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Arcady – “After The Ball”

pop rock >> quarta-feira >> 26.10.1994
world


Arcady
After The Ball
Shanachie, distri. MC – Mundo da Canção



Uma nova banda irlandesa constituída por veteranos. E que veteranos. Jack Daly, ex-acordeonista dos De Danann, lidera os Arcady, juntamente com a estrela das percussões, Johnny “Ringo” McDonnagh, o “virtuose” violinista Brendan Larrisey, Nicolas Quemenar, nas guitarras, flautas e “tin whistle”, Patsy Broderick, nos teclados, e Frances Black, uma das grandes vozes femininas da Irlanda, irmã da famosa Mary Black, presente neste disco em alguns apoios vocais. Como acontece em grande número de álbuns de música tradicional irlandesa, “After the Ball” intercala as “tunes”, ou seja, as danças instrumentais, com as “songs”, canções. Mostram-se mais fortes os Arcady nas primeiras, não só nos “reels”, em que são especialistas, mas também num par de valsas, uma das quais, “The spinters Waltz”, da autoria de Evan Lurie, dos Lounge Lizards (!). Magníficas as prestações colectivas, indo os destaques individuais – descontando o autêntico festival de tecnicismo e entendimento revelado ao longo de todo o disco por Daly e Larrisey – para o trabalho espectacular nos “bonés” e no “bodhran” de McDonnagh, em evidência logo no tema de abertura, “Hennessey’s”, no qual Patsy Broderick mostra, por seu lado, as suas aptidões no tradicional acompanhamento ao piano. Igualmente para ouvir muitas vezes a combinação flauta-violino-“bodhran” num par de temas da Bretanha, um deles, “Rond de Loudeac”, por coincidência o mesmo que os Skolvan recuperam em “Swings & Tears” e os Arcady transformaram num “reel’bretão”. Frances Black mostra-se impecável, tanto no registo “americanizado” de “The river” como nas tocantes interpretações de “The field Behind the plough”, do título tema – na linha das “Ballroom songs” dos chamados “dias da rádio” incluídas em “The Star Spangled Molly”, dos De Danann – e numa composição de Andy M. Stewart, dos Silly Wizard, “I’d Cross the Atlantic ocean”. Uma última referência para o momento de excepção proporcionado pela vocalização de Nicolas Quemenar (músico francês?) que em “Trois matelots du Port-de-Brest”, outro tema da Bretanha, evoca, nas ornamentações, Gabriel Yacoub. Um clássico. (9)

Arcady – “Many Happy Returns” + Patrick Street – “Cornerboys” + Trian – “Trian II”

Pop Rock

17 de Abril de 1996
world

A tradição já é o que era

ARCADY
Many Happy Returns (8)
Shanachie

PATRICK STREET
Cornerboys (9)
Green Linnet

TRIAN
Trian II (9)
Green Linnet
Todos distri. MC – Mundo da Canção


arcady

ps

trian

Como é que se “agarra” num novo disco de música irlandesa quando já se tem em casa uma pilha de não sei quantas dezenas (centenas?) de outros da mesma proveniência? Como saborear ainda o prazer de escutar uma daquelas características mudanças que nos provocam um sobressalto na alma, de um “jig” para um “reel”? O apreciador circunstancial destas músicas provavelmente passará ao lado da novidade quando esta não vier rotulada com o carimbo do exotismo. Os “Irish traditional music additcs”, esses já estão de tal maneira mergulhados nos seus pormenores e nos seus segredos que encontrarão sempre nesta música motivos de felicidade. Tendo sempre o cuidado de separar o trigo do joio.
Arcady, Patrick Street e Trian são os três do mais puro cereal. Não é apenas o virtuosismo dos executantes (na Irlanda talvez seja mais difícil encontrar quem não o é do que o contrário…) a estabelecer a diferença entre os mestres e os aprendizes. Nem a escolha de reportório. Sinta-se em vez disso aquela qualidade mágica, apenas ao alcance dos mestres, à qual os britânicos chamam “moving”. De nos fazer mover por dentro, de nos transportar. Os Arcady e os Trian, ambos no seu segundo “opus”, depois das respectivas estreias, “After the Ball” e “Trian”, reincidem na ortodoxia, apurando o “drive” para melhor fazerem passar o calor das danças.
No caso dos Arcady, temperado pelo refrigério das vocalizações da nova recruta (embora veterana do circuito…) Niamh Parsons, que os portugueses tiveram oportunidade de escutar recentemente ao vivo no último Intercéltico. Arrepios garantidos, ao ouvi-la cantar “The rocks of Bawn”. Instrumentalmente, é um mimo, com o violino, o acordeão, a flauta e o “tin whistle” enriquecidos pela companhia do violoncelo, órgão Hammond, órgão de pedais e até um didjeridu, bem como pelos coros dos The Voice Squad, no clássico “The rambling Irishman”.
Os Trian, por seu lado, são um trio liderado pela violinista Liz Carroll, um nome cada vez com mais peso, até como compositora, oriundo da poderosa cena irlandesa com sede nos “states”. Ao lado de Daithi Sproule, nas guitarras e voz (excepcional em “I once knew a little gril”, na posse de todos os argumentos que nos levam a ficar irremediavelmente presos a esta música) e de Billy McComiskey, no acordeão. Ainda com os convidados Ciarán Curran, no “bouzouki” e guitarra, e de alguém que não tínhamos o gosto de ouvir já há algum tempo, Triona Ní Dhomhnaill, no piano, sintetizador e “bodhran”. Indispensável.
Finalmente, os Patrick Street, “superbanda” que periodicamente se reúne para gravar, regressando depois os seus membros aos respectivos grupos em “full time”. Moram na Rua de São Patrício, neste seu quinto trabalho discográfico, Kevin Burke (ex-Bothy Band, actual Open House), violino, Jackie Daly (ex-De Danann, actual Arcady), acordeão, Andy Irvine (ex-Sweeney’s Men e Planxty), voz (a voz!), “bouzouki”, harmónica e bandolim e o novo comparsa escocês Ged Foley, recém-chegado dos House Band, guitarra e gaita-de-foles de Northumbrian.
“Cornerboys” não tem qualquer ponto em comum com a escorregadela estratégica de “Irish Times”, sendo antes a continuação de um trabalho de renovação e sofisticação dos modelos tradicionais, iniciado nos dois primeiros álbuns e retornado no anterior, “All in Good Time”. Vive aqui o espírito dos Planxty, nas vocalizações personalizadas de Irvine (onde nos encontramos quando nos encontramos em “Moorlough shore”?), enquadrado já não nas coordenadas “progressivas” dos anos 70, mas antes com alicerces num estudo comparado das regras e das possibilidades de evolução de uma música que tem dois caminhos por onde escolher. O da mutação noutra coisa qualquer ou o do estabelecimento e aprofundamento do que já várias vezes designámos como “Nova Tradição”. Os Patrick Street vão adiantados no segundo.