Arquivo da Categoria: Céltica

Skolvan – “Swing & Tears”

pop rock >> quarta-feira >> 26.10.1994
world


Swing E Lágrimas Do “Sonneur” Sanguinário

Skolvan
Swing & Tears
Keltia, distri. MC – Mundo da Canção


Graças à actividade incessante desenvolvida no circuito das “festoù-noz” (festivais de dança nocturnos) bretãs e à estabilidade da sua formação – Youenn le Bíhan, na bombarda, “piston” (bombarda de tonalidade mais grave desenvolvida pelo músico) e “biniou” (gaita-de-foles bretã), Fañch Landreau, no violino, Yann-Fañch Perroches, no acordeão diatónico, e Gilles le Bigot, na guitarra, músicos que passaram por grupos como os Gwerz, Barzaz, Kornog e Archetype -, os Skolvan alcançaram um nível de perfeição técnica e uma rodagem tais que lhes proporcionaram a possibilidade de partir para a gravação deste álbum com todos os trunfos na mão. Se o anterior, “Kerz Ban ‘n’ Dans”, era brilhante e uma abordagem rigorosa da tradição bretã, “Swings & Tears”, assinalando uma década de carreira do grupo, não lhe fica atrás, com a vantagem de que agora os Skolvan permitem-se divagar e movimentar com inteira liberdade de movimentos dentro dos parâmetros da música tradicional. “Swings & Tears” é um monumento à música e cultura da Bretanha. Um disco, como o seu antecessor, marcado por um rigor absoluto, mas um rigor que não interfere com aspectos não menos importantes da música: uma energia contagiante, a intersecção com outras culturas, o prazer que se desprende da execução (e, consequentemente, da audição) ou mesmo o humor, um humor apenas permitido a quem cultiva e trabalha no âmago da verdadeira tradição. Assim sendo, só nos resta rendermo-nos ao “swing”, no calor das danças, e respeitarmos as “Tears”, nos momentos de tristeza presentes nos “gwerz”, baladas épicas cantadas em bretão. Inútil procurar em “Swings & Tears” pontos fracos. Pura e simplesmente, não existem. A música tradicional da Bretanha é aqui reinventada num formato lato, por vezes raiando o barroco, no qual a instrumentação tradicional – a típica aliança bombarda/”biniou”, o violino e o acordeão – se expande no diálogo frutífero com um trompete, um contrabaixo, um shakuachi japonês, um saxofone, um saxofone, uma tuba, uma “gadulka”, ou um “bouzouki” e “bodhran” irlandeses. Desde os preparativos para a dança apresentados numa conversa a dois entre a bombarda e o trompete, sobre um rendilhado minimalista de guitarra e subtil tapeçaria desenhada pelo sintetizador, até às “Tears” finais (único tema vocalizado de “Swings & Tears” – onde os Skolvan explicam a origem da sua designação), a Bretanha ilumina-se e afirma com orgulho a sua condição de terra sagrada onde os mitos célticos permanecem vivos e actuantes. Já agora, para quem está interessado em saber: Skolvan era o nome de uma personagem sanguinária, autora de crimes inomináveis cujo fantasma voltou à terra para pedir perdão a sua mãe, Madame Bertrand, segundo reza uma lenda do séc. XII encontrada num manuscrito galês. Há momentos empolgantes, no fundo praticamente a totalidade do álbum: as combinações do violino com as percussões a tuba e a bombarda, em “Boules et guirlandes”, ou do “piston” e trompete, numa dança, ou baile “Plinn”, “Bal Plinn du vertige”, os “sonneurs” de bombarda e “biniou” à desfilada em “Kalon intanvez”, o “swing” alucinante de “… And swing”, uma “gavota” de dupla tonalidade (por favor, não confundir com “gaivota”…), e das “Ronds de Saint Vincent sur Oust”, o andamento de marcha imposto pelo trombone em “Son ar vot”, construído sobre um texto que fala das eleições numa localidade comunista de Bretanha, a longa e tristíssima balada “Les pêcheurs”, uma “Loudia”, ronda de Loudéac, onde o acordeão rivaliza com a bombarda e os Skolvan tocam, como eles dizem, “a nu”, ou seja, sem convidados…
Dois temas de sentido oposto assinalam os extremos que servem para balizar toda uma atitude: Por um lado, o respeito pelas fontes, traduzido numa gravação de 36 segundos da voz da já citada “Madame Bertrand”, efectuada por Claudine Mazéas em 1959, retirada de um “Gwerz”, o “Gwerz Skolvan”. Por outro, a lucidez crítica, atenta a certos perigos que espreitam sobre a folia das “festoù-noz”, expressa de forma bem humorada na primeira aparte de “La banane dans l’oreille”, um divertimento irlandês na forma de falso “reel” pelo violino e um “bodhran”, a explicar o aparecimento, nos bailes, de uma nova dança, o “cercle circassian”, ou os efeitos de uma “tradição pós-moderna”… “Swings & Tears” é uma entrada directa para a lista dos “melhores do ano”, pelo melhor grupo bretão da actualidade. (10)

NOTA: Já se encontra disponível no mercado português o novo pacote de luxo da Green Linnet para 1994. Nada mais nada menos que novos trabalhos dos Déanta (“Ready for the Storm”), House Band (“Another Setting”), Tannahill Weavers (“Capernaun”), Ingrid Karklins (“Anima Mundi”), Open House, grupo de Kevin Burke (“Second Edition”), e Andy M. Stewart (“Man in the Moon”. Para breve a recensão de todos eles num especial sobre a editora.

