Arquivo mensal: Janeiro 2020

Public Enemy – “Apocalypse 91… The Enemy Strikes Black”

Pop-Rock Quarta-Feira, 23.10.1991


PUBLIC ENEMY
Apocalypse 91… The Enemy Strikes Black
2xLP / CD Def Jam, distri. Sony Music



Em “One Million Bottlebags” Chuck D defende que os afro-americanos bebem álcool marado, restos da produção normal das companhias de brancos, de onde deriva o seu conselho de que, se os negros se querem embebedar, sempre é melhor consumir o mesmo que os brancos. É uma reelaboração da teoria da conspiração racial na qual assenta toda a discografia dos Public Enemy, mas, como esta faixa documenta, “Apocalypse 91” investe na variação de denunciar o demónio branco nos próprios hábitos de vida dos negros, do consumo de álcool à violência belicista. Os PE distanciam-se, assim, da delinquência provocatória e gratuita que os definiu, sobretudo até à saída do Prof. Griff, para se assumirem ainda e sempre de um ponto de vista racial, mas adulto e articulado, cerrando fileiras com a frente didáctica pacifista liderada por KRS-1. Daqui resulta o subalternizar do “disparate” de Flavor Flav, ,a supermacia doutrinária de Chuck D, mas também a maior austeridade musical da parte de Terminator X. Como antes sucedeu com os De La Soul ou os Gang Starr, é o regresso ao rap duro e puro ao longo de um duplo álbum onde a única manobra de diversão é a linha de baixo boogie em “By the time I get to Arizona”. A mudança do insulto para a doutrinação é um bom golpe de “marketing”, embora sem grande sumo iseológico – a teoria segregacionista copofónica, por exemplo, é delirante. Em contrapartida, o retorno à pureza do rap, depois de todo o avanço na frente do ecletismo, é de um aparato e solidez irrepreensíveis, nada se perdendo no peso da compusividade psicológica, da encenação do clima de terror que é a arte superior dos PE. No pior dos casos, “Apocalypse 91” vive da fricção entre a desejada sabedoria doutrinária e a intempérie ainda irracional que lhe serve de modo de expressão. O que, em qualquer caso, é capaz de ser um excelenete reflexo do dilema que atravessa a cultura afro-americana dos anos 90. (7)

Marc Almond – “Tenement Symphony”

Pop-Rock Quarta-Feira, 23.10.1991


MÁRC ALMOND
Tenement Symphony
LP / CD Some Bizarre, distri. Warner port.



A capa só por si vale o disco: uma glosa do grafismo da série barata “Classics For Pleasure”, onde Almond assume o “smoking” e a pose de batuta em punho de Simon Rattle (um dos maiores maestros ingleses da actualidade), mas com um ramo espinhado no lugar da dita batuta e um maço de notas turcas a saírem-lhe do punho, preparo rematado pelo adereço de uma flor de plástico a enfeitar um metrónomo. Truncagem tipicamente “camp” do visual pop da música clássica na idade de Pavarotti e Nigel Kennedy, complemento de um recheio pop de recorte sinfónico, que incluiu um extracto de “Trois Chansons de Bilitis” (Debussy). “Flirt” jocoso com a música clássica, mas também com os clássicos da música popular.
O zénite do álbum é sem dúvida a versão radical de “La Chanson de Jacky”, sátira em tom marcial ao binómio beleza / vacuidade da autoria de Jacques Brel, que Márc (o acento no “a” é outro pormenor da nova decoração) revisita em tintas eurodisco. O álbum assenta na combinação dessas variáveis: a pop electrónica (produto da associação de Dave Ball, ex-companheiro de Almond nos Soft Cell, com Richard Norris sob a sigla The Grid) e a tendência para o fausto sinfónico de Trevor Horn (o maestro da ZTT), reforçada pelos arranjos de cordas de Ann Dudley, dos Art Of Noise. “Desta confusão, declara o autor na contracapa, sonhei uma grande ilusão: a ‘Tenement Symphony’”, um álbum onde as convenções e conveniências da actual ligação da pop à música clássica não sofrem uma subversão terrorista, mas o género de revisão agridoce, misto de romantismo e crueldade extremados que transformam a sua seriedade pequeno burguesa em delírio faustoso. (8)

Belinda Carlisle – “Live Your Life Be Free”

Pop-Rock Quarta-Feira, 23.10.1991


BELINDA CARLISLE
Live Your Life Be Free
LP / MC / CD Virgin, edição Edisom



Na primeira faixa, que dá nome ao álbum, Belinda aconselha-o a viver a sua vida e ser livre, rematando que ele devia era estar com ela.
Na segunda, pergunta-lhe se sente o mesmo que ela e esclarece que desde que o viu percebeu logo. A terceira chama-se “Metade do Mundo”, mas desconsola logo quem daí espere o grande manifesto de intervenção da ex-Go-Go, visto que também é sobre corações famintos. Cantar semelhantes patetices talvez não seja um mal em si, até porque o seu nome só duas vezes aparece nos créditos das composições. O problema é que as lições de canto tiradas desde o início da sua carreira a solo não beneficiaram significativamente os dotes vocais da senhora e, apesar de todo o trabalho de carregar em botões para sair do produto em série AOR, as suas limitações não chegam a ser disfarçadas. Esqueçam portanto “Live Your Live Be Free”, ou melhor, o disco, porque em termos de aprumo visual Belinda está no zénite da carreira, e o clip do respectivo single compensa-lhe o desaire vocal com deliciosos figurinos de nostalgia hollywoodesca. (2)