Arquivo mensal: Janeiro 2023

UHF – “UHF Deixam a Edisom” (notícia)

Secção Cultura Quarta-Feira, 13.03.1991 (Notícia)


UHF Deixam a Edisom

Está tudo acabado entre os UHF e a Edisom, na altura em que estava prestes a findar o contrato de três anos que a banda assinara com esta editora – “um divórcio de comum acordo” – nas palavras de António Manuel Ribeiro, líder dos UHF, que aponta como motivos para a separação, aspectos ligados a uma promoção deficiente: “Muitas vezes foi difícil à Edisom furar um certo círculo onde quase todas as chamadas multinacionais trabalham muito bem.” Os UHF queixam-se, por exemplo, de, ao contrário de outros artistas da editora, “nunca terem visto o seu trabalho ser editado em mini-cassete”, formato que consideram ser o que mais vende em Portugal. “Opções editoriais” que a banda de Almada diz “respeitar”, mas não poder já aceitar. Neste momento os UHF preparam o lançamento do seu próprio selo, “UHSom”, que inclusive poderá vir a editar trabalhos de outros artistas. A 15 de Abril, António Manuel Ribeiro regressa ao estúdio, para iniciar as gravações de mais um disco da banda bem como da sua estreia a solo.

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #152 – “Listas FM – PSYCHPOPROCK”

#152 – “Listas FM – PSYCHPOPROCK”

Apenas um nome por artista, com uma ou outra inclusão mais “dissidente”…

Apenas discos que fazem parte da minha colecção. O que não conheço bem foi excluído. Para já…

ALEXANDER SPENCE – Oar (Sundazed, 1969)
AMON DÜÜL II – Phallus Dei (Repertoire, 1969)
ARZACHEL – Arzachel (Akarma, 1969)
BACHDENKEL – Lemmings (SPM, 1970)
BEE GEES – First (RSO, 1967)
BLONDE ON BLONDE – Contrasts (Sanctuary, 1969)
BRAINTICKET – Cottonwoodhill (Hallelujah, 1970)
BUFFALO SPRINGFIELD – Again (Atco, 1967)
CLARK HUTCHINSON – A=MH2 (Repertoire, 1969)
CLEARLIGHT – Clearlight Symphony (Spalax, 1975)
COLLECTORS (THE) – Grass and Wild Strawberries (Linea, 1968)
COMUS – First Utterance (BGO, 1971)
COSMIC JOKERS (THE) – The Cosmic Jokers (Spalax, 1974)
COUNTRY JOE & THE FISH – Electric Music for the Mind and Body (Vanguard, 1967)
CREAM – Disraeli Gears (Polydor, 1967)
CREATION (THE) – We are Paintermen (Repertoire, 1967)
DAEVID ALLEN – Banana Moon (Spalax, 1971)
DAVID BOWIE – David Bowie (Deram, 1967)
DEEP PURPLE – The Book of Taliesyn (EMI, 1969)
DONOVAN – A Gift from a Flower to a Garden (BGO, 1968)
EAST OF EDEN – Mercator Projected (Deram, 1969)
EIRE APPARENT – Sunrise (Sequel, 1969)
ELECTRIC PRUNES (THE) – Long Day’s Flight (col.) (Edsel, 1967, 1986)
ELMER GANTRY’S VELVET OPERA – Elmer Gantry’s Velvet Opera (Repertoire, 1967)
ERIC BURDON & THE ANIMALS – The Twain shall Meet (Polydor, 1968)
EYES OF BLUE – In Fields of Ardath (Black Rose, 1969)
FAMILY – Family Entertainment (See for Miles, 1969)
FOREST – Forest (BGO, 1969)
FRANK ZAPPA – We’re only in it for the Money (Ryko, 1967)
GEORGE HARRISON – Wonderwall Music (Apple, 1968)
GILES, GILES & FRIPP – The Cheerful Insanity of Giles, Giles & Fripp (Deram, 1968)
GONG – Magick Brother, Mystic Sister (Spalax, 1969)
GRATEFUL DEAD (THE) – Anthem of the Sun (Warner Bros. 1968)
GROUP 1850 – Agemo’s Trip to Mother Earth (Rotation, 1968)
GUN – The Gun (Repertoire, 1968)
HIGH TIDE – Sea Shanties (Repertoire, 1969)
HOLLIES (THE) – Evolution (EMI, 1967)
INCREDIBLE STRING BAND (THE) – The Hangman’s Beautiful Daughter (Elektra, 1968)
JODY GRIND – One Step on (Akarma, 1969)
JULIAN’S TREATMENT – A Time Before this (Akarma, 1972)
JULIE DRISCOLL, BRIAN AUGER & THE TRINITY – Open (Disconforme, 1967)
KAK – Kak (Epic, 1969)
KALEIDOSCOPE – Dive into Yesterday (col.) (Fontana, 1967/1968/1969)
LEMON PIPERS (THE) – Best of the Lemon Pipers (col.) (Camden, 1967/1968)
LOVIN’ SPOONFUL – Daydream (One Way, 1966)
MILLENIUM (THE) – Begin (Rev-Ola, 1968)
MOODY BLUES (THE) – In Search of the Lost Chord (Deram, 1968)
MOTHERLIGHT – Bobak, Jons, Malone (Edsel, 1970)
MOVE (THE) – The Move (Repertoire, 1968)
MUSIC MACHINE (THE) – Turn on (Repertoire, 1966)
MUTANTES – A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (Polydor, 1970)
MYSTIC ASTROLOGIC CRYSTAL BAND (THE) – Flowers Never Cry (Demon, 1967/1968)
NICE (THE) – Ars Longa Vita Brevis (Essential, 1968)
NIRVANA – The Story of Simon Simopath (Edsel, 1967)
OCTOPUS – Octopus (ESP, 1969)
PEARLS BEFORE SWINE – One Nation Underground (ESP, 1967)
PRETTY THINGS – S. F. Sorrow (Snapper Music, 1968)
PROCOL HARUM – Shine on Brightly (Repertoire, 1968)
RED KRAYOLA (THE) – God Bless the Red Krayola and all who Sail with it (Spalax, 1968)
ROLLING STONES (THE) – Their Satanic Majesties Request (London, 1967)
RON GEESIN – A Raise of Eyebrows (See for Miles, 1967)
SEEDS (THE) – A Web of Sound (Line, 1967)
SHADOWS OF KNIGHT (THE) – Back Door Men (Sundazed, 1966)
SMALL FACES (THE) – Ogden’s Nut gone Flake (EMI Plus, 1968)
SOFT MACHINE (THE) – The Soft Machine (One Way, 1968)
SPIRIT – Spirit (Epic Legacy, 1968)
STATUS QUO – Picturesque Matchstickable Messages from the Status Quo (Essential, 1968)
STRAWBERRY ALARM CLOCK (THE) – Incense and Peppermints (Big Beat, 1967)
TEA & SYMPHONY – An Asylum for the Musically Insane (Si-Wan, 1969)
13th FLOOR ELEVATORS (THE) – The Psychedelic Sounds of 13th Floor Elev. (Spalax, 1966) TOMMY JAMES & THE SHONDELLS – Cellophane Symphony (Sequel, 1969)
TRAFFIC – Mr. Fantasy (Island, 1968)
TREES – The Garden of Jane Delawney (Columbia, 1970)
TYRANNOSAURUS REX – Prophets, Seers & Sages, The Angels of the Ages (A&M, 1968)
ULTIMATE SPINACH – Behold & See (Akarma, 1968)
UNITED STATES OF AMERICA (THE) – The United States of America (Edsel, 1968)
VAN DYKE PARKS – Song Cycle (Rykodisc, 1968)
YARDBIRDS – Little Games (EMI, 1967)
YOUNGBLOODS (THE) – Euphoria, 1965-1969 (col.) (Raven, 1965 – 1969)
ZOMBIES (THE) – Odessey & Oracle (Rhino, 1968)

