Arquivo mensal: Abril 2010

Arcana – Cantar de Procella

03.10.1997
Arcana
Cantar de Procella (5)
Cold Meat Industry, import. Symbiose

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Um organista louco martela as notas do inferno num órgão de um templo em louvor a estranhas ruindades pagãs. Da fogueira eleva-se um cântico grandioso, evocativo de… Klaus Blasquiz… quem? Klaus Blasquiz, o Pavarotti endemoinhado dos Magma, quando este grupo francês ainda profetizava a vinda do império de Kobaia. É assim o ambiente do primeiro tema de “Cantar de Procella”, segundo álbum dos Arcana, uma banda de gótico com uma carga de sombras e danações impressionante.
É uma missa negra que traz para os domínios do gótico a solenidade infernal celebrada como música de câmara pelos Univers Zero, em “Ceux du Dehors”. Os Arcana fazem ainda coro com os Dead Can Dance (ou com Bernard Lustmord, num registo mais fundo e perturbador) e os In The Nursery. A mesma praga que os primeiros lançaram no cemitério e os segundos no campo de batalha. Claro que tudo isto pode ser tanto uma música que acredita verdadeiramente no seu poder de sugestão, como uma brincadeira capaz de provocar sorrisos de troça nas mentes menos impressionáveis. Já houve um tempo em que se chamava a este tipo de operações “música ritual”. Rituais das trevas, marcados por uma religiosidade profana. Só que o terror tem hoje cores bastante menos escuras, o diabo aprendeu a vestir-se de branco para melhor enganar, com elegância, as almas tresmalhadas.

M83 – Before The Dawn Heals Us

04.03.2005
M83
Before The Dawn Heals Us
Gloom, distri. EMI Music Portugal
7/10

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Guitarras, bateria, electrónica misturadas com uma batedeira inconfundivelmente francesa. Os M83 são um projecto de Anthony Gonzalez e “Before the Dawn Heals Us” é o seu terceiro trabalho, depois de “M83” e “Dead Cities, Red Seas & Lost Ghosts”. O som é épico, progressivo, evocando paisagens vastas. As referências com que vêm aureolados vão desde os Mogwai aos My Bloody Valentine, passando por Mussorgsky, Can e Tangerine Dream. A referência aos My Bloody Valentine tem a ver com o lado hipnótico das guitarras enquanto o paisagismo épico, vagamente pós-rock, convoca os Mogwai. Quanto aos Can não se percebe bem a chamada, muito menos a dos Tangerine Dream, por mais pioneiros de tudo que estes dois grupos tenham sido ainda que numa faixa como “Farewell/Godbye” os sintetizadores possam recordar a banda alemã, com os sintetizadores um bocadinho enferrujados pela humidade. Em relação a Mussorgsky, deixai o homem descansar em paz. O progressivo dos M83 tem a ver com o ambiente geral, com a construção dos temas e a constante mudança de registo. E “Fields, shorelines and hunters” até que podia ter sido gravada nos anos 70, mas “I guess I’m floating” passaria com facilidade por qualquer coisa dos Trans AM cruzados com os My Bloody Valentine. Pós-quê?

Portishead – Portishead

03.10.1997
Psicocabaré
Portishead
Portishead (8)
Go! Beat, distri. Polygram

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Façam favor de deitar fora os Smoke City e a sua visão turística de tintas Robbialac de um mundo sem fronteiras. Cerrem os dentes e fileiras. O verdadeiro “safari” pelas crostas mentais e mais cinematográficas do trip hop continua a ser comandado pelos Portishead ou, para darmos o seu a seu dono, pelas estratégias de reconversão de Geoff Barrow e a voz de diva virtual de Beth Gibbons, coadjuvados pelos dotes de composição do terceiro elemento, Adrian Utley.
A nova película, a preto e branco, dos Portishead é um “thriller” bastante mais assustador do que o sedativo prescrito pela banda em “Dummy”. Onze temas de duração curta e de extraordinária densidade sonora que a cada momento investem na desconstrução e procura de novas coordenadas para a jádemasiado tipificada componente rítmica associada ao trip hop. Mais do que nunca, Barrow recorre a um trabalho exaustivo de samplagem dos sons que percorrem o seu imaginário, de fragmentos sinfónicos e ambientais, a música de filmes dos anos 60 e excertos de “fake jazz”. Mas o que distingue verdadeiramente este processo das vulgares apropriações de James Brown e de todo o arsenal soul dos anos 60 disponível para este tipo de “roubo” é o modo como o grupo personaliza estes materiais.
Na verdade, a maior parte das samplagens de “Portishead” deriva de um processo de autofagia, em que o grupo toca e grava primeiro em tempo real para um suporte em vinilo, usando depois as gravações para processamento, seja ele de sequenciação, decalque ou simplesmente de “scratch”. O resultado é um universo globular e esfrangalhado, de canções residuais amparadas pelas vocalizações – entre um “western” de Salem, a balada jazz clássica em processo de decomposição, um carnaval macabro de New Orleans, a soul petrificada e o cabaré de almas penadas – de Beth Gibbons, também elas saturadas por camadas sucessivas de filtragem, raspagem e polimento.
Não admira que no meio desta respiração pesada e do ambiente de claustrofobia os Portishead desenhem, mesmo que esta seja ainda uma derradeira ilusão, janelas abertas para o ar livre e para o silêncio, como acontece em “Humming”, onde um “Theremin” sideral faz vibrar o ar, precisamente, num “requiem” electrónico pela morte das “boas vibrações”.