Arquivo mensal: Abril 2025

J. J. Cale – “Closer To You”

pop rock >> quarta-feira >> 06.07.1994


J. J. Cale
Closer To You
Virgin, distri. EMI – VC



Os lobos velhos não morrem. Apuram o faro e a atenção, tornam-se mais discretos e eficazes na caça. J. J. Cale, 55 anos, “Poor Lonesome cowboy” eternamente em deambulação pelas longas planícies norte-americanas, saiu da sombra com um novo álbum de sabor a frutos e quente como o deserto. É o balanço, a descontracção apaixonada, a viagem numa Harley Davidson até às fronteiras de um “swing” carnudo e palpável. “Closer to you” começa de forma fabulosa, com uma série de “mantra tunes”, como o seu autor lhes chama, que lembram os metrónomos de carne dos Can (como em “Slower baby”, o melhor tema do disco, com um vibrafone-navio a navegar até ao fim de todos os verões), que alguém suavizou de modo a entrarem em sintonia com a lassidão doce dos Dire Straits. Navegando por águas moderadamente agitadas, onde se avistam, ao longe, Neil Young e os Z. Z. Top, a música de J. J. Cale nunca se impõe, preferindo seduzir como uma amante de noites estreladas de areia. A preferência pelo acústico e pela captação espontânea em detrimento de arranjos supersofisticados não obsta a que, em várias canções, J. J. Cale se safe da melhor maneira apenas com a sua guitarra e uns poucos aparelhos electrónicos: um Digitech (antigamente, era o Vocoder) a diluir a voz em “Closer to you”, um velhinho sintetizador Kurtzweil como instrumento de composição em “Hard love”, uma caixa de ritmos entorpecida pelo calor em “Brown dirt”. É verdade que, a partir de certa altura, se perde um pouco o balanço e as canções se deixam confortavelmente cair num tom “sultans of swing” de audição agradável mas menos convicta a arrastar a atenção. Mas nunca desaparece aquela sensação de embalo, de flutuarmos à deriva num bote sob um céu de algodão. “Down by the river”, como cantava Brian Eno. Antes e depois da ciência. (7)

Hunters & Collectors – “Cut”

pop rock >> quarta-feira >> 06.07.1994


Hunters & Collectors
Cut
Mushroom, distri. BMG





Da Austrália é sempre de esperar o inesperado. Não é só cangurus, “boomerangs”, deserto e aborígenes. O rock ‘n’ roll vive – e de que maneira – no continente perdido. Até porque não deve haver lá muito mais cosias para fazer. Os Midnight Oil são uma das boas bandas australianas de rock. Os Hunters & Collectors, pese embora toda a boa vontade da promoção em provar o contrário, são uma das menos boas. Como os Midnight Oil, os Hunters têm preocupações políticas e fazem gala nisso. O problema é que não deve haver muita gente interessada em ouvir as suas opiniões. Para tal, seria preciso haver um veículo eficaz: boas canções e uma forte dose de originalidade. Cisas que, mesmo levando em conta a veterania do grupo, os Hunters & Collectors não têm. Limitam-se a tocar com competência e a fazerem umas demonstrações das possibilidades do estúdio, mas, por mais que se esforcem, não conseguem sair da mediania. Há certamente uma lição a tirar de “Cut”: “Se queres que respeitem os teus sonhos não tomes comprimidos para dormir.” Não faz sentido? A música dos Hunters & Collectors também não. (4)

António Ferro & Wong On Yuen – “Sinais de Yuanju”

pop rock >> quarta-feira >> 06.07.1994


António Ferro & Wong On Yuen
Sinais de Yuanju
Kazumbi



Projecto interessante do baixista e líder dos KAF, que após a incursão, com o quinteto, na música tradicional portuguesa aposta agora no diálogo desta com a música tradicional da China. “Sinais de Yuanju” é espartano na forma a confina-se ao essencial de conversas travadas entre o baixo eléctrico e o violino chinês eh-ru. Embalado num livreto apresentado com um cuidado gráfico impressionante e contendo informações em português, inglês, chinês e japonês, a aproximação entre duas culturas com traços comuns processa-se de forma nem sempre destituída de conflitos.
Ferro, como faz notar, e bem, José Duarte, autor do texto introdutório a este trabalho, toca o baixo eléctrico como uma guitarra. A sua prestação raramente se contenta em ser mero apoio para as improvisações do violino, preferindo antes um discurso narrativo que ocasionalmente pode soar algo intrusivo. Wong On Yuen mostra, por seu lado, uma razoável sensibilidade Às estruturas dos temas tradicionais portugueses – arranjados por Ferro -, em particular em temas como “Vira do Minho” e “Corridinho ao de Leve” e nas notas mais melancólicas do fado, em “Fado da amargura” e “Perguntaram-me pelo fado”, este último composto pelo baixista. Este tema, juntamente com “Camponês alentejano” – em que o eh-ru dir-se-ia tirado dos Incredible String Band – e o jogo rápido a quatro mãos de “Scalabitur” e “Infante”, também da autoria de Ferro, constituem os momentos mais belos do álbum.
“Sinais de Yuanju” tem o apelo das coisas simples que os orientais tanto prezam e os portugueses cultivam como um divertimento. Conversa íntima, solidão partilhada a dois. Como a dos belos versos de Ruy Belo que ilustram “Camponês alentejano”: “A solidão da árvore sozinha / no campo de Verão alentejano / é só mais solitária do que a minha / e teima ali na terra todo o ano / quando nem chuva ou vento já lhe fazem companhia / e o calor é tão triste como o é somente a alegria / eu passo e passo muito mais que o próprio dia”. (7)