Na linha dos grupos continentais lançados periodicamente no “circo” à cata de dividendos, os alemães Camouflage surpreendem no bom e no mau sentido. O trio constituído por Marcus Meyn, Oliver Kreyssig e Heiko Maile, chegado ao terceiro álbum (após “Voices & Images” e “Methods of Silence”, ambos bem sucedidos em termos de vendas na Europa e nos Estados Unidos), não consegue libertar-se de uma série de óbvias influências, ao ponto de por vezes se tornar difícil distingui-los dos originais. Mas, e aqui radica o lado positivo da questão, embora destituídos de identidade própria, os Camouflage conseguem surpreender pelo apurado sentido melódico e pela criação, ao longo dos 12 temas que compõem o disco, de ambientes “techno pop” suficientemente sugestivos para uma fruição descomplexada por parte do auditor. Assim, “Mellotron”, “Mother” ou “Handsome” poderiam fazer parte de qualquer disco dos Depeche Mode, sem que se notasse a diferença. “These eyes”, “Waiting”, “Bitter sweet” e “Spellbound” passam facilmente por temas dos Japan, a tal modo a voz se parece com a de David Sylvian. “Heaven (I want you)” não destoaria ao lado de outras canções dos Orchestral Manoeuvres in the Dark. Agora que o Verão se aproxima, não são de desperdiçar futilidades tão agradáveis como esta. ***
Legenda
. Imperdoável
* Mau Mau
** Vá Lá
*** Simpático
**** Aprovado
***** Único
(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
19 Setembro 2003
MONOTON
Monotonprodukt 07 20y++
Oral, distri. Matéria Prima
8|10
Alerta! “Monotonprodukt 07 20y++” é a reedição, revista e melhorada, de um clássico da eletrónica dos anos 80. Criado em 1985, pelo austríaco Konrad Becker, “Monotonprodukt 07” (assim se intitulava então) é um dos esteios da transição da estética “krautrock” dos anos 70 para a eletrónica industrial dos 80, posteriormente reapropriada pela geração pós-tecno dos 90. A “Wire” integrou este álbum na lista dos 100 “mais importantes e ignorados” do séc. XX. A música é minimalista, apoiada em programações artesanais e caixas de ritmo monolíticas que tanto fazem lembrar os franceses Heldon e Spacecraft como os D.A.F. ou uma aliança sinistra de clones-zombies dos Tangerine Dream com os Suicide. Tal e qual uma sessão de hipnose destinada a enviar-nos para o fundo do poço dos nossos medos, é definido no livrete como uma “experiência física da vibração e do ritmo, construída sobre frequências audíveis ou inaudíveis, e estruturada segundo padrões matemáticos” ou ainda, mais de acordo com o que os sentidos provam e não receiam, “uma massagem de ondas sonoras”. Ideal para lobotomias sem dor.
(público >> y >> pop/rock >> artigo de opinião / crítica de discos)
1 Agosto 2003
capa
Kraftwerk
No tour da pop eletrónica
São os recordistas no “tour” da pop eletrónica. Mas “Tour de France Soundtracks” escapa à justa do carro-vassoura. Os homens-máquina regressaram.
O “Tour de France” terminou há dias com a 5ª vitória consecutiva do ciclista norte-americano Lance Armstrong. Os germânicos Kraftwerk não podiam desperdiçar a oportunidade para, uma vez mais, celebrarem o triunfo do homem-máquina.
Adeptos incondicionais do ciclismo, sabendo-se que um dos seus membros fundadores, Ralf Hütter, é mesmo colecionador e perito em bicicletas, encontraram na simbiose ciclista/bicicleta o perfeito exemplo dessa identidade entre o biológico e o orgânico que laboriosamente têm vindo a construir desde que, em 1974, puseram a rolar as suas roldanas embebidas em ácido desoxirrinbonucleico em “Autobahn” – auto-estrada musical cujas placas de sinalização apontariam para uma das principais direções que conduziria a pop até ao presente.
“Tour de France, Soundtracks” (disponível a 4 de Agosto), composto por originais e versões do primeiro “Tour de France”, apura o conceito de homem-máquina, cujo desenvolvimento se processou através de fases de montagem prévias – “RadioActivity”, “Trans Europe Express”, “The Man-Machine”, “Computer World” e “Electric Cafe”. Os títulos do novo disco alternam entre a análise do humano (“Vitamin”, “Elektro Kardiogramm”, “Regeneration”), da máquina (“Aerodynamik”, “Titanium”) e das “performances” obtidas da fusão entre ambos (as três “étapes” do “tour”, “Chrono”). A entidade mutante unificada é observada à lupa em “La forme”.
