Arquivo mensal: Fevereiro 2015

Eric Woolfson / Alan Parsons – “Freudiana”

Pop Rock

20 FEVEREIRO 1991

ERIC WOOLFSON/ALAN PARSONS
Freudiana

LP duplo e CD, Emi – Valentim de Carvalho

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Sexo! Bem mais apelativo que “sexualidade”. Diz-me com que(m) sonhas dir-te-ei quem és. Grandes traumas. Complexos maiores que o das Amoreiras. Libidos desenfreadas. Oh mãe! Oh pai! Desejos inconfessáveis sublimados e deitados no divã. Atraída a atenção do leitor, podemos agora assegurar, cheios de júbilo: até que enfim, um disco sério, obra científica, didáctica, de grande fôlego e insuperável intensidade psicológica.
Sigmund Freud, nome importante, sem dúvida (embora nenhum dos seus discos tem há atingido os tops, os livros sim), mas não tanto como Eric Woolfson e Alan Parsons, juntos e felizes no massacre sistemático perpetrado sobre a figura do mestre.
Calho a vez ao velho Segismundo, mas ninguém, vivo ou morto, está livre de se tornar a próxima vítima. Em “Freudiana” (termo que designa a colecção de artefactos recolhidos por Freud ao longo dos anos ou, mais genericamente, a globalidade dos seus trabalhos e personalidade), cada faixa refere-se a um aspecto particular da vida e obra do autor dos “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” e “A Interpretação dos Sonhos”: o princípio do prazer (que infelizmente neste disco não funciona), alguns casos patológicos arquetípicos (“Little Hans”, Dora, o homem-rato, o homem-lobo, o juiz, etc.), o amigo hipnotizador, as terríveis lutas entre o herói superego e o vilão Id, são alguns dos pretextos para o desfilar contínuo dos lugares-comuns mais insuportáveis do tristemente célebre rock sinfónico.
Imagine-se uma versão caquética e envernizada de “The Wall” (a qual dos discos pertencem os imortais versos: “And now you’re alone my friend/and you must face the world outside”?) para se ter uma ideia aproximada do objecto em questão. Os vocalistas foram escolhidos a dedo de entre a fina-flor da mediocridade (Leo Sayer, Kiki Dee, John Miles…), os instrumentistas (Laurie Cottle – baixo, Stuart Elliot – bateria e percussão, Ian Bairnson – guitarras, o nosso amigo Eric – teclados, Richard Cottle – sintetizadores e saxofones e o nosso outro velho amigo Alana – teclados adicionais) cumprem o que lhes foi exigido por contrato com o entusiasmo e empenhamento de um empregado de escritório a fazer horas extraordinárias num sábado à noite.
Incluem-se mesmo três temas instrumentais, “The Nirvana Principle”, “Beyond the Pleasure Principle” e “Freudiana” que infelizmente não se parecem nada com os famosos quatro minutos e picos de silêncio de John Cage.
Mas do mal o menos: só a música e as letras é que não prestam. De resto, pelo cuidado posto na apresentação, vê-se que se trata de um produto de luxo. Oh mãe! *

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Tanita Tikaram – “Everybody’s Angel”

Pop Rock

13 FEVEREIRO 1991
LP’S

MENINA BONITA

TANITA TIKARAM
Everybody’s Angel

LP e CD, EastWest, distri. Warner port.

