Arquivo mensal: Maio 2010

No Smoking Orchestra – Maiores Do Que A Vida

21.01.2005
No Smoking Orchestra – Maiores Do Que A Vida

A energia é a mesma dos filmes. Uma força de auto-defesa contra um mundo que pretende apagar as minorias. O que ouve é “punk” balcânico. O que se vê é circo. O que adivinha, uma “arte maior do que a vida”. Kusturica e a No Smoking Orchestra passaram por Lisboa como um vendaval.

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Afinal de contas ninguém cometeu suicídio em palco durante o concerto da No Smoking Orchestra, segunda-feira, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, como o cantor da banda, Dr. Nele Karajilic, admitira. O niilismo punk que rodeia como uma auréola esta orquestra que Dr. Nele fundou em 1980 funciona hoje como um rótulo de provocação perfeitamente civilizada que tem tudo de espectáculo de circo mas onde não ficaram perdidas de vistas as intenções intervencionistas que estiveram na sua origem.
A energia é física, contagiante, mas a sensação de perigo está ausente. Ou talvez esteja disfarçada.
A fúria balcânica continua a animar os gestos e os sons desta pequena orquestra que hoje se apresenta nos palcos de todo o mundo como um fenómeno da moda onde milita uma “movie star”, de seu nome Emir Kusturica, o realizador politicamente desalinhado que toca guitarra no grupo como “forma de terapia”. A energia, essa, diz Kusturica, é a mesma que utilizou para filmar “O Tempo dos Ciganos” (1988), “Underground” (1995), “Gato Preto, Gato Branco” (1998) ou “A Vida é um Milagre” (2004) – os dois últimos com banda sonora da No Smoking Orchestra, que substituiu Goran Bregovic como comparsa musical do cineasta

