Arquivo mensal: Outubro 2023

Alan Vachier + Jonathan Miller + Fred Mergner – “A Grande Evasão” (dossier)

pop rock >> quarta-feira, 17.03.1993
DOSSIER – A GRANDE EVASÃO

Contém textos de Luís Maio, Jorge Dias e Fernando Magalhães.
Aqui apenas apresentamos os deste último.

Alan Vachier, Agente Musical
“NÃO VIM PARA CÁ PARA TIRAR O PÃO DOS PORTUGUESES”

Nutre especial predilecção pela música tradicional portuguesa. Não espanta portanto que este marselhês, de 40 anos de idade, seja agente de vários artistas nacionais desta área musical. Alain Vachier chegou durante os anos áureos da MPP – Música Popular Portuguesa. Hoje acha que está tudo mais parecido com a França.



Há poucas semanas, Alain Vachier levou a Ronda dos Quatro Caminhos, um dos vários nomes que agencia, ligados à música portuguesa de raiz tradicional, ao Teatro de São Luiz, em Lisboa, Júlio Pereira, Cantaril, D’Age e o novo grupo Quadrilha, que acaba de lançar no mercado a sua estreia discográfica, o álbum “Contos de Fragas e Pragas”, fazem também parte do lote de artistas de que é empresário. No fundo, a continuação de amizades antigas, do tempo em que participou na formação da Cooperativa Era Nova, em 1978, fruto do conhecimento que tinha com Sérgio Godinho, Francisco Fanhais e Camilo Mortágua. Datam dessa altura alguns espectáculos levados a cabo com José Afonso, Fausto e Vitorino, entre outros artistas da MPP. Residência fixa em Portugal, só a partir de 1983. Trabalha numa agência com nome próprio desde 1988.
O gosto pela música tradicional portuguesa nasceu na época em que trabalhou com José Afonso. “Mesmo quando se trata de um grupo de rock [caso dos Essa Entente, também agenciado por Aain Vachier], há sempre qualquer coisa que tem a ver com a música tradicional”, diz. Da parte dos seus colegas de profissão de nacionalidade portuguesa, não sente qualquer tipo de animosidade: “Não tenho problema nenhum. Fui logo de início bem recebido. É algo que depende da maneira de estar de cada um.” “Não vim para cá para tirar o pão dos portugueses”, ironiza, “à partida é muito mais fácil quando o objectivo não é ser ganancioso, seja qual for o motivo.”
Em França, Alain Vachier era capaz de ganhar mais, só que por cá encontrou “outros pólos de interesse”, embora faça notar que “há a tendência para as coisas se parecerem cada vez mais coma França: antes demorava dez minutos para chegar à Caparica”, garante, “hoje demoro três quartos de hora…”. Mas Alain Vachier acaba por reconhecer, de novo com ironia que “há menos buracos e até já existe uma auto-estrada para o Porto…”. Lamenta, por outro lado, que o progresso tenha acabado com “um certo convívio que existia entre as pessoas, mais simpático e menos barulhento do que agora”. Pese embora as ligações fortes que mantém com Portugal, Alain Vachier não pensa para já naturalizar-se português: “Para mim, não é muito importante a nacionalidade…”

Jonathan Miller, Engenheiro De Som
“ELES SABEM COISAS QUE EU NÃO SEI, EU SEI COISAS QUE ELES NÃO SABEM”



Inglês, 33 anos de idade, “free lancer”, divide actualmente o seu trabalho entre Londres e Lisboa, onde vive de há dois anos para cá, numa casa alugada. Adepto da originalidade e da organização, diz que não pretende impor um som mas antes ajudar os músicos portugueses a concretizarem as suas próprias ideias.