Bob Dylan – “Dylan Imparável” (reedições)

Pop-Rock 06.03.1991 – REEDIÇÕES


DYLAN IMPARÁVEL
LUÍS MAIO

(introdução)



No próximo dia 21 de Maio, Bob Dylan cumpre 50 anos de vida e completa também 30 anos de carreira discográfica na Columbia. Para comemorar o duplo aniversário, Dylan iniciou no mês passado uma pequena digressão europeia, que se admite vir a passar por Lisboa. As celebrações incluem a reedição completa da discografia, mas o seu ponto mais alto deverá ser a edição de uma colecção de títulos inéditos de nome: “The Bootleg Series, volumes 1-3”, subintitulada “Rare And Unreleased 1961-1991”.
Esta em princípio agendada para meados do próximo mês e em vinil inclui cinco LP, enquanto são três volumes em cassete ou em compacto, em qualquer dos casos incluindo um libreto de 58 páginas anotado pelo próprio Dylan e exibindo fotos inéditas do artista. As caixas serão antecedidas, em Março, do single “Series Of Dreams”, tema agora recuperado das sessões de gravação do álbum “Oh Mercy”, onde não chegou a ser incluído.
O single é simultaneamente o tema que encerra a compilação deste Dylan “desconhecido”, que corre ao longo de 230 minutos. O material incluído divide-se em quatro gavetas: meia dúzia de faixas gravadas ao vivo, quatro maquetas gravadas em casa, um par de versões acústicas de temas que, originalmente, eram electroacústicos e mais de 40 gravações alternativas de canções que constam da discografia conhecida. Registe-se ainda a curiosidade da NASA ter planeado uma edição promocional de três mil exemplares para as “Bootleg Series”, num novo material para caixas de CD chamado Nextel, edição essa que inclui mais um disco com cinco temas e libreto alternativo.
Tudo isto não é tão evidente, quando este mês se procede à completa reedição da discografia de Dylan, e a caixa, tanto quanto se percebe, é principalmente constituída pelas mesmas canções que esse lote. Mas também não é normal começar a comemorar um cinquentenário na estrada três meses antes ou o que quer que seja, pelo que o artista continua a ser notícia. Mas vamos por partes, a começar pela parcela da discografia que já chegou até nós.

