Arquivo mensal: Abril 2010

Genesis – Rael Na Real Em Cascais

04.03.2005
Genesis
Rael Na Real Em Cascais
The Lamb Lies Down On Broadway foi o concerto certo na altura certa. A revolução de Abril, e o seu banho de realidade, era ainda uma criança mas o onirismo do rock Progressivo já declinava. Os Genesis acertaram precisamente no meio. Um DVD editado puxa pelas memórias.

Para os que estiveram presentes no Dramático de Cascais nas noites de 5 e 6 de Março, de 1975, foi o concerto das suas vidas. Tão importante que, 30 anos depois, um grupo de carolas resolveu juntar-se para comemorar e promover iniciativas alusivas ao concerto: um almoço-encontro (amanhã, no Centro Cultural da Gandarinha, às 13h30, com entrada a 30 euros), um número da revista Cais dedicado ao concerto e a edição de um DVD-documentário [ver texto nesta páginas].
1975 foi um ano estranho em Portugal. A ebulição provocada pelo 25 de Abril estava longe de se considerar extinta e saborear o gosto da liberdade era ainda estonteante. Viviam-se os tempos do PREC (Processo Revolucionário em Curso), espantava-se o medo que a reacção erguesse de novo o rosto monstruoso. Tão monstruoso como a máscara que Gabriel vestiu nessas noites, durante a apresentação do tema “The colony of the slippermen”, com as suas bolhas-balões…
O concerto dos Genesis, mítico porque catalisador de uma corrente estética – o rock progressivo – e centrado no espírito da época, foi um sonho tornado realidade para os que lá estiveram. Duas noites de escape feito visão, com o COPCON (Comendo Operacional do Continente) a tentar controlar no exterior do Dramático de Cascais aquilo que é impossível de controlar, a imaginação. No segundo dia houve mesmo tiroteio (para o ar) a causar o pandemónio geral. Ambiente fervilhante. Lá dentro, ainda mais quente, estaria delirante.
Foram 20 mil os que assistiram à apresentação de “The Lamb Lies Down on Broadway”. Para o grupo era o pico de uma carreira que abraçara o rock progressivo mas que neste álbum prenunciava já a ruptura com um imaginário que o punk arrasaria e formataria em canções de dois minutos de ódio e a ainda menor número de acordes. As tensões eram imensas mas a obra revelou-se capital. Peter Gabriel, Rael (anagrama de “Real”), na iconografia de “The Lamb…”, trazia já embrulhada nas suas histórias o dia-a-dia a preto e branco (como a capa do álbum, a contrariar a profusão cromática das anteriores).
A fantasia dos Genesis deixara de ser a “trip” de “Supper’s Ready” (“Foxtrot”, 1972), a surrealidade de “Nursery Crime” (1971) ou a Inglaterra paradoxal de “Selling England by the Pound” (1973). Agora era a luta de Rael, um porto-riquenho de casaco de cabedal. De certa forma “The Lamb…” antecipa o fim do rock progressivo, num ano, 1974, que coincide com a agonia desta corrente musical. As “suites” de 20 minutos desapareceram, dando lugar a canções curtas que revelam o desejo de Gabriel de chegar a outro público, mais próximo da pop e menos elitista. Não por acaso o grupo teria a sua primeira cisão já no ano do concerto, 1975, sendo “The Lamb…” por muitos considerado não um álbum dos Genesis mas uma obra de Gabriel. Gabriel que encetaria a partir daí carreira a solo que não fez mais do que confirmar o abandono do rock progressivo. Quanto aos Genesis, depois de breve período de transição, sinalizado por “Trick of the Tail” (1976) e “Wind and Wuthering” (1976), tinham o caminho aberto para se tornarem num grupo “mainstream”, de estádio, para multidões.
1975 foi pois o último ano de glória do Progressivo. O ano seguinte seria o voltar da página mas “The Lamb…” ainda é considerado a obra-prima do grupo. O teatro e a inovação que nessas noites em Cascais fizeram revirar os olhos à assistência representaram o expoente da estética do grupo. Fumos, máscaras, “slides”, ilusões de óptica transformaram o concerto num ritual de metamorfoses. Mas Peter Gabriel/Rael que escrevera sozinho toda a peça (duplo álbum em disco, mais de duas horas de espectáculo ao vivo) estava de saída. Os Genesis nunca mais voltariam a ser os mesmos. Os elementos da assistência também.
Não foi o primeiro concerto de rock progressivo em Portugal. Antes já por cá tinham passado os alemães Embryo (curiosamente, a estreia, gratuita, de um concerto deste tipo, aconteceu com um representante do krautrock), os If, os Beggars Opera e – primeiros a actuarem no Dramático – os Procol Harum. Mas os Genesis vieram na altura exacta, no apogeu. Ao contrário de outros concertos, em que o mais excitante foi de ordem não-musical, os Genesis trouxeram a perfeição.
No caso dos Procol Harum, foi ver parte do público a saltar para o interior do pavilhão a partir do telhado, ao mesmo tempo que, numa tentativa para acalmar os ânimos, a organização anunciava pelos altifalantes que já faltava pouco e que os músicos estavam nesse momento a entrar para o avião que os traria de Londres para Lisboa… Com os Beggars Opera a excitação aconteceu quando um dos assistentes, culminando um “strip tease” improvisado, pontapeou um dos sapatos para a plateia. O esmagamento contra a parede da entrada do Monumental, no concerto dos String Driven Thing, não conta. O concerto dos Atomic Rooster em Almada, com o tropel do público a espezinhar o porteiro e este, pisado e espalmado no chão, continuando, num delirante excesso de zelo, a pedir que lhe fossem mostrados os bilhetes, também não… Era o rock em Portugal nos anos conturbados do pós-revolução.
Casos extremos foram o tiroteio da polícia no concerto dos Can no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa e, no registo oposto, a beatitude ordeira dos que se deslocaram a Cascais para ver e ouvir os Pulsar. Com os Genesis foi tudo em grande: o público em excesso (houve quem, no interior do pavilhão, não visse peva do espectáculo), o visual desmesurado do grupo, a dimensão inflacionada da própria obra, escrupulosamente recriada em moldes artísticos e técnicos a que Portugal nunca antes assistira.