Entrou há cerca de dois anos no estúdio particular dos Delfins, com os quais se encontra a trabalhar na gravação do próximo álbum da banda, um triplo álbum a editar ainda este ano pela BMG. Entre o currículo deste súbdito de sua majestade, no nosso país, contam-se a gravação e mistura e pós e co-produção de vários discos para a Polygram, editora a que esteve ligado anteriormente e onde desempenhava as funções de técnico permanente no Exit estúdio, de artistas como os Repórter Estrábico, Golpe de Estado e Capitão Fantasma.
A saída das hostes da Polygram coincidiu com o trabalho de pós-produção no segundo álbum dos Resistência, “Mano a Mano”, de parceria com Carlos Maria Trindade. Com os Delfins já tinha colaborado antes, na mistura do máxi “Se eu pudesse um dia”. Em Londres Jonathan Miller mexe nos botões da consola dos CTS studios, vocacionado para a gravação de bandas sonoras. É o produtor dos Workshy, banda que está a ter alguma projecção no Japão.
Jonathan Miller veio a Portugal pela primeira vez para produzir um disco de um artista francês. Depois ficou porque gostou, na generalidade, da música e dos músicos portugueses. “E eles gostaram de mim”, acrescenta. Agora viaja constantemente entre Portugal e Londres, já que é na capital inglesa que, diz, “é possível estar a par das mais recentes tecnologias de gravação, que não cessam de se transformar e melhorar”. Depois, em Portugal, tenta aplicar as técnicas e ensinamentos entretanto aprendidos. As diferenças existem. “Em Inglaterra é possível alugar em qualquer altura um aparelho de tecnologia avançada, o que por enquanto não acontece em Portugal”. Apesar das diferenças, acha que os estúdios portugueses estão a tornar-se progressivamente “mais competitivos”, o que, por outro lado, “permite aos músicos um nível de exigência e de expectativas mais elevado”.
Músicos portugueses nos quais nota uma “sensibilidade e estética diferentes, no sentido rítmico e na atitude melódica, muito influenciada pela língua”. Sem ser possível, por enquanto, atingir os níveis de qualidade média das gravações estrangeiras, o engenheiro de som inglês procura sobretudo “não interferir com as ideias dos músicos”, tentando, com os meios postos à sua disposição, “ajudá-los a obter o som pretendido”. “Tentar que uma banda rock portuguesa parela americana é estúpido”, conclui.
Da parte da concorrência portuguesa, Jonathan Miller não tem dúvidas em afirmar que há quem não o olhe com bons olhos. Mas isso “depende das pessoas serem mais ou menos abertas de espírito”. A solução, diz, passa pela comunicação entre todos: “eles sabem coisas que eu não sei, eu sei coisas que eles não sabem…”. “É uma área onde se torna necessário criar uma associação”, acrescenta, “para que possa haver discussão e troca de ideias”. Para já Jonathan Miller procura ajudar a desenvolver aquilo que julga ser o melhor da música em qualquer parte do mundo: “a originalidade, o entusiasmo dos músicos e muito trabalho”. E a “disciplina e organização sem as quais não é possível gravar um bom disco”. “Devia haver mais ligação e interacção entre todas as pessoas ligadas ao som e à música”, desabafa, “que sentido faz haver ciúmes?”

Fred Mergner, guitarrista
RESISTÊNCIA VIA DELFINS



Nasceu na região da Floresta Negra, no Sul da Alemanha. Chegou a Portugal em meados da década de 70, tendo residência no nosso país desde 1977. Do acordeão, da trompete e da harpa, passou, aos 19 anos de idade, para a guitarra, instrumento no qual se notabilizou. É actualmente solista nos Resistência, dos quais faz parte desde 1991. Antes de integrar o actual supergrupo da música pop portuguesa, Fredo Mergner fez o chamado “circuito dos bares”, integrou uma formação dos Bluejeans e apareceu em vários programas de televisão, um deles ao lado de Mike Sergeant, além de ter participado em festivais de jazz em Portugal, nomeadamente o de Cascais.
A entrada nos Resistência processou-se via Delfins, com cujos membros se encontrou pela primeira vez no Pão de Açúcar de Cascais. Actuou depois ao lado desta banda, na qualidade de músico convidado, num concerto realizado no Pavilhão Carlos Lopes, em 1991, no tema “O meu quarto”. O seu estilo, muito próprio, de tocar guitarra não passou despercebido de Pedro Ayres Magalhães que, finalmente lhe fez o convite oficial para ingressar no projecto Resistência.