Dr. Nele Tem Unza Unza No Sangue
Em palco, no concerto lisboeta que marcou o encerramento da “Life os a Miracle Tour”, Emir Kusturica é um dos mais calmos. “Sou o mais velho da banda, um old punker (risos)”, reconhece ao Y, com um sorriso cansado, nos bastidores da velha sala de Santo Antão, após o concerto. De tarde, durante os ensaios, ainda ostentava a barba que era uma das suas imagens de marca. À noite, porém, o rosto bem escanhoado dá-lhe uma outra aparência, rejuvenescida, do “guitar hero” que nunca quis ser, embora “the show must go on” e também ele se entregue de alma e coração a encenações que pouco têm a ver com a música, mas que têm o condão de excitar ainda mais a multidão. Como fazer par com o violinista, “o juiz”, e obrigar a sua guitarra a ranger contra uma corda estrategicamente esticada no ar.
Dr. Nele Karajilic é a antítese de Kusturica, o cromo irrequieto que enverga uma colorida camisa justa com estampado Rorschach e não pára um minuto quieto no palco ou nos banhos de multidão a que se entrega durante o espectáculo. Karajilic é a bomba-relógio prestes a explodir, o propagandista de megafone e o apresentador de serviço que cita Frank Zappa e grita de cinco em cinco minutos, em português, a palavra “obrigado”, só porque a vogal aberta “o” lhe parece quase comestível e porque pode ser pronunciada durante bastante tempo. “Ooooooooobrigado!”. Dr. Nele tem indubitavelmente “unza unza” no sangue, o remédio musical que a No Smoking Orchestra garante fazer aumentar no organismo a proteína do amor.
Terminada o concerto, ao contrário de Kusturica que parece prostrado, Dr. Nele continua eufórico. “Lisboa apresentou uma das melhores audiências que alguma vez tivemos! E o lugar é fantástico, a arquitectura parece do período shakespeareano, até por isso foi engraçado tocarmos aqui ‘Romeu e Julieta’”. A Julieta em questão foi encontrada entre a assistência, num dos camarotes laterais do Coliseu. “Julieta” foi apenas uma das várias espontâneas que num ou noutro momento do concerto deram corpo adicional à folia do grupo. Dr. Nele não esconde, aliás, o gosto em ver-se rodeado de “groupies”, habituais nos espectáculos da banda. “Aparecem sempre, umas vezes melhores, outras piores”, ria-se – “são como ‘cheerleaders’”, as raparigas contratadas para animarem alguns espectáculos desportivos. “Eu sou o chefe das ‘cheerleaders’”.
Apetece questionar de onde vem esta entrega quase sôfrega ao espectáculo desbragado… Dr. Nele é peremptório: “Isso terá que perguntar à minha mãe”. Como combustíveis garante que apenas se socorre “do vinho e da cerveja”.
Uma digressão como “Life is a Miracle Tour” já não é como as dos primeiros tempos em que o grupo andava “dois e três meses na estrada, sem parar”. “Chegávamos ao fim, parecíamos máquinas”. Hoje a orquestra faz dez espectáculos por mês, mas aproveita-os bem, mesmo que às vezes nem sequer fixem os nomes das cidades por onde passam. O de Lisboa certamente que não o vão esquecer. “É uma sala perfeita, gosto de sentir a assistência perto de mim, mais de um ou dois metros já é demais”.
Durante duas horas Dr. Nele Karajilic foi o compère de uma cerimónia tresloucada. Como as personagens dos filmes de Kusturica, os músicos personificam gente tão incontrolável como a vida. É o gosto pelo exagero, pela ilusão (os truques de ilusionismo com que a Orchestra enfeita os seus “shows”), pela metamorfose contínua e inadiável. Há um saxofonista que sopra no limite do paroxismo para logo a seguir se aquietar sob melífluas melodias de casino. Há uma gigantesca tuba enrolada em torno de um homem que persegue e dispara sobre Dr. Nele. Há um baterista sulfúrico que não é o habitual (o habitual, Stribor Kusturica, filho do cineasta, ficou em casa, aleijado num braço), um acordeonista compenetrado e há, é claro, o homem vestido de escuro e sem o brilho Rorschach do vocalista, para onde todos os olhos se voltam constantemente numa devoção não dissimulada. Ali está ele, Emir Kusturica, que trocou o baixo pela guitarra eléctrica, levando muito a sério o seu segundo papel, de rocker.
Tudo somado e em corrupio sem pausas, a música, a encenação, o humor, os truques e até algum dramatismo têm o colorido gordo do “maior que a realidade”. O mesmo realismo fantástico, ou melhor, o mesmo fantástico realista que Kusturica filma e que Fellini já filmava antes dele. Logo de início, numa das primeiras canções, Dr. Nele, afogado nos braços da multidão, grita, “umas vezes é em cima, outras é em baixo, umas vezes é o paraíso, outras o inferno”. As palavras mal se ouvem numa montanha-russa onde cabe um pouco de tudo. A vida, com os seus altos e baixos, as suas personagens humanas que buscam o amor e a felicidade, por mais escondidos que estejam, estão aqui presentes numa mini-fábula que ofusca na superfície.
“Isto é maior do que a vida”, garante Dr. Nele. “Isto” são duas horas de espectáculo da No Smoking Orchestra que contagiam por completo, mais do que não seja pelo movimento e o bulício, o público. “Tenho a certeza de que a minha mulher não ficaria satisfeita ao ouvir-me dizer isto, mas a música é, realmente, mais importante do que tudo o resto, mais importante até do que a família, tenho muita pena, mas é assim. A “Life is a Miracle Tour” terminou mas o merecido descanso será sol de pouca dura. Já em Fevereiro iniciar-se-á nova digressão que levará a No Smoking Orchestra a Israel, América do Sul, Letónia, Estónia e Lituânia, França e Japão.
Para os membros da banda, são muitos dias vividos juntos na estrada. Tão excitantes como os concertos? Nem por isso. “São chatos!”. Lá está a vida real a espreitar e sem, como nos filmes, o milagre da alegria para oferecer. “Mas adoro viajar, é aliás uma das coisas melhores que há em ser-se músico”. Dr. Nele já ultrapassou os 40 anos mas evidencia a vitalidade de um garoto. As tropelias de palco são inevitáveis. “Não consigo agir de outra maneira, uma vez punk, punk para sempre!”. Apesar de punk, não é um troglodita, não se escusando a fazer mais um número, o da cortesia, em resposta às solicitações da comitiva VIP da embaixada da Sérvia e Montenegro que no final veio cumprimentar a banda aos camarins…