Genesis
Metralhadoras e Charros

As recordações seguintes pertencem a quem esteve lá e se lembra. Com histórias para contar daqueles dois dias de apertos, tiros, mas, sobrelevando tudo, um dos maiores espectáculos de rock ao vivo em Portugal.

Miguel Ângelo – Delfins
Tinha 8 anos quase 9, e um dos discos que tinha ouvido no ano anterior era o “Selling England by the Pound”, em casa de umas primas que passavam férias em Inglaterra e traziam alguns vinis que por cá não se encontravam. Assim rumei a Cascais, acompanhado pelas referidas primas, irmão e pais. Lembro-me do ambiente de celebração, era o primeiro dia de concerto e a revolução ainda estava fresca. De qualquer modo, não houve grande confusão lá dentro (ao contrário do segundo dia, onde o COPCON também actuou!). Antes do concerto, as pessoas aplaudiam aqueles que conseguiam entrar à borla através de uma abertura na bancada que dava para o hipódromo! Quando as luzes se apagaram toda a gente se pôs em pé em cima das cadeiras, e fiquei em desvantagem. Nisto, um freak simpático ao meu lado pôs-me às cavalitas, de onde vi a maior parte do concerto! Nunca lhe agradeci o suficiente por isso… A memória fotográfica resistiu mais ao tempo que a auditiva, embora a interpretação de Gabriel e os teclados de [Tony] Banks fossem a marca de água das canções, juntamente com a guitarra de [Steve] Hackett, o único músico que tocando sentado contrastava com a exuberância de Gabriel. Mas tenho presentes, mais ou menos desfocadas, as imagens do manto negro a abrir o seu patchwork colorido em “The Light Lies Down…”, do efeito do cone de luz rodando sobre o cantor, da simulação da “cage”, da ilusão, através de um manequim, de Gabriel estar nos dois lados do palco ao mesmo tempo, daquela banda de imagem dividida por três ecrãs – inovadora para a altura! – e daquele balão rebentado no fato de estranhas protuberâncias que tinha sido usado como imagem promocional do concerto. Este concerto terá cimentado a minha ligação eterna à música pop e apontado uma via profissional alternativa, num país ainda muito atrasado nesse aspecto. Mas era aquilo que quereria fazer “quando fosse grande…”

