Harper.
Uma descida iniciática às profundezas do canto e da memória, entronizada na miséria sublime de “God loves a drunk” (“Deus ama o bêbedo, o mais baixo dos homens/ como os cães vadios e os porcos na pocilga/ mas um bêbedo apenas tenta libertar-se do seu corpo/ e paira nos ares como uma águia voando alto no paraíso…”) mas também em oração, no tradicional “There is a fountain in Christ’s blood”. E se o calor e a doçura da voz de Norma podem induzir os mais incautos ao sonho, não nos iludamos: a guitarra de Richard Thompson nunca se esquece de nos entornar para cima as suas vagas delicadas de ácido e metal.