No Pequeno Mundo De Emir
Alguns metros a seu lado, em silêncio e pouco dado a conversações, Emir Kusturica largara finalmente a guitarra que raramente desatara da cintura. Tem fama de fugir aos jornalistas e um jeito especial de voltar as costas sempre que lhe apontam uma câmara fotográfica. Mas agora que tudo está consumado, a timidez ou o receio abrem uma brecha. Parece esgotado. A energia que pusera na sua actuação eléctrica é a mesma que ilumina os seus filmes? “Absolutamente!”, responde. E a música, “desenhada exactamente da mesma maneira” que os filmes – “um ponto de cruzamento de muitos estilos diferentes, disciplinado por um pulso e uma dinâmica muito firmes, dinâmica e tempos que absorvem muitos dos estilos e a história da região dos Balcãs. Belgrado não é como Londres, é uma cidade onde se cruzam vários ventos”, explica.
Kusturica aproveita ao máximo o prazer que lhe proporciona tocar ao vivo para uma multidão – o prazer da “troca” e da “comunicação”. Uma comunicação “bem disposta”, como “alguém que viaja num comboio e sem travões – uma maravilha!”. Também para o cineasta a arte é bem maior do que a vida, onde o “estilo tem que ser o de lutar por uma identidade própria”.
“Porque sentimos a pressão do grande mundo e que estamos em risco de a perder. A pressão que se faz sentir no modo como estão a destruir as pequenas nações e culturas locais”.
Em momento algum, mesmo quando o circo das aparências deixa pouco mais para ser visto, Kusturica abandona uma perspectiva política. Algo de absoluto de que não prescinde. Mas os jovens que do outro lado pulam e vibram e riem quando “o juiz” toca violino com ar sisudo, envergando um vestido de mulher, estarão suficientemente atentos ao essencial para compreender a mensagem? É uma questão de tempo. “Se não estão, acabarão por aprender”.
Kusturica – que abandonou Sarajevo, onde nasceu, para se instalar em Belgrado, atraindo deste modo ainda mais a antipatia do governo bósnio – continuará a tocar com a No Smoking Orchestra, “de vez em quando”, principalmente nas “cidades grandes”. É uma honra para mim poder continuar a pertencer a este mundo de defesa de uma identidade própria, um mundo protegido”. Mas é numa cidade pequena e ideal que ele próprio construiu para albergar a produção de “A Vida é um Milagre” que a vida decorre como um conto de fadas, imune às pressões do “grande mundo”. Em Küstendorf, completa com uma igreja e uma escola, não existe perseguição nem separação. É nesta cidade-paraíso construída de raiz que Kusturica – bósnio de origem muçulmana que durante a guerra nunca escondeu a sua simpatia pelo lado sérvio, a favor de uma Jugoslávia unificada – se defende das agressões exteriores.
Para trás ficou a colaboração com Goran Bregovic, que assinara as primeiras bandas sonoras. “Foi uma amizade que ficou exausta”. Com a No Smoking Orchestra, para onde ele próprio compõe alguma da música, é “fácil” trabalhar. “Assobiamos, tocamos frases, juntamos tudo, fazemos as correcções e vamos para o estúdio. É um bom trabalho”. E sempre sem o receio de exagerar. “Se queremos que a arte seja de facto maior que a vida, tem que ser assim”. No fim de contas, diz, a sua arte, além de auto-defesa e campo de preservação, pretende ser “terapêutica”. Para o público e para si. Bastam algumas gotas de “unza unza” por dia para fazer um homem feliz.

Mais Música Portuguesa: Bocas, Baterias, Poetas e Celsianices

21.11.1997
Mais Música Portuguesa
Bocas, Baterias, Poetas e Celsianices
Quatro novos discos de música portuguesa, representativos de áreas exteriores ao “mainstream”, estão a partir de agora disponíveis no mercado nacional: “Entre Nós e as Palavras”, de Os Poetas, pela Sony Music, “Diálogos de Bateria”, dos Tim Tim por Tim Tum e “Bocas do Inferno”, dos Gaiteiros de Lisboa, ambos na Farol, e “Celsianices”, de Celso Carvalho, em edição de autor.

