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Six Organs Of Admittance – “Six Organs Of Admittance”

31.10.2003
Six Organs Of Admittance
Six Organs Of Admittance
Holy Mountain, distri. Sabotage
7/10

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A diferença entre o génio e o louco não é evidente. Ben Chasny, mentor do projecto pouco convencional Six Organs of Admittance, ou é uma coisa ou é outra. Sob uma capa de insondáveis folhagens a negro e prata, albergam-se sete temas sem fronteiras definidas entre o ambiental, o minimalismo e um indisfarçável desequilíbrio mental. “Psicadelismo”, diria o outro!… Senão, como havemos de chamar a “Sum of all heaven”, 17 minutos de arrastamento de órgão marado, ruídos de aparelhagem de som danificada, guitarra arranhada e voz estrangulada? “Shadow of a dune”, com fita a rodar ao contrário (sim, tudo aqui é “lo-fi”), e “Harmonice mundi II”, electrónica “from outer space” e guitarra-numa-nota só, antecedem o “raga” “Race for Vishnu”, manifestação simultânea de uma técnica particular de arrancar sons inusitados à guitarra acústica e de um misticismo pegajoso. “invitation to the SR for supper” é tão impenetrável como a falsa “world” de Lazslo Hortobágyi” e “Don’t be afraid”, a fechar, uma “bad trip” e um aviso. Chasny não é um John Fahey mas o seu delírio tem a virtude de nos desinquietar.

Howe Gelb – Hisser (self conj.)

23.03.2001
Howe Gelb
Hisser
Glitterhouse, distri. Zona Música
8/10
Confluence
Thrill Jockey, distri. Ananana
7/10

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Esqueletos no Armário
Esqueletos no armário. Howe Gelb olha-nos de frente na capa de “Hisser”, pintado de esqueleto “cowboy”, a sorrir no dia dos mortos mexicano. E “Hisser”, estreia a solo (o novo “Confluence” está prestes a sair) do mentor dos Giant Sand – dos quais foi agora editada a colectânea “Selections Circa, 1990-2000” -, bem poderia ter sido gravado num armário, quer pelo tom artesanal, quer pela quantidade de fantasias amarrotadas e suspensas em cabides que encerra. “Lo-fi” captado numa cidade-fantasma (na realidade, as gravações tiveram lugar numa velha casa em Tucson, Arizona, construída no princípio do século passado), sob os efeitos de mescalina estragada, “Hisser” é a sombra espectral desse outro grande viajante americano do escuro que é Neil Young, o reverso das cavalgadas do “cowboy” eléctrico, Stan Ridgway, e um intervalo de embriaguez nas “spoken words” de Lou Reed. Mas é nos interstícios das baladas descarnadas, em sequências e apontamentos instrumentais que remetem para os limites de arranjos “politicamente inaceitáveis”, que “Hisser” guarda os seus segredos mais fascinantes e, já agora, perturbantes.
Um velho piano vertical fabricado em 1888 afogado na cisterna, um órgão de foles dos anos 30 e uma guitarra de 1900, com a caixa em cartão e as cordas lassas (Howe recusou-se a trocá-las por umas novas), ruídos de fundo, e do fundo da noite, vozes descoladas como papel de parede, valsas de pé-quebrado, ecos, becos e subterfúgios agarram-se como lagartos ao verde dos cactos do deserto. Bobines partidas de um filme mudo repetem infinitamente as imagens de um “western” burlesco onde bonecos de corda dançam num salão de baile do princípio do século. Em “Hisser”, a voz, as histórias e os sons trocam de lugar e de tempo (“americana” em Viena?) com a Belle Époque de Pascal Comelade e o sentido de palavras que iludem – “Intro speck” são dez segundos de introspecção, “Thereminender” junta “there” com “mine”, para dar a ouvir um solo de theremin que desaparece num buraco de silêncio. Grandaddy e Lisa Germano são os convidados especiais deste “saloon” de alucinações.
Em simultâneo com “Hisser” surge no mercado português o novo “Confluence”, visão assente nos carris de uma linha férrea apontada para um horizonte que tanto pode conter quimeras, como desembocar na desolação. Os pianos foram de novo esfregados com naftalina, as cordas da guitarra mantêm-se lassas, o órgão de foles continua asmático, a fantasmagoria ganhou uma “phantom drums”, mas, no geral, a música está mais em conformidade com a linha clássica dos “singersonwriters” dos anos 60 (um dos temas foi mesmo gravado em Woodstock…), nomeadamente Neil Young. Howe Gelb segue só numa viagem sem retorno em direcção a uma América desesperadamente à procura de reencontrar os velhos mitos. “In a perfect world you can do what you want/You can say what you will, you can get what you feel/You won´t be misunderstood/If it stars out bad, it´ll end up good/In a perfect world”, canta no tema de abertura. “Poor lonesome cowboy” em luta contra o tempo.

Giant Sand – Chore of Enchantment

16.06.2000
Giant Sand
Chore of Enchantment (8/10)
Thrill Jockey, import. Ananana

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Imagens da América. “Americana”, dizem, derradeira materialização do “sonho americano”. Para Howe Gelb, veterano dos Giant Sand (em trio com Joey Burns e John Convertino, também elementos dos Calexico), a realidade e o sonho confundem-se no magnífico caleidoscópio de mitos americanos à deriva que é “Chore of Enchantment”, enésimo álbum de uma discografia iniciada há cerca de 20 anos. Dedicado a um dos fundadores da banda, Rainer Ptacek, falecido em 1997 de um tumor cerebral, materializa de forma brilhante as alucinações de LSD que em 1976 estiveram na base do encontro de Helb com Ptacek – num bar esquecido, onde tocaram juntos a mesma canção durante 45 minutos. Poderia servir de banda sonora a “Delírio em Las Vegas”, se em vez de Las Vegas o cenário fosse o Arizona. Um mellotron solene, um órgão Hammond B-3 litúrgico, um excerto da ópera “O Elixir do Amor” de Donizetti (a preferida de Ptacek), arremedos de hip-hop, uma “guitarra no estilo de Willie Nelson”, vibrafone, acordeão, guitarras dolentes como o trote de cavalos saídos de um “western”, chuva, os ecos de um salão de baile abandonado, discos antigos de 78 rotações, samples que cosem remendos electrónicos ao pano cru de canções que se agarram à pele e à alma fazem de “Chore of Enchantment” um álbum que retrata de forma superlativa a América que, nos filmes, associamos àquelas oficinas de sucata que emergem no deserto como miragens, enfeitadas se sentido com quilómetros de fios de luzes de Natal. David Byrne filmou estas mesmas “True Stories”, tão verdadeiras como o brilho do espectáculo.