O mundo de David “fat genius” Thomas não está longe do dos Suicide. O líder dos Pere Ubu construiu uma casa arruinada no coração de uma América amaldiçoada e é de lá que regurgita as suas visões de “paranoid android” iluminado. Um passo em frente e é o abismo. “Surf’s Up” (mais uma dedicatória explícita aos Beach Boys) começa numa fabulosa capa (uma dona de casa psicopata guarda a entrada do rancho) e termina em canções de raiva, manadas em tropel, declamações de “film noir” (“Ghosts”), claustrofobia e… aracnofobia (“Spider in my stew”). No seu disastrodome particular crescem melodias de folk “americana” atormentada, rock & roll em fúria (“Runaway”), andamentos de cowboy tripado (“Night Driving”) e uma marcha fúnebre em que o jazz, clonado nos fabulosos fraseados de trompete de Andy Diagram, naufraga num oceano de manias. E, se querem saber o que existia neste lugar, antes do “blackout”, não percam tempo a consultar os registos, é mesmo o tema “Surf’s Up”, composto por Brian Wilson e Van Dyke Parks em 1971. O medo aconselha a não acreditar que esta América existe de verdade.
Depois de terem voado pelo espaço sideral no álbum anterior, baseado na obra e na figura do astrónomo Tycho Brahe, o duo franco-austríaco de música electrónica Lightwave concentra a sua atenção nas forças telúricas que agitam as entranhas da Terra, desta feita tomando como ponto de partida a obra do monge jesuíta austríaco Athanasius Kircher (1602-1680), ocultista, arqueólogo e estudioso das filosofias da Antiguidade. Kircher passou grande parte da sua vida encerrado nas bibliotecas e Itália, a coleccionar pedras e a decifrar pergaminhos, na procura das leis que regem a Natureza e a harmonia universal.
“Mundus Subterraneus” é o título de uma das suas obras, inspirada na visão de erupções dos vulcões Aetna e Stromboli, cheia de especulações bizarras sobre geofísica, terramotos e vulcões. descida às profundezas do planeta traduzida sonoramente pelos Lightwave numa descida às profundezas do som, queda abismal que contrasta com o registo etéreo de “Tycho Brahe”. “Mundis Subterraneus”, melhor álbum dos Lightwave até à data, mistura, de forma subtil, a electrónica computacional com elementos e música concreta (“Towards the abyss”, “Glissements d’âme”), numa aproximação à estética do Groupe de Recherches Musicales (GRM), de Paris, ao qual estã ligados nomes importantes como François Bayle, Bernard Parmegiani, Jean Shwarz, Daniel Teruggi, Michel Redolfi ou Michel Zbar. “Mundus Subterraneus”, pela relação directa que estabelece entre a construção musical – uma “sombient” imaginativa e bastante mais agitada do que mandam as regras – e os elementos naturais e cosmológicos, pode comparar-se ainda, além de Redolf e Teruggi, a obras percursoras, como “Seastones”, de Ned Lagin, e “erosión”, de Ildefonso Aguilar, ou ainda a alguns dos trabalhos de Jeff Greinke. (9)
Diane Labrosse & Michel F. Côté
Duo Déconstructiviste (8)
Robert Marcel Lepage
La Plante Humaine (8)
Todos Ambiances Magnétiques, distri. Áudeo
Segunda parte do tríptico iniciado com “le Barman a tort de Sourire” e já completado com “L´Âme de l’Object”, “Les Fleurs de Léo” é a peça que faltava do “puzzle”. Nas boas companhias do círculo bem fechado das A. M., Jean Derome, Diane Labrosse, Robert M. LePage e René Lussier, aqui também com a programadora japonesa Ikue Mori, Michel F. Côté confirma uma tendência para a abordagem dos sons da forma menos previsível, com desprezo pelos géneros e no sincretismo de um estilo que amplia a imperfeição e rasga as noções usuais de composição.
Sopros e electrónica, espontaneidade e programação, parasitismo e paisagem, dialéctica de opostos em convulsão permanente. “les Fleurs de Léo” está estruturado em ciclos que evoluem em redor de temas que vão do heróico ao desprezível, numa amontoação de referências que constantemente remetem para memórias e músicas díspares. Côté assume o empirismo como método e a colagem subjectiva como estética. Ele próprio elabora a lista do seu sintonizador particular: Erik Satie (de quem recilca os seus “Sports et Divertissements”), John Cage, Alan Berg, Holger Czukay, Duke ellington, Alvin Lucier, Arvo Part, Witold Lutoslawski, krzysztof Penderecki, Elliott Sharp, Igor Stravinski e Anton Webern. Da combinação destes fragmentos resulta um borbulhar contínuo de ideias e mutações sonoras, numa “efeverscência jovial e criativa” que nasce da improvisação – para Côté, “terreno de investigação perfeitamente lúdico” – em estúdio, necessária ao encontro de “perspectivas oblíquas de acção”. Flores tentaculares.
A mesma estética é reavaliada por Michel F. Côté em duo com Diane Labrosse, elemento das Justine, ex-les Poules e ex-Wondeur Brass, e autora a solo do fenomenal “Face Cachée des Choses” (um dos melhores álbuns do ano passado para o Pop Rock, secção “Fora de Série”). A samplagem (os autores fazem questão de enumerar as fontes: Michel Faubert, Fred Frith, John Oswald, Hans Reichel, entre outros) adquire uma dimensão cinematográfica. A desconstrução obriga, neste caso, a noções rigorosdas de composição. Folclores imaginários, memórias sobrepostas em palimpsesto, ficções emocionais desencontradas, guerras semânticas e morfologias à deriva confluem e desagregam-se num território de alucinações privadas. Jazz electrónico, electrónica do jazz, poesia da anarquia, o que é uma canção? Nada mais do que um sonho, um encadeado de mcantam.
Robert Marcel LePage correu para o lugar mais afastado do habitado por Côté e Labrosse. Anos depois de ter posto os seus saxofones e clarinetes e a suacolecção de artefactos electrónicos avariados ao serviço de um “jazz” saltimbanco, em “La Traversée de la Mémoire Morte”, e completamente “free” em “Chants et Danses du Monde Inanimé”, com René Lussier, Le Page evoluiu para um discurso mais programático, encravado entre um classicismo desvirtuado e a nostalgia da liberdade. “Adieu Leonardo”, a sua obra anterior, e este “La Plante Humaine”, são obras de pendor classicizante (mesmo sinfónico, na sua estrutura geral) que apresentam uma visão de Leonardo da Vinci a partir dos filmes de animação com o mesmo nome realizados por Pierre Hébert, montados como uma “ópera audiovisual”.
Cruzamento do neo-romantismo com o pós-modernismo, da sua estrutura sinfónica com a retórica do “hard-rock” (“Le blaster des kids”, “tsaikomé punk”, “Rock et war”), do “jazz” com a música industrial, das tradições africanas com Edgar Varese, esta “planta humana fonográfica” devolve Robert M. LePage ao país esquecido do arco-íris. Mesmo quando é necessário desbravar uma selva de demónios – Gog e Magog, da faixa 13 – para descobrir o equilíbrio delicado das cores do pintor renascentista.