De “Entre Nós e as Palavras” já se falou e escreveu muito ultimamente. É o disco de Os Poetas – Rodrigo Leão, Gabriel Gomes, Francisco Ribeiro e Margarida Araújo – onde é feita a ligação da música com a palavra poética de Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiza Neto Jorge, Herberto Helder, Al Berto e António Franco Alexandre. Resta acrescentar que a apresentação é belíssima.
Os Tim Tim por Tim Tum são um grupo de percussões (ou será mais correcto dizer de baterias?) formado por José Salgueiro (bateria e percussões), Acácio Saleiro (bateria), Alexandre Frazão (bateria) e Marco Franco (multinstrumentista), neste seu primeiro álbum com a colaboração dos convidados Jim Black (bateria e percussões) e Julinho da Concertina (concertina). “Diálogos de Bateria” reúne seis temas gravados no Auditório do Centro Cultural da Malaposta e no Régie Estúdio, incluindo um solo de bateria de Jim Black (“Jim solo”), uma recriação de sonoridades populares (“Pop larucho”) e um tema com dedicatória a Max Roach (“Max Roach”). Os outros três são “Jim Tónico”, “Aqui há latas” e “Sax e vassouras”. O CD contém ainda uma faixa em CD-ROM com aplicação interactiva para PC/compatível.
“Bocas do Inferno” é o há muito aguardado segundo álbum dos Gaiteiros de Lisboa – Carlos Guerreiro, José Manuel David, José Salgueiro, Paulo Marinho, Pedro Casaes e Rui Vaz – depois da pedrada do charco que constituiu o seu disco de estreia, “Invasões Bárbaras”.
De um total de catorze temas, seis são populares (“Leva leva”, “Segadinhas”, “Por Riba se ceifa o pão”, “Milho grosso”, “Folia do espírito” e “Nós daqui e vós dali”), um leva a assinatura do compositor norte-americano John Philip Sousa (“Wash Post”), sendo os restantes sete da autoria dos elementos do grupo Carlos Guerreiro (“Triângulo Mângulo”, “Ciao Xau Macau”, com letra de Sérgio Godinho, “Condessa” e “Chula Gaiteira”) e José Manuel David (“Agora que eu vou cantar”, “Trompa da Moda” e “Cromórnia”).
Comparando com o álbuma antrior, o instrumentário dos Gaiteiros, em “Bocas do Inferno”, aumentou consideravelmente, mantendo embora a exclusividade dos sopros, percussões e cordas percutidas que são timbre do grupo. Por ordem aleatória e seguindo a ficha técnica: Bombo, timbalão, maracas, prato, trompete, gaita-de-foles galega, búzio, sanfona, clarinete acabaçado, cromorna, caixa de rufo, filiscorne, ocarina, sino sintetizado, tambor de cordas, marimbas, shawm chinês, gongo, tambor chinês, idiofone indiano, mum-mum, flauta de Pã, “ciaramella” corsa, idiofone de lâminas, choca, pandeireta, caixa chinesa, “svina dragão” e gaita-de-foles de Trás-Os-Montes. No capítulo dos também já característicos instrumentos inventados pelos próprios Gaiteiros temos o orgaz, o cabeçadecompressorofrone, o espátulofone e a serafina. Todos com direito a muitas e detalhadas gravuras. Ah sim, e um saco de plástico, um tubo estriado com búzio e um balde de gelo chinês. Também há convidados: Vozes da Rádio, Jerôme Casalonga, Cajó, Anabela Assis, Manuel Paulo e Tiago Lopes.
Diferente será ainda o primeiro álbum a solo gravado por Celso de Carvalho, antigo elemento da primeira banda portuguesa de “free music”, os Plexus, e da Banda do Casaco.
“Celsianices” foi composto, tocado, arranjado, produzido e editado pelo próprio, em teclados vários, nomeadamente sintetizadores e “samplers”. É anova faceta de Celso de Carvalho que naquelas duas formações se notabilizou a tocar várias modalidades de baixo, violoncelo e vibrafone.