David Ferreira – Director da EMI-VC
Estava tão cheio que dava a sensação de que não havia lotação limite. Estávamos todos permanentemente ao colo de alguém ou com alguém ao nosso colo. Há cerca de três anos, eu estava no estúdio do Peter Gabriel para ouvir o último disco dele. Não o conhecia pessoalmente. Almoçámos no estúdio da Real World e o Peter Gabriel apareceu estávamos nós a começar a almoçar. Ia cumprimentando as pessoas e na altura em que chegou a minha vez disse-lhe: “olhe, não nos conhecemos, mas a primeira vez que o vi foi há vinte e muitos anos”. Ele ficou assim a olhar para mim. Até que exclamou: “Portugal… Portugal… ah, com as metralhadoras!” Lembrava-se perfeitamente, nunca tinha actuado ao lado de soldados com metralhadoras. Ficou encantado o resto do tempo a contar histórias desse concerto. Também me lembro que apareciam dois Peter Gabriels. Mais tarde quando vejo o Phil Collins a assumir as rédeas como cantor parti do princípio que o clone do Peter Gabriel seria ele. E lembro-me que estávamos todos vagamente charrados, com o que o tipo do lado fumava. A proximidade das pessoas era tão grande que era impossível deixar de sentir o fumo. Foi uma mistura curiosa de uma sobrelotação terceiro-mundista, metralhadoras e charros.

Zé Pedro – Xutos e Pontapés
Para a minha geração foi o grande concerto rock. Estava fascinadíssimo. Fui para lá com três dias de antecedência, só tinha dinheiro para o bilhete de um dia, para o segundo dia falsifiquei, fiz um bilhete à mão. Só o ambiente já era excepcional, podemos comparar, à nossa dimensão, a um Woodstock.

Manuel Cardoso – Tantra
Fui aos dois dias. Aquilo foi um aperto desgraçado, inacreditável, mas os espectáculos foram memoráveis. Impressionou-me sempre a obra em si, “The Lamb Lies Down On Broadway”, embora não seja o meu trabalho preferido dos Genesis. Gosto mais dos dois primeiros álbuns, a seguir vem esse e o “Trick of the Tail”. Impressionou-me o espectáculo, mas o concerto não marcou nada os Tantra. Cresci com os Genesis mas não, essa questão [da influência] foi sempre[ posta] por causa das máscaras, as pessoas colam pelo óbvio. A nossa música não tinha nada a ver com os Genesis, aliás era das bandas progressivas, eles e os Pink Floyd, as que menos nos influenciaram.

Lena D’Agua – Cantora
Fui no dia em que houve tiros lá fora. Estava tanta gente, tanta gente que ficou impossível. Eu estava pendurada, agarrada a uma grade, como não sou alta, só assim é que dava para ver. Fui com dois amigos, um era o meu namorado, futuro marido, e mais um outro da banda, os Beatnicks. Quando chegámos a Cascais, de comboio, estava tanta gente, havia filas que davam a volta ao quarteirão. Mas passámos ao pé de um porteiro a perguntar quanto tempo é que ele achava que ia demorar. Eu estava muito apaixonada, com uma tunicazinha e ele achou que eu estava grávida. “A senhora está à espera de bebé, pode entrar!”. E entrámos. O mais incrível é que eu não estava grávida mas engravidei mesmo nesse mês, também já andava a pedi-las. O concerto foi um espectáculo de luzes, aquele Peter Gabriel maravilhoso, o que ele fazia no palco… desaparecia de um lado, aparecia do outro… Lembro-me de um túnel por onde ele entrava… Era tudo fantástico para nós, na altura o que tínhamos por cá eram os festivais de jazz de Cascais. E a gente não faltava. Não éramos do jazz, mas era uma maneira de vermos bons músicos a tocar.