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Porque será que a luz de Suzanne Vega ofusca tanto? Ouvem-se as outras senhoras, habitantes do mesmo território, as suas vozes, as canções, as histórias que contam e logo a imagem da nova-iorquina se impõe, omnipresente, implacável, incontornável. Porque será? E, no entanto, o estilo e personalidade da autora de “Days of Open Hand” são de tal maneira próprios dela que, à partida, chegariam para fazer esmorecer a mais pequena tentativa de concorrência. Mas, de facto e paradoxalmente, parecem ter feito escola entre as novas gerações de cantoras femininas.
Por exemplo, vejamos o que se passa com esta rapariga (que, como Vega, optou pelo corte capilar mais ou menos arrapazado) de nome exótico e que conta já com três álbuns no activo. A sua música tem pouco a ver com a da outra senhora. A voz muito menos. Os textos contam outras histórias, outras maneiras de ver o mundo. Mas lá está, faixa sim, faixa não, damos por nós a compará-la com a sempiterna Suzanne. Que segredo se esconderá então por detrás dos modos gentis e das entoações sinuosas desta voz que, tal qual um farol, ilumina a atrai a si todas as outras, para finalmente as destruir na violência de uma personalidade dominadora? Suzanne Vega exemplifica a emancipação do “singer/songwriter” em versão feminina, liberta da imagem sexuada, assente no primado da saia curta e olhar maroto. Suzanne personifica a coerência de uma visão pessoal e vigorosa do mundo, no seu caso da América, filtrada pelo olhar único que é o da mulher. E depois, não há nada a fazer, possui o dom fundamental nestas coisas da música: a arte de compor boas canções.
Regressando à nossa Tanita, verifica-se que entre ambas há certas semelhanças, menos ao nível dos processos musicais propriamente ditos e mais ao nível da atitude: tal como na obra de Suzanne Vega, cada canção da nossa jovem conta uma história que (ao contrário daquela) se acompanha enquanto é cantada, mas que de imediato se esquece, mal termina. Não colam. Não impressionam. Apenas fazem cócegas. Existe uma artificialidade latente na maneira como cada tema se desenrola. Cheira a laboratório, desde a produção (como sempre a cargo de Rod Argent, um veterano com a escola toda, auxiliado por Peter Van Hooke) até aos próprios maneirismos vocais soando a “trabalho de casa”, passando inclusive pela própria pose corporal. Acerca da voz de Tanita Tikaram disse a “Q-Magazine” que “era incapaz de soar mal”. É precisamente disso que se trata, do predomínio da forma exterior, do bonito e do agradável, sobre a beleza verdadeira, nua e por vezes bruta, que às vezes até pode não “soar bem”. Tanita é dona de uma voz atraente. Serve-se dela para cantar canções doces, nunca agressivas, que às vezes tocam ao de leve no firmamento estético da tal Suzanne, como é nitidamente o caso de “Hot Pork Sandwiches”.
Para além disso, neste disco, Tanita Tikaram parece querer abandonar de vez certas tonalidades pretensamente celtas, de resto mais sugeridas que reais, presentes no álbum de estreia, “Ancient Heart”, trocadas por uma desejada (e ainda incipiente) negritude a que tentar dar voz em temas como “Mud in any Water” ou “Me in Mind”, neste último o naipe de metais e os coros recordando a “soul” bem swingada dos velhinhos Foundations.
Para trás ficou a participação no já citado álbum do irlandês Davey Spillane, para dar lugar aos sopros (e ao violino de Helen O’Hara) da “The Section” (na qual figura o ilustre trompetista da ECM, Mark Isham), que aqui pintam com cores quentes as frágeis e delicadas canções da menina Tikaram.
De “Ancient Heart” até este “Everybody’s Angel”, passando por “The Sweet Keeper”, manteve-se o essencial: a fidelidade a um estilo introspectivo que, paradoxalmente, recorre a formas musicais tão extrovertidas como são normalmente as da “country music” (embora Tanita seja inglesa…), traduzido em baladas que acariciam o ouvido, mas, por enquanto, incapazes de elevar a intérprete ao nível superior hierárquico das grandes autoras-compositoras da actualidade. Não que ela pareça importar-se muito, mas, para ouvidos capazes de escutar mais fundo, pode tornar-se incómoda a sombra insistente da tal americana que toca guitarra e conta/canta histórias que, de tão vividas e sentidas, chegam a arrepiar. A diferença existente entre uma “pretty baby” e a “velha” senhora. **

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Mike Westbrook Band – “Off Abbey Road”

Pop Rock

13 FEVEREIRO 1991
LP’S

MIKE WESTBROOK BAND
Off Abbey Road

CD Audio One, distri. Dargil

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Ciclicamente o fenómeno repete-se: repescam-se álbuns inteiros dos Beatles, respeitando o alinhamento original das canções, para as submeter a toda a espécie de manuseios. Mike Westbrook, pianista, compositor, arranjador e dirigente de uma das “big bands” inglesas mais conceituadas, músico há muito ligado à escola do “novo jazz” britânico dos finais da década de 60 e, como todos os ingleses, apreciador de uma boa piada, resolveu “trabalhar” o material de “Abbey Road” e “dar-lhe a volta”. Reformulou a estética beatleniana, transpondo-a para um contexto jazzístico não excessivamente radical. Encomendado para um festival Beatles em Itália, este trabalho apresenta-se agora gravado ao vivo no festival de jazz de Willisau, em Agosto de 1989, por uma banda de oito elementos de que fazem parte o guitarrista Brian Godding (tocou com os Magma, de Christian Vander), o vocalista “freee” Phil Minton e o saxofonista Alan Wakeman (parente do pirotécnico teclista Rick do mesmo apelido). “Off Abbey Road” é a transposição bem sucedida e humorada do universo pop para as liberdades formais concedidas pelo jazz, que a cada momento avança em explorações rítmicas e improvisatórias, alicerçadas nalgumas das canções mais comerciais do famoso quarteto. ***