Arcady – “After The Ball”

pop rock >> quarta-feira >> 26.10.1994
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Arcady
After The Ball
Shanachie, distri. MC – Mundo da Canção



Uma nova banda irlandesa constituída por veteranos. E que veteranos. Jack Daly, ex-acordeonista dos De Danann, lidera os Arcady, juntamente com a estrela das percussões, Johnny “Ringo” McDonnagh, o “virtuose” violinista Brendan Larrisey, Nicolas Quemenar, nas guitarras, flautas e “tin whistle”, Patsy Broderick, nos teclados, e Frances Black, uma das grandes vozes femininas da Irlanda, irmã da famosa Mary Black, presente neste disco em alguns apoios vocais. Como acontece em grande número de álbuns de música tradicional irlandesa, “After the Ball” intercala as “tunes”, ou seja, as danças instrumentais, com as “songs”, canções. Mostram-se mais fortes os Arcady nas primeiras, não só nos “reels”, em que são especialistas, mas também num par de valsas, uma das quais, “The spinters Waltz”, da autoria de Evan Lurie, dos Lounge Lizards (!). Magníficas as prestações colectivas, indo os destaques individuais – descontando o autêntico festival de tecnicismo e entendimento revelado ao longo de todo o disco por Daly e Larrisey – para o trabalho espectacular nos “bonés” e no “bodhran” de McDonnagh, em evidência logo no tema de abertura, “Hennessey’s”, no qual Patsy Broderick mostra, por seu lado, as suas aptidões no tradicional acompanhamento ao piano. Igualmente para ouvir muitas vezes a combinação flauta-violino-“bodhran” num par de temas da Bretanha, um deles, “Rond de Loudeac”, por coincidência o mesmo que os Skolvan recuperam em “Swings & Tears” e os Arcady transformaram num “reel’bretão”. Frances Black mostra-se impecável, tanto no registo “americanizado” de “The river” como nas tocantes interpretações de “The field Behind the plough”, do título tema – na linha das “Ballroom songs” dos chamados “dias da rádio” incluídas em “The Star Spangled Molly”, dos De Danann – e numa composição de Andy M. Stewart, dos Silly Wizard, “I’d Cross the Atlantic ocean”. Uma última referência para o momento de excepção proporcionado pela vocalização de Nicolas Quemenar (músico francês?) que em “Trois matelots du Port-de-Brest”, outro tema da Bretanha, evoca, nas ornamentações, Gabriel Yacoub. Um clássico. (9)

Yole – “À La Source”

pop rock >> quarta-feira >> 19.10.1994
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A Elegância Acima De Tudo

Yole
À La Source
Several, distri. MC – Mundo Da Canção


Os Malicorne morreram, vivam os Yole. Em França, os Yole tornaram-se os herdeiros legítimos do grupo de Gabriel e Marie Yacoub. Ao contrário dos autores de “Almanach”, que trabalhavam sobre a tradição de todo o território francês, os Yole circunscrevem-se à região de Vendée, situada entre a Bretanha, a Aquitânia e o oceano Atlântico. O que aproxima, porém, os dois grupos é uma idêntica sensibilidade e atitude perante a música tradicional. Atitude que os Yole definem ao considerar a sua música “tradicional progressiva”, ou seja, ainda segundo as suas palavras, “música popular ao gosto da actualidade”. Na prática, isto significa uma música que mistura a ancestralidade e a modernidade. Algo que não é de modo algum novo, havendo disseminados pela Europa uma série de grupos aos quais esta categoria se poderia aplicar perfeitamente (bastando citar os melhores: La Ciapa Rusa, Perlinpinpin Folc, Archetype, Barabàn, Cock & Bull, Vasmalon, Lo Jai, Den Fule, Hedningarna…), mas que nos Yole se faz sentir numa elegância e requinte tipicamente franceses. Como nos Malicorne, a ênfase é posta nos arranjos, no cuidado com que são trabalhados os timbres e as diversas combinações instrumentais, com destaque para as presenças da sanfona e dos sopros de Laurent Tixier e para o violino de Maxime Chevrier. Falta, para já, aos Yole uma voz masculina à altura da de Gabriel Yacoub – tarefa nada fácil de conseguir, diga-se de passagem -, embora as vocalizações de Tixier compensem uma ocasional aspereza com a emotividade. Em relação a vozes femininas, a da convidada Christine Helya é uma maravilha, só é pena ser requisitada tão poucas vezes. Em comparação com o anterior “L’Amour d’Eloise”, “À la Source” é mais variado, apresentando constantes mudanças de ritmo e instrumentação. Mas acontece um pouco o mesmo que aconteceu com os Ad Vielle que Pourra, na passagem do primeiro para o segundo disco: perdeu-se uma certa unidade, dispersa por experiências que, no caso dos Yole, são na generalidade bem sucedidas, como nas sugestões “cajun” de “C’ est une jeune fille”. Talvez “à la Source” não entusiasme tanto como o álbum anterior e exija um maior número de audições para se fazer entender e criar uma relação de intimidade com o auditor. Mas o bom-gosto irrepreensível ao longo de todo o disco e faixas como “La Trimbalerie”, onde a sensualidade da sanfona dá arrepios “L’hiver/Léon Loizeau” ou o épico à maneira dos Malicorne, “Un Soir”, garantem só por si sós uma mão-cheia de delícias. Os Yole abriram um rio entre a memória e o presente e semearam flores nas suas margens. (8)