Manuel Mouzos – Realizador
Fui ao segundo dia, com bilhete, embora depois soubesse pelos meus amigos que houve gente que entrou sem rasgar o seu, por causa da confusão à porta. Lembro-me de ver na entrada militares e isso marcou-me logo, além do facto de ser a banda, na altura, minha preferida. Todo o frenesim, não só meu, e depois aquela confusão que se gerou… até que um dos militares, sem querer, começou a disparar o que gerou ainda maior confusão. A imagem que tenho é da entrada ficar de repente um deserto cheio de sapatos e sacolas. Depois de nova tentativa de entrada, quase ia morrendo, espezinhado, caiu uma pessoa à minha frente, depois outra, caíram não sei quantas para cima de mim, foi turbulento. Mas o facto de nos conseguirmos desembaraçar da situação e conseguirmos entrar, lá dentro lá animámos e realmente foi um concerto magnífico, quase mágico. Quando saímos só queríamos é que aquilo continuasse por mais tempo.

Encore
30 Anos Depois
Genesis
Encore Cascais 75
DVD distri. Bazar do Vídeo
7/10

Há 30 anos, o cordeiro deixou a Broadway para vir, mais do que descansar, desatinar Cascais e o público português. O DVD “Genesis Encore Cascais 75” relembra como tudo se passou, para gáudio dos que pretenderem reavivar a memória do mítico concerto de 6 de Março de 1975.
Intercalados com os vários depoimentos, surgem imagens da época que recuperam o ambiente político do país até se chegar ao próprio pavilhão Dramático de Cascais e, por fim, a imagens do concerto, captadas por elementos do público.
Os entrevistados vão desfiando memórias, nem sempre coincidentes com a realidade. Eram os tempos, diz alguém, em que os discos chegavam cá com meses de atraso. Não é verdade. As novidades, muitas delas álbuns obscuros, chegavam por via de importação com relativa celeridade a discotecas como a Melodia, Universal, Valentim de Carvalho, Sassetti e Sinfonia. Eram tempos, diz outro entrevistado, em que apenas havia publicações de música em francês (presumivelmente estaria a pensar na Rock & Folk” e na “Best”) e em alemão (“Bravo”9. Errado. Os jornais britânicos “Melody Maker” e “New Musical Express” há anos que ocupavam semanalmente os escaparates de algumas livrarias e papelarias de Lisboa.
Politicamente vivia-se o tempo do PREC (“Processo Revolucionário em Curso”), saltam imagens de comícios e manifestações de rua. O concerto dos Genesis era visto como algo difuso, “uma coisa colada à direita”. A voz “off” de José Mário Branco canta versos como “abaixo a burguesia e a exploração”. O 11 de Março não tardaria nessa “semana completamente louca” em que o jornal A Capital anunciava que a “CIA planeia golpe de estado em Portugal antes do fim de Março”. 20 liceus estavam em greve, era “vulgaríssimo haver cenas de pancadaria”. No meio de tudo isto o concerto dos Genesis era uma “coisa extra-terrestre”.
Chegado o dia, e para não destoar do contexto, “foi a balbúrdia total”. O DVD, realizado por João Dias a partir de um conceito idealizado por Mário Caeiro, mostra recortes de jornal. Num deles pode ler-se “Genesis em Cascais: Um novo processo de tortura voluntária”. As imagens paradisíacas do jardim anexo ao pavilhão escondem a violência e a incomodidade dos que conseguiram entrar, pagando ou não o bilhete de 80 escudos. São mostradas imagens do pavilhão, ainda em construção. 10 mil, 11 mil pessoas em cada um dos dias transformaram o Dramático de Cascais num barril de pólvora.
Mas quando o espectáculo começou finalmente, todo o sofrimento desaparece como por magia. Os rostos ficam “histéricos”. Alguém fala no chuto que sentiu quando o som irrompeu de repente das colunas. Ninguém esqueceu o aparato cénico. Peter Gabriel que aparece em dois locais do palco simultaneamente. “Uma projecção”. Um deles era um “boneco”. “Jogo de espelhos”. Ainda hoje o mistério permanece. Também é recordada a parte em que o vocalista dos Genesis passeia dentro de um tubo iluminado. Um “preservativo gigante” onde Gabriel fazia de “espermatozóide”. Só no fim do DVD, sobre as imagens do grupo em palco captadas por um amador, se ouve a música de “The Lamb Lies Down On Braodway”.
Os extras incluem material fotográfico abundante, desde imagens registadas durante os dois dias de concertos a uma fotoreportagem com fotos do grupo antes e depois dos concertos, em poses descontraídas na vila e na baía de Cascais.
Há ainda um apanhado de reacções da imprensa da época, reproduções das páginas da próxima edição da revista Cais (CasCAIS 75…) inteiramente preenchida pelo acontecimento de 1975 e excertos do espectáculo “The Lamb Lies Down On Broadway” que o grupo canadiano The Musical Box, clone dos Genesis, apresentará em Lisboa, na Aula Magna, em Maio, comemorando os 30 anos da edição original do álbum. Os The Musical Box, depois de já terem mimado álbuns anteriores do grupo original, como “Foxtrot” e “Selling England By The Pound”, foram desta vez ao ponto de reproduzir os modelos de instrumentos originais usados pelos Genesis em “The Lamb Lies Down On Broadway” e vão socorrer-se igualmente de todos os truques de encenação que a banda britânica usou em Cascais.
30 anos é muito tempo para ser concedido um “encore”. Mas ao ver-se este DVD parece que foi ontem.

