Arquivo mensal: Março 2021

The Kinks – “Scattered”

pop rock >> quarta-feira, 03.03.1993

CD-SINGLES


The Kinks
Scattered
Columbia, distri. Sony Music


Os heróis não morrem e os Kinks aqui estão para o provar. Sobreviveram a três décadas de modas sem que a sua energia se tenha esgotado. Ray e Dave Davies, nos tempos áureos, depois só o primeiro, tornado único portador do estandarte. Os Kinks representaram nos anos 60 o supra-sumo do movimento “mod”. O seu líder, Ray Davies, inglês até à medula, mostrou ser mestre na dissecação dos vícios e tiques do reino de sua majestade, em canções que ficaram para a história: “Waterloo sunset”, “Death of a clown”, “Wonderboy”, “Lola”, “Apeman”, “Victoria”, entre outros. “Arthur, or the Decline and Fall of the British Empire”, chamou a um dos álbuns. Hoje, a mística de outros tempos deixou de existir, substituída pelo profissionalismo. As sobras, mesmo assim, não são de desprezar. Ray Davies continua com a voz afinada, adeptodo rock ‘n’ rol e atento a um passado brilhante, de que é exemplo a versão actualizada de “Days”, um original de 1968, aqui incluída. Antes tinha outra força. (6)

The Tsinandali Choir – “Table Songs From Georgia”

pop rock >> quarta-feira, 03.03.1993

WORLD


The Tsinandali Choir
Table Songs From Georgia
CD Real World, distri. Edisom



Apanhados desprevenidos, podemos ser levados a pensar que estes coros masculinos da Geórgia, – república do Cáucaso que fez parte da antiga União Soviética – são uma espécie de contrapartida de barba e bigode dos seus congéneres femininos da Bulgária. Puro engano. As vozes búlgaras falam com Deus, enquanto as vozes da Geórgia falam com o vinho. Ou talvez se trate de duas formas diferentes de contacto com a mesma divindade. A própria designação do coro, traduzida por uvas, significa um tipo de casta da qual se extrai um delicioso vinho muito apreciado na região. Na raiz de tanta devoção está uma cruz, feita de ramos de videira, que Santa Nina trouxe para a Georgia como forma de aí instaurar o Cristianismo. Assim, esta religião trouxe xonsigo o culto do vinho. O coro Tsinandali é especialista nas chamadas “canções de mesa”. No Ocidente chamamos-lhe brindes, mas na Geórgia não se brinca em serviço. Um homem, o líder, o “tamada” é escolhido para organizar o ritual. Deve ser alguém com forte resistência ao álcool. Um “tamada” embriagado é considerado uma humilhação e uma ofensa. O ritual é como segue: em frente ao fogo, cloca-se uma mesa imensa, coberta de todos os ingredientes necessários à libação. Depois, conforme a ocasião (baptismo, casamento, enterro), o “tamada” vai fazendo sucessivos brindes, enchendo e emborcando de cada vez um recipiente de vinho, de preferência um corno de boi ou de carneiro. Em seguida, volta a encher o corno e passa ao do lado, e assim sucessivamente, até se atingir a euforia, acompanhada de danças e cantoria. A audição destes cantos polifónicos dá contudo a impressão de que os membros do coro estavam sóbrios na ocasião da gravação, o que retira algum do seu impacte. São cânticos solenes, onde se adivinha a influência de Dyonisos, mais do que a de Baco (há quem diga que são o mesmo deus, nas versões “escançaõ” e “com a boca na botija”, respectivamente). Se tomados à letra (não necessariamente num corno, qualquer caneca serve), podem levar à elevação e posterior ressaca. Goste-se ou não, ninguém diga porém “desta música não beberei”! “Georgia on my mind”, hip, hip, hurra!. (7)

Skylark – “Light And Shade” + Trian – “Trian”

pop rock >> quarta-feira, 03.03.1993
WORLD


Skylark
Light And Shade (9)
CD Claddagh, distri. VGM
Trian
Trian (9)
CD Flying Fish, distri. VGM



Por vezes dá a ideia de que a música tradicional da Irlanda sofre de excesso de abundância e oferta. Grupos e solistas, ainda por cima de alta qualidade, existem às dezenas, senão às centenas, pela ilha Esmeralda. Novos nomes surgem a um ritmo alucinante, enquanto a velha guarda se divide por múltiplos projectos, explorando novas ideias e trocando sensibilidades. Aos leigos, já o ouvi da boca de alguns, a música irlandesa soa sempre igual. Pura ilusão. Esquecem, ou não sabem, que o prazer, resultante do convívio sistemáticos com este tipo de música, reside em grande parte na descoberta de diferenças, na comparação de estilos, individuais e colectivos, no confronto de abordagens diversas a uma música que constantemente se renova e inventa novas vias. Tudo isto se aplica aos discos em questão. Os Skylark, em segunda etapa, a seguir a “All of it”, e os Trian, em estreia, partilham entre si semelhanças óbvias. O gozo está em avaliar as diferenças. E em saborear, caso se esteja nas tintas para o raciocínio analítico, a excelência da música, independentemente dos modos da sua criação.
A primeira semelhança é visível logo no formato instrumental. Skylark e Trian apresentam a configuração típica violino / acordeão / guitarra, no caso dos Skylark aumentado por um bodhran. Os instrumentistas são, em ambas as formações, virtuosistas do mais alto grau. Máirtin O’Connor, dos Skylark, considerado o expoente máximo do seu instrumento na Irlanda, rivaliza com Billy McComiskey, do lado dos Trian, no acordeão. A vantagem pende para o lado do primeiro, mas não por margem folgada. Contra a veterania do mestre, o novato apresenta já credenciais de grande executante.
O caso do violino é mais bicudo. Gerry O’Connor, pelos Skylark, contra Liz Carroll, pelos Trian. O som desta última (que já nos impressionara num anterior álbum a solo ou, na qualidade de convidada, num dos projectos de Mick Moloney com Eugene O’Donnell, “Uncommon Bonds”) é mais encorpado. Gerry O’Connor, aparentando maior agilidade, possui um estilo mais aéreo. Liz vence-o em dramaticidade. Gerry ganha-lhe em leveza. Finalmente os dois guitarristas, Dáithi Sproule (vale a pena escutá-lo com maior pormenor em “Carousel”, ao lado de Deamus e Manus McGuire), dos Trian, e Garry O’Briain, dos Skylark, são dignos um do outro e candidatos ao trono ocupado por Arty McGlynn, na justeza com que tecem as típicas malhas rítmicas em contratempo.
Len Graham é o tocador de Bodhran nos Skylark, cargo que desempenha com eficácia, embora seja nas vocalizações que revela dose superior de talento, através de uma profundidade e pureza de timbre que, uma vez mais, deixam ver as marcas deixadas na música irlandesa pelos Planxty. O mesmo acontece aliás, com Dáithi Sproule, também ele um vocalista de recursos, do lado dos Trian.
Os membros dos Trian residem em Chicago, onde vive uma das colónias de irlandeses mais activa e interveniente da América do Norte. A distância serve-lhes para reforçarem o cordão de prata que os une à ilha-mãe. Daí talvez a sensação de urgência que se desprende da sua música, quase um amplexo. Os Skylark, por seu lado, ostentam a naturalidade de quem tem as raízes bem seguras no chão. Muitos tocam, e bem, este estilo de música. Mas poucos conseguem fazê-lo com a convicção e empenhamento destes dois grupos. Explorem-se os seus detalhes e segredos. Para descobrir as razões que fazem da tradição da Irlanda uma das mais ricas e férteis do planeta.