A REEDIÇÃO ATÉ AQUI
FERNANDO MAGALHÃES

(daqui para baixo)

“Self-portrait”, duplo, 1970
Discos de retorno ao naturalismo, da fase “pura” do compositor. Clássicos, como “Days of 49” e “Like a Rolling Stone”, e versões de temas de Paul Simon, Gordon Lightfoot e Everly Brothers. Uma lista infinita de convidados, que incluía os amigos The Band e Al Kooper. Na época, os críticos falaram em “desperdício de talento” e argumentaram que o duplo álbum nunca deveria ter passado de simples, mas nem por isso ele deixou de alcançar o primeiro lugar nos tops ingleses. Dylan considerou-o o seu próprio disco-pirata, numa altura em que os “bootlegs” das suas actuações mais inflamadas se vendiam a preço de ouro no mercado alternativo.

“New Morning”, 1970
Considerado um ensaio de regresso à grande forma, uns magros seis meses depois do decepcionante “auto-retrato”. Era uma primeira fase de reconhecimento e de novas honrarias, de breve reconciliação com a crítica. Recapitulação de todos os géneros que previamente ajudaram a fazer a sua música: a “country” (“Winterlude”), os “blues” (“If Dogs Run Free”), os espirituais negros (“Signo n the Window”), os “rhythm’n’blues” (“One more Weekend”), o “gospel” (“Three Angels”). Iluminações que ficaram para a história como as eloquentes do seu período de recato.

“Pat Garrett And Billy The Kid”, banda sonora, 1973
Terceira incursão no mundo do cinema, após o documentário “Don’t Look Back” que registava a sua digressão inglesa, com Joan Baez e “Eat the Document”, telefime que viria a ser rejeitado pela cadeia americana ABC. Não apenas como actor secundário, num papel especialmente criado para ele, mas como autor da banda sonora do “western” de Sam Peckinpah. Dele faz parte o hino “Knockin’ on Heaven’s Door”, entoado por toda uma geração nostálgica de anteriores vivências “on the road”. Convidados especiais: Roger McGuinn, dos Byrds, e Booker T.

“Dylan (A Fool Such As I)”, 1973
Colecção de misturas alternativas e versões rejeitadas de “self-portrait”. Um expediente para satisfazer uma procura que Dylan uma vez mais frustrava, passando desta feita os primeiros anos da década de 70 num silêncio só interrompido pela chamada de George Harrison ao concerto para o Bangladesh, em 1971.

“Blood On The Tracks”, 1974
Amores falhados, divórcio, confusão, parece que tiveram um efeito benéfico sobre Dylan, que investiu ainda em maior profundidade nas palavras, como forma de exorcizar fantasmas. Há quem compare a qualidade destes poemas a “Blonde On Blonde” e “John Wesley Harding”. Álbum de ambientes folk, concedendo o espaço que é preciso à guitarra acústica e à respiração pausada dos poemas. Dylan canta aqui o amor e as cicatrizes que este deixa quando seca. Também um adeus como vido aos dias dourados dos “sixties”, quando havia “música, à noite, nos cafés, e revolução no ar” e o espanto diante daqueles que estão para vir.

“Saved”, 1980
Convertido ao cristianismo depois do álbum do ano anterior, “Slow Train Coming”, Dylan não deve ter convencido ninguém com esta sua (auto-)salvação. O segundo disco do “novo cristão” não vendeu – foi, aliás, o maior fracasso comercial da sua carreira. Três anos mais tarde, em espectacular golpe de rins religioso, reconsiderou e regressou às antigas crenças de judeu convicto. Na época de “Saved”, porém, Dylan chegou ao ponto de recusar tocar ao vivo canções do período “pré-cristão”. Na capa interior cita-se Jeremias, capítulo 31. Os putos queriam era rock.

“Real Live”, 1984
Gravado ao vivo. Pouco importante quando comparado a “Live At The Budokan” ou “Before The Flood”. Versões de “Highway 61 Revisited”, “Tangled Up In Blue” e “Masters of War”. Guitarristas ilustres: Mick Taylor, dos Rolling Stones, e Carlos Santana (em “Tombstone Blues”). Dylan tinha já entrado no sistema da digressão permanente, alternando as velhas glórias com as novas insignificâncias.

“Empire Burlesque”, 1985
Rendição à modernidade. Depois de Mark Knopfler e antes de Dave Stewart e Daniel Lanois, a produção foi aqui confiada a Arthur Baker. Ainda a presença dos “sabidões” Sly Dunbar e Robbie Shakespeare e de membros da banda de Tom Petty, os Heartbreakers. Dylan procura, desde os finais dos anos 70, ser ele mesmo, inspirando-se na luz de sumidades posteriores. E com Baker as coisas funcionaram ao ponto de este álbum ter sido o seu maior sucesso comercial da década de 80. Não obstou, porém, a que se multiplicassem as histórias que desancavam o mito. O que também não impede que Dylan continue a gravar e tocar ao vivo. Vive num universo fechado e de difícil acesso. É um eremita em digressão permanente pelos estádios do mundo, esse género de paradoxo.