Jah Wobble – Requiem

03.10.1997
Jah Wobble
Requiem (7)
30 Hertz, import. Symbiose

LINK (Anthology – I Could Habe Been A Contender)

Jah Wobble não pára de nos surpreender, desta feita pela positiva. “Requiem” demonstra que o peso-pesado do baixo afinal é capaz de fazer mais que calcetar música com o seu martelo-pilão de baixas frequências. A primeira parte desta composição, inspirada na audição da música de Oliver Messiaen, é uma sequência circular para Synclavier e orquestra, com um motivo recorrente de vaga inspiração celta. A segunda, em forma de cantata, reforça a nota de tristeza própria de um requiem, evocando a grandiosidade coral de um Carl Orff.
Na terceira, em andamento ainda mais lento, um oboé introduz uma orquestração e contornos “micahel nymanianos”, derivando depois para um “andante” de percussões sintéticas contra vozes semiorientais, sequenciadas numa rítmica típica dos Magma. “The Father” e “The Mother”, os dois restantes temas, completam este “Requiem”, numa nota de religiosidade mariana. “O pai” inclui uma divagação de órgão de igreja virtual, enquanto “a mãe”, variação moderna de uma “Cantiga de Santa Maria2 de Afonso X, torna mais real e dramático o som do órgão de igreja, numa manifestação eloquente de devoção à Virgem Maria. Temos assim um Jah Wobble cada vez mais devoto. Quem diria… Ele que até já fez parte dos Public Image, ao lado de John Lydon, vulgo Johnny Rotten…

Clau de Lluna – Obertura (conj.)

19.09.1997
Folk Espanha
Doa A Quem Doer
Enquanto por cá os discos importantes de grupos nacionais vão surgindo com intervalos de meses ou mesmo de anos, ao nosso lado, na vizinha Espanha, acontece o oposto. Músicos e editoras, animação e formação convergem num propósito comum. Os resultados estão à vista. Clau de Lluna, Luétiga, Clorofolk, Atlântica e Doa são exemplos da melhor folk que se está a fazer do outro lado da fronteira.

