June Tabor – “June Tabor, Em Lisboa, Braga E Porto – ‘Basso Profondo'” (concertos)

Cultura >> terça-feira >> 02.03.2019

June Tabor, Em Lisboa, Braga E Porto
“Basso Profondo”

Na sua terceira apresentação em Portugal, as circunstâncias estiveram por fim à altura da cantora. June Tabor, mais do que desenrolar um reportório, criou um ambiente. A sala do teatro S. Luiz encheu-se de silêncio para escutar a sua voz grave cantar canções de amor e desencanto.



Sexta-feira à noite, no velho recinto do Chiado, em Lisboa, aconteceu finalmente a consagração de uma grande cantora, após as más condições com que foi recebida nas duas anteriores visitas ao nosso país, no mesmo ano, 1991, no Folk Tejo e na Festa do “Avante!”. O som esteve perfeito e a assistência, que encheu pouco mais de metade da sala, soube sintonizar na frequência adequada. A voz e a música de June Tabor fizeram o resto. Decerto, também ontem em Braga. O Porto recebe a cantora esta noite, no Rivoli.
Música que exige silêncio e concentração absoluta, não admitindo transgressões nem falhas de atenção. Semelhante à superfície de um lago, pode ser espelho e pode ser lente. Mas é necessário que as águas estejam calmas e planas se quisermos ver, além da imagem reflectida, o fundo.
A voz falou devagar, preocupada em tornar compreensível cada palavra, cada história encerrada no coração das canções. Uma voz grave, sem mácula nem rugosidades que, pela vibração, irradia directamente do centro, com a profundidade de um oráculo. June Tabor foi sacerdotisa de um magistério iniciado há longos anos no templo das músicas tradicionais e finalmente depurado em escolas e linguagens contemporâneas.
Oficiou logo de início com a tradição, em “Month of January”, que deu o mote a todo o concerto: solenidade, contenção, centrados numa figura franzina, vestida de negro, de mãos caídas ao longo do corpo em pose hierática. Esfinge. June Tabor lembra essa figura ocultadora e reveladora de segredos. Por detrás da imobilidade, e através dela, arde uma chama, invisível aos olhos de quem não souber romper o véu das aparências.
June Tabor não cantou “All tomorrow’s parties”, o clássico de Lou Reed e dos Velvet Underground que a voz de Nico imortalizou – esse lado de tragédia que também habita em si, mas que na sua voz é redimido. June Tabor dobrou o Cabo das Tormentas e optou pela serenidade da maioria dos temas que integram o seu disco mais recente, “Angel Tiger”: “Hard Love”, “All our trades are gone”, “Sudden Waves”, “The doctor calls” (de Ian Belfer, dos Oyster Band, cuja ambiência sinistra comparou ao “film noir”), “All this useless beauty” (Elvis Costello) e “10 000 miles”.
Cada tema foi antecedido de uma curta explicação, dita em voz baixa de maneira a reforçar o tom de intimismo que caracterizou o concerto. “Esta é uma história de amor que acaba mal”. O estilo de histórias que disse gostar mais de cantar mas que ela própria, com quase imperceptível ironia, desmistificou comentando várias vezes no final de cada canção: “Afinal esta tem um final feliz! Estranho, não me estou a reconhecer!…”. “Game keepers”, em interpretação “a capella”, dedicou-a ao “homem” que ama, o seu cão Flynn (em homenagem a Errol Flynn…), inveterado bebedor de cerveja Guiness. O standard “I’ve got you under my skin2, de Cole Porter, dedicou-o igualmente ao amigo canino. Distanciação. Um sorriso de mil rostos, a sugerir enigmas.
Momentos altíssimos, viveram-se sobretudo nos duetos mantidos com o piano de Huw Warren, de longe o melhor instrumentista da noite: “You don’t know” e “Sudden waves”. A Mark Emerson, violino e viola de arco, e Marl Lockheart, saxofones, foi deixado espaço para brilharem no compasso emaranhado de um tradicional da Bulgária, “Rucenista”, (deu para perceber que não são búlgaros…) e em duas polkas tradicionais igualmente mal aproveitadas. O segundo solou, esforçado, no sax tenor, em “I’ve got you under my skin”, tema que serviu ao mesmo tempo para mostrar não ser este, em definitivo, o campo onde a voz da cantora se sente mais à vontade.
“Dogs of Money”, de Richard Thompson e os tradicionais “Mount and go” e “10 000 miles”, subiram alto numa actuação que nunca chegou verdadeiramente a tocar a terra. “Retreat”, outra composição de Richard Thompson, trouxe para o S. Luiz o espectro da diva desaparecida, Sandy Denny. Um único “encore”, “Light Dragon”, encerrou o ciclo de luz. Com a chave do silêncio. No intervalo, alguém da assistência comentara: “Esta mulher tem qualquer coisa de comovente!”

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