Carlos Bechegas grava na Leo – FLAUTA DE LEÃO

28.05.1997
Carlos Bechegas grava na Leo
FLAUTA DE LEÃO

Carlos Bechegas, flautista, compõe e improvisa, na flauta, sobre o que chama “música contemporânea improvisada electro-acústica”, utilizando, para tal, um “sistema interactivo midi de controle em tempo real”, com o qual explora “a articulação da linguagem electrónica (sintetizadores, ‘samplers’, processadores de som, fita magnética) com as diferentes sonoridades e ‘nuances’ tímbricas dos instrumentos acústicos, em composições variavelmente estruturadas com e sem partituras”.
É neste âmbito que, inesperadamente, surge a gravação de um compacto de Carlos Bechegas no selo inglês Leo Records, especializado em “novas músicas”. O disco divide-se em duas gravações ao vivo, efectuadas noutras tantas edições de um encontro de música improvisada, realizadas no Teatro do Oriental. A primeira, com Carlos Bechegas (flautas, processadores, sintetizadores, teclados e controlador de midi) integrado no seu trio IK*Zs(39, ao lado de Ernesto Rodrigues, em violino, e José Oliveira, em percussões, foi gravada em 1995. A segunda parte, gravada em 1993, tem por título “Flute Solos/Movement Sounds” (com dedicatórias a Evan Parker e Steve Lacy) e é constituída por solos de flauta em interactividade com electrónica.
O “resultado estético”, de acordo como o que o próprio músico explica nas notas do texto promocional, “caracteriza-se por uma narrativa enérgica de imprevisível alternância, através de universos e tipologias da música, nomeadamente estruturas rítmico-atonais, etno-modais, texturas “minimal-free” de rasgada tensão e densidade abstracta, contrastando com depuradas atmosferas, tranquila e desconstruidamente a-concretas, paisagens-ambiências sonoras de cores e timbres oniricamente intimistas”.
Curiosamente, o material que aparece no disco da Leo não é aquele de que Carlos Bechegas estava à espera. “Tinha gravado em casa, no ano passado, material à base d eflauta acústica. Entretanto peguei nesse material e juntei a esses ‘takes’, como um ‘portfolio’, duas outras gravações que tinha, em concerto, que são as que aparecem no disco. Na Leo responderam-me que tinham mais interesse em editar a segunda cassete do que a primeira, porque estava mais de acordo com a perspectiva da música do catálogo, além de que um trabalho a solo é sempre mais difícil de vender, sobretudo para quem não é conhecido.”
Para Carlos Bechegas tal opção não constituiu motivo de grande desagrado, embora reconhecendo que a sua vontade inicial era apresentar “o instrumento em si, mais virgem, mais limpinho”. Actualmente, já sem a presença de Ernesto Rodrigues, Carlos Bechegas perspectiva a gravação do trio como “uma correspondência” ou “uma extensão” do seu trabalho a solo, estreado em 1989, na Comuna. “O grupo tem a ver com a articulação das linguagens electróncia e acústica, baseada numa improvisação estruturada”. Explica-se o método: “As estruturas aparecem a seguir aos ensaios. As pessoas improvisam, depois analisamos e repescamos o material mais interessante.”
“Flute Solos/Movement Sounds como um complemento, onde “as coisas são trabalhadas mais em pormenor, havendo diferenças substanciais de tema para tema na utilização da electrónica. Mais um trabalho de pesquisa”.
Consumada a edição do compacto, co-produzido pelo próprio Bechegas em conjunto com a editora, fica aberta a possibilidade de futuros trabalhos – gravações e espectáculos – no estrangeiro. “O nosso mercado é muito reduzido. Com a minha dinâmica de não me acomodar, inconformado por natureza, encaro este disco como um cartão de visita para o mundo inteiro que vou tentar potencializar ao máximo”.
Este compacto de Carlos Bechegas poderá ser adquirido através da Ananana, em Lisboa, ou da Áudeo, no Porto.