“Obertura” é o terceiro álbum dos catalães Clau de Lluna, sucedendo a “Cercle de Gal-la” e “Fica-Li Noia!”. Diga-se desde já que é o melhor ábum do grupo. Não podia ser mais auspiciosa a abertura desta “Obertura”, uma “suite” de dez minutos com este nome onde é manifesta a enorme evolução sofrida pelo grupo. Dividida em quatro movimentos, “Obertura” apresenta uma riqueza excepcional ao nível dos arranjos, sucedendo-se as surpresas: um solo inspirado de gaita-de-foles, “intermezzos” barrocos, cânticos religiosos, no fundo pondo em prática o principal propósito enunciado pelo grupo: “a procura de uma sonoridade folk actual e genuinamente catalã”. Os restantes 12 temas centram-se nas danças tradicionais, contradanças, valsas, “sardanas”, “jotas” e “passedobles” animados pela gaita-de-foles (“sac de gemecs”, estes catalães são loucos!…), sanfona, violino, acordeão, cordas dedilhadas e percussões. Há ainda polifonias (“Con no n’era”) e aproximações à música antiga (“Tocata i polca”) num baile para dançar até ao nascer do dia (Música Global, distri. MC – Mundo da Canção, 8).
Diz a lenda que em todos os sábados, quando a oite cai, as bruxas da Cantábria saem, voando, em forma de aves, a caminho de Cernéula…”
Deixem a racionalidade de fora, caso queiram aceder ao mundo de histórias contadas em voz baixa à lareira na estação dos frios e de danças de transmutação m´gica, nos rituais da Primavera, dos Luétiga. Canções montanhesas, as “tonadas campurrianas” típicas da região, instrumentais sdofisticados e vocalizações “a capella” são abordadas pelos seis elementos dos Luétiga, neste seu terceiro álbum, depois de “La Ultima Cajiga” e “Nel ‘El Vieju”, numa perspectiva de modernização que não trai a essência desta música profundamente enraizada na sua região natal, a Cantábria, a sul das Astúrias.
A instrumentação, como é regra neste género de grupos, é variada, incluindo a gaita-de-foles cantabro-asturiana, flauta e tamborim, pandeiretas, guitarras, violino, clarinete e acordeão. Tudo junto faz de “Cernéula” um álbum indispensável. Já agora, não liguem ao aviso, se pretendem bailar “a lo agarrau”, método considerado uma invenção do demónio, em que os jovens que dançavam deste modo “eram condenados irremediavelmente ao inferno” (Several, distri. MC – Mundo da Canção, 9).
Dois elementos dos Luétiga, Marcos Bárcena (guitarra, “whistle”, gaita-de-foles, “bodhran”, flauta e voz) e a, cremos que irlandesa, Kate Gass (violino, “whistle”, concertina, acordeão, pandeireta e voz), formaram o seu projecto pessoal, Atlântica, onde dão largas ao “pecado” da irlandização. Num álbum intitulado “Musica Celta Y De Otros Paises Del Atlantico”, pois claro, os “reels” são a pontapé e as vocalizações em inglês fazem sorrir. Há quem goste. Nós achamos que, apesar de tudo, lá mais para norte, na ilha, soa mais convincente. Mas gostos não se discutem, como se costuma dizer… Condescenderam num tradicional da Galiza, noutro da Escócia, noutro de França, noutro ainda do Quebeque. O resto é tudo Irlanda e, para falar com franqueza, um pouco aborrecido e “celtichique” em demasia… (Several, distri. MC – Mundo da Canção, 6)
Os Clorofolk, outro sexteto, no seu álbum de estreia, “Cambio de Agujas”, preocupam-se menos com os purismos regionalistas do que com uma abordagem renovada da música do mundo. Vão à Bretanha, à Roménia e, na vasta geografia espanhola, a Zamora e à Sanábria. E ao Oriente, que lêem de forma particular na sua “Luna de Oriente”. Rabi Abou-Khalil parou no centro do imenso planalto castelhano. E “El Monte de Venus” é tão inocente como a delicadeza das guitarras quer fazer crer? Progressivos (vestidos de Malicorne em “Ezperanzas Rotas”, pode lá ser, mas é um tema delicioso, o melhor, a par de “Apenas Brilla La Aurora”, uma oração de gait-de-foles…), criativos e sem preconceitos, aos Clorofolk faltará, para já, soltar alguma adrenalina. Ou será que o defeito é da produção? 8Saga, distri. MC – Mundo da Canção, 7.)
Resta darmos graças à reedição de “O Son da Estrela Escura”, dos Doa, um dos clássicos da música tradicional e antiga da Galiza, editado originalmente em 1979. Ainda um sexteto, os Doa recriavam então, com a sapiência de verdadeiros iniciados, as cantigas de Santa Maria, de Afonso X, as antiquíssimas “danças de espada”, com semelhamças melódicas e rítmicas com a música da Bretanha e da Provença, um romance francês do Caminho de Santiago, a “Carballesa” galega, a “Danza do Rosal”, a “Cabalgata de Ribadavia”, cantigas de amigo de Martín Codax e os célebres “Romance de dona ausenda” e “A Casadina infiel”. Em todos eles sobrleva ora uma simplicidade tocante, ora a grandeza arquitectónica de uma catedral. Para ouvir com devoção. Obrigatório. (Clave, distri. MC – Mundo da Canção, 10)