BLITZ 21 NOVEMBRO 1989 >> Valores Selados
Como certamente repararam, estive ausente desta página a passada semana. Outros deveres jornalísticos impuseram que me deslocasse à República do Alto Volta para fazer a reportagem sobre os pequenos-almoços de Paul McCartney nessa mesma República.
Mas eis que regresso são e salvo, já refeito do choque McCartney e pronto para mais prosas sobre os «Valores», talvez não tão interessantes como as refeições do ex-Beatle, mas olhem, faz-se o que se pode. Dizia eu então que os Van Der Graaf foram o grupo mais importante da década de 70. Foram sim senhor e Peter Hammill um dos maiores poetas e compositores de sempre da música dita popular. É sobre este senhor que, como tinha prometido, escreverei esta semana. Como o assunto é extenso traçarei a sua história cingindo-me apenas aos discos que, ao longo de duas décadas, Hammill vem brilhantemente assinando. O título deste artigo é:
PETER HAMMILL – PROMETEU AGRILHOADO

Porquê Prometeu? Ora, porque foi esta personagem mítica quem roubou o Fogo Celeste, mesmo nas barbas do Criador. Depois foi castigado, como se impunha. Peter Hammill imitou o herói do mito mas, como Fernando Pessoas bem acentuou, a posse do génio paga-se bem cara. Hammill nunca alcançou a glória que já há muito merece. A sua obra é conhecida apenas por um clube de iniciados, felizmente com cada vez mais sócios.
Peter Hammill é o romântico por excelência. Não no sentido degradado do termo, geralmente associado aos remoques de um Tony de Matos ou, mais modernamente, a um Vítor Espadinha, mas naquele, bem mais elevado, dos poetas do século passado. O genuíno poeta romântico é aquele que enfrenta, numa irremediável solidão, as forças sobrenaturais que o transcendem, sejam deuses ou demónios. No séc. XIX estes paladinos do eterno confronto entre o humano e a condição divina acabavam sempre tuberculosos, apaixonavam-se por rapariguitas andrajosas que invariavelmente tomavam pela Mulher ideal, embebedavam-se e drogavam-se muito e às vezes, por fastio ou verdadeiro desespero, suicidavam-se.
O nosso homem, mais prudente e avisado, escolheu antes escrever canções e gravar discos. As suas angústias existenciais e dilaceramento interior têm sido ótimos pretextos para a criação de alguns momentos decisivos na história dos songwriters ocidentais (mas há outros?). Além de sofredor nato, Hammill é um razoável pianista e guitarrista. Mas é a VOZ que faz a diferença. A voz e a maneira como a utiliza. São únicos e está tudo dito.
Passemos então aos discos e à sua descrição sucinta. Passemos também para um tom mais sério que o homem e a obra assim o justificam.
1971 – (O mesmo ano da edição de «Pawn Hearts») – «Fool’s Mate», em português, «cheque à pastora» aplicado no jogo do xadrez aos mais idiotas ou simplesmente inexperientes. Hammill tem a obsessão do xadrez e é um ótimo jogador sobretudo quando joga sozinho, o que acontece quase sempre. Canções da primeira infância, ainda otimistas como «Imperial Zeppelin» ou «Sunshine», mas otentando já os germes de iminentes dramas interiores. Participa no disco um tal Robert Fripp, o senhor que se segue nos «Valores».
1973 – «Chameleon in the Shadow of the Night». O primeiro clássico. As paranoias em volta do estatuto do rockstar (que Hammill, de resto, nunca foi) em «German Overalls» e «Rock and Role». O fim dos fins, o Apocalipse, interior e planetário, nunca resolvido, nunca redentor, de «In the End» e a grande ode à solidão pintada em tons épicos e desamparados que é «In the Black Room».




