Homem-máquina, “the man-machine”, um novo corpo originado da fusão entre os neurónios e o “chip” (o “bio-chip”). Carne, plástico e metal. Pensa-se em filmes como “A Mosca” e “Crash”, de Cronenberg, pelo lado humano e existencialista, em “Tron” ou em “Matrix”, na perspetiva da inteligência artificial.
atenção: obras. Mas se a tecnologia parece ocupar o lugar central na obra demiúrgica dos quatro de Düsseldorf, é interessante verificar até que ponto os seus dois principais operadores, Ralf Hütter e Florian Schneider, optaram desde o início por uma abordagem artesanal, ou minimalista, do som eletrónico. Ao invés de complexas produções, os Kraftwerk preferiram a mesma diretiva do “less is more” posta em prática pelos Can, na sua “trip” de transe universal – uma concentração implosiva dos meios tecnológicos postos ao serviço da máxima simplicidade musical.
Antes, porém, do andróide e do robô, os Kraftwerk rodearam-se de quinquilharia, fios, lâmpadas e metal ferrugento, para construir o homem de lata, o autómato das fitas de ficção científica de série Z.
Em “Tonefloat” (1970), que constitui a estreia discográfica da dupla, ainda sob a designação Organisation, a música é uma cacofonia com pretensões psicadélicas de sons eletroacústicos diretamente inspirados em Stockhausen. “Kraftwerk” (1970) e “Kraftwerk 2” (1972), com os pinos de sinalização na capa, deram início às obras. O som de guindastes e escavadoras, ferro em brasa, cimento e martelo-pilão. Metal já a chocar contra o metal, a fazer faísca e a exigir máscaras de proteção. Obras violentas, mais próximas do rock industrial e da música concreta do que da pop ou do rock, permanecem como exemplos do melhor “krautrock” da região industrial da Alemanha, a par dos Cluster e dos Neu!. Com uma ponta de humor: Julian Cope, no seu livro “Krautrocksampler” define uma das faixas de “Kraftwerk” como “os Stooges na Toys’R’us”.
“Ralf and Florian” (1973), mostra na contracapa uma foto da dupla rodeada de néons e instrumentos musicais. Álbum de transição, inclui uma “clusteriana” música de baile e uma sinfonia ambiental de cristais e ananases, “Ananas Symphonie”, que é provavelmente o refresco de ácidos mais refrescante a alucinogénico que o “Krautrock” destilou. A obra máxima seria editada no ano seguinte e tem por título “Autobahn”, “Auto-Estrada”. Depois dela, a pop mudou. O longo tema de abertura é a banda sonora, via auto-rádio sintonizado nas estrelas, de uma viagem de automóvel pela auto-estrada. No entanto, cuidado com as cabeças: as auto-estradas alemãs permitem velocidades que as portuguesas nem imaginam. O “wahn wahn wahn” do refrão soa como o “Fun fun fun” dos Beach Boys, fonte inesgotável de inspiração, num álbum de tração às quatro rodas que pôs os sintetizadores a cantar e os “tops” em polvorosa. As duas “Kometenmelodies” finais desenham um arco-íris de beleza estonteante no espaço sideral. Antes de darem ao pedal, os Kraftwerk lançavam-se em quinta velocidade num Mercedes rumo ao futuro. Mas foram os álbuns seguintes, “Radio-Activity” (1975), “Trans Europe Express” (1977), “The Man-Machine” (1978) e “Computer World” (1981) que transpuseram para a música a noção de miniaturização e máxima potência que caracterizou a indústria informática no último quarto de século e, consequentemente, a música eletrónica, sempre dependente dos avanços da tecnologia. Os Kraftwerk foram o “Pocket calculator” da pop eletrónica do século XX, resta saber se lhes caberá ainda algum papel no século que agora se inicia.
ohm sweet ohm. Entremos porém, com a devida autorização, no estúdio Kling Klang, onde os germânicos têm arrumados os seus fornos alquímicos de raios laser. Há esquemas e fórmulas colados nas paredes. Não é só a ligação dos nervos do homem a circuitos elétricos artificiais que interessava à dupla alemã. O cérebro pensa e ordena: viagem, comunicação, forma e substância, energia, transmissão/receção. “You are the transmitter, I am the antenna” é um dos “slogans”, tão divertidos como acutilantes, proclamados no álbum “Radio-Activity” (1975). E “when airwaves swing, distant voices sing”. “Radioland”, “Airwaves”, “The voice of energy”, “Radio stars”, “Uranium” e esse fabuloso trocadilho que condensa a fusão entre a espiritualidade tradicional e a energia das novas divindades-eletrões: “Ohm sweet ohm”. Dentro de um contador Geiger, fervilha um microuniverso de fantasias hollywoodescas. O mundo de máquinas dos Kraftwerk é uma Dysneylândia quântica de Pinóquios que se divertem a entrelaçar os fios de força de um campo unificado. A música é simétrica, mas os seus demiurgos apresentam-na como número de circo.
Se “Radio-Activity” ilustra a propagação da radioatividade e, deste modo, prepara a mutação, física e psicológica da Europa, “Trans-Europe Express” é a viagem de comboio que modificou o imaginário pop do Velho Continente. Um dos passageiros chamava-se David Bowie e saltou em andamento a tempo de gravar a “trilogia de Berlim” – “Low, “Heroes” (o tema “V-2 Schneider” é uma dedicatória a Florian Schneider) e “Lodger”. Sem este álbum seminal, já se sabe, nem a pop eletrónica nem a música de dança seriam o que são hoje. Sobretudo a tecno, a “house” e o eletro viciaram-se na batida totalitária – mas tão romântica – de “Europe endless”, “Metal on metal”, “Franz Schubert” e “Endless”. A repetição, a produção em série, a viagem circular sem princípio nem fim (o logótipo de “Europe endless” é um círculo fechado em forma de pauta). O super-homem nietzscheano espreitava na esquina. “Radio-Activity” e “Trans-Europe Express” retratam as novas formas de comunicação (“Electric Cafe” reconheceria a sua falência, como nessa trágica interrupção telefónica que é “The telephone call”). Outro filme, “Ao Correr do Tempo”, de Wim Wenders, não filma outra coisa. O digital vinha a caminho.
“The Man-Machine” é o emblema. Os kraftwerk desistem de uma vez do invólucro de pele e transformam-se em robôs. A bordo de uma máquina de realidade virtual, saltam para o espaço, evocando em temas como “Spacelab”, “Metropolis” (evidente a conotação com o filme de Fritz Lang) e “Neon Lights”, uma versão cibernética da valsa de Strauss em “2001-Odisseia no Espaço”, de Kubrick. “We are the robots” passaria a ser a declaração de identidade que jamais abandonariam.
“The Man-Machine” é o espaço exterior. “Computer World” mergulha no interior de um “chip” para revelar a realidade observada e filtrada através de um monitor. Aqui a comunicação é já a das máquinas e entre as máquinas, processada através de sinais linguísticos e números codificados (“Numbers”). “Computer world”, “Computer love”, “Home computer”. Somos nós, a olhar de dentro do PC, com os olhos muito abertos de espanto. “It´s more fun to compute”? Cada um que digite a resposta que mais lhe convier.
No último capítulo relevante da história dos Kraftwerk, “Electric Cafe” assume-se como uma paródia ao universo criado pelo grupo. Paródia extensiva à pop eletrónica, ou tecnopop, de que eles próprios foram os criadores. “Boing boom tchak”, ou as onomatopeias da idiotia levadas com um “smile” para as “dance floors”. Faltava apontar o rato e carregar em “desligar”. E ficar de parte a observar o curso dos acontecimentos. “The Mix” seria mera operação de limpeza e diversão e “Tour de France”, na presente versão longa-duração, contenta-se em ser uma deslizante manobra de “charme”, umas vezes em cura de sono “chill-out”, outras bem-humorada, à maneira dos Telex, grupo belga que, paradoxalmente, foi a versão mais fiel e clownesca do original Kraftwerk.
Como dois respeitáveis anciãos, Ralf Hütter e Florian Schneider passeiam-se hoje de bicicleta pela Baviera florida, observando o cenário de florestas, nuvens e montanhas com a placidez de turistas na reforma. Se com uma íris biológica ou através de lentes biónicas, eis o enigma que eles próprios fazem questão de não esclarecer.
KRAFTWERK
Tour de France Soundtracks
EMI, distri. EMI-VC 6|10