The Kinks – “Scattered”

pop rock >> quarta-feira, 03.03.1993
CD-SINGLES


The Kinks
Scattered
Columbia, distri. Sony Music


Os heróis não morrem e os Kinks aqui estão para o provar. Sobreviveram a três décadas de modas sem que a sua energia se tenha esgotado. Ray e Dave Davies, nos tempos áureos, depois só o primeiro, tornado único portador do estandarte. Os Kinks representaram nos anos 60 o supra-sumo do movimento “mod”. O seu líder, Ray Davies, inglês até à medula, mostrou ser mestre na dissecação dos vícios e tiques do reino de sua majestade, em canções que ficaram para a história: “Waterloo sunset”, “Death of a clown”, “Wonderboy”, “Lola”, “Apeman”, “Victoria”, entre outros. “Arthur, or the Decline and Fall of the British Empire”, chamou a um dos álbuns. Hoje, a mística de outros tempos deixou de existir, substituída pelo profissionalismo. As sobras, mesmo assim, não são de desprezar. Ray Davies continua com a voz afinada, adeptodo rock ‘n’ rol e atento a um passado brilhante, de que é exemplo a versão actualizada de “Days”, um original de 1968, aqui incluída. Antes tinha outra força. (6)

The Tsinandali Choir – “Table Songs From Georgia”

pop rock >> quarta-feira, 03.03.1993
WORLD


The Tsinandali Choir
Table Songs From Georgia
CD Real World, distri. Edisom



Apanhados desprevenidos, podemos ser levados a pensar que estes coros masculinos da Geórgia, – república do Cáucaso que fez parte da antiga União Soviética – são uma espécie de contrapartida de barba e bigode dos seus congéneres femininos da Bulgária. Puro engano. As vozes búlgaras falam com Deus, enquanto as vozes da Geórgia falam com o vinho. Ou talvez se trate de duas formas diferentes de contacto com a mesma divindade. A própria designação do coro, traduzida por uvas, significa um tipo de casta da qual se extrai um delicioso vinho muito apreciado na região. Na raiz de tanta devoção está uma cruz, feita de ramos de videira, que Santa Nina trouxe para a Georgia como forma de aí instaurar o Cristianismo. Assim, esta religião trouxe xonsigo o culto do vinho. O coro Tsinandali é especialista nas chamadas “canções de mesa”. No Ocidente chamamos-lhe brindes, mas na Geórgia não se brinca em serviço. Um homem, o líder, o “tamada” é escolhido para organizar o ritual. Deve ser alguém com forte resistência ao álcool. Um “tamada” embriagado é considerado uma humilhação e uma ofensa. O ritual é como segue: em frente ao fogo, cloca-se uma mesa imensa, coberta de todos os ingredientes necessários à libação. Depois, conforme a ocasião (baptismo, casamento, enterro), o “tamada” vai fazendo sucessivos brindes, enchendo e emborcando de cada vez um recipiente de vinho, de preferência um corno de boi ou de carneiro. Em seguida, volta a encher o corno e passa ao do lado, e assim sucessivamente, até se atingir a euforia, acompanhada de danças e cantoria. A audição destes cantos polifónicos dá contudo a impressão de que os membros do coro estavam sóbrios na ocasião da gravação, o que retira algum do seu impacte. São cânticos solenes, onde se adivinha a influência de Dyonisos, mais do que a de Baco (há quem diga que são o mesmo deus, nas versões “escançaõ” e “com a boca na botija”, respectivamente). Se tomados à letra (não necessariamente num corno, qualquer caneca serve), podem levar à elevação e posterior ressaca. Goste-se ou não, ninguém diga porém “desta música não beberei”! “Georgia on my mind”, hip, hip